Notícia

Correio da Paraíba

Sacarose e óleo de soja eliminam pragas

Publicado em 29 julho 2007

São Paulo (Pesquisa Fapesp) - Um biopesticida capaz de controlar diversas pragas agrícolas sem causar danos ao ambiente e com diversas vantagens em relação aos agrotóxicos convencionais foi desenvolvido nos laboratórios da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os resultados laboratoriais e no campo mostraram a eficiência do produto e despertaram o interesse da empresa paulistana Technes Agrícola, que já firmou um contrato de transferência da tecnologia com a universidade. O produto deverá estar disponível para os agricultores brasileiros em cerca de três anos.

"O biopesticida é feito a partir de fontes renováveis, não é tóxico a mamíferos e, portanto, não oferece riscos à saúde de quem manipula o produto ou consome os alimentos protegidos por ele. É também biodegradável, não polui o ambiente e não interfere no desenvolvimento da planta", explica o químico Maurício Boscolo, professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), da Unesp de São José do Rio Preto, no interior paulista, que coordenou os estudos de desenvolvimento do praguicida.

O produto é um composto da classe dos ésteres de sacarose, substâncias compostas pela reação de um ácido, no caso os ácidos graxos do óleo de soja, e açúcar. O processo utiliza a sacarose da cana-de-açúcar e os compostos formados são denominados como sucroésteres. Segundo Boscolo, todos os testes realizados até então mostraram que, apesar de ser produzido com reagentes comuns e de origem vegetal, o biopesticida é eficiente, possui grande potencial econômico e não gera resíduos ao longo do processo industrial.

No contrato assinado entre a Unesp e a Technes, além da transferência de tecnologia também está garantida a cooperação técnica para produção em larga escala do praguicida com a empresa, que é especializada no desenvolvimento de fertilizantes orgânicos e minerais, suplementos e outros produtos para o campo. O acordo prevê um repasse, de porcentual não divulgado, sobre a venda dos produtos, e a construção, por parte da empresa, de um novo laboratório no Ibilce, além da reforma do Laboratório de Ecologia Aplicada da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), no campus de Jaboticabal, que também tem pesquisadores participantes do desenvolvimento do biopesticida, num valor total de R$ 155 mil.

"O produto é muito bom e gostaríamos de colocá-lo no mercado rapidamente. Mas estimamos que ele só começará a ser vendido em três anos. Esse é o tempo médio para se conseguir o registro de um novo pesticida nos ministérios da Saúde, da Agricultura e do Meio Ambiente", diz Edson Tsuzuki, sócio da Technes Agrícola. O preço final do produto e o nome comercial ainda não estão definidos, mas Tsuzuki garante que ele terá um valor competitivo. O volume inicial de produção, segundo estimativas da empresa, será de 5 mil a 10 mil litros por mês.

Proteção de gordura

A principal característica do praguicida é ser um detergente ou tensoativo, substância capaz de reduzir a tensão superficial quando dissolvida em água. Ele age diretamente na cutícula protetora do corpo de certas pragas, como ácaros e alguns insetos, que possuem um esqueleto externo (exoesqueleto) com uma fina capa de gordura, uma proteção natural cuja principal função é evitar a perda de água.

Os estudos realizados pelo grupo de Boscolo, formado também pelo engenheiro agrônomo Odair Aparecido Fernandes, professor da FCAV, e pelo biólogo Reinaldo Feres, professor do Ibilce, demonstraram que as pragas estudadas definham após a pulverização com sucroésteres.

Exames de microscopia revelaram que isso acontece porque o exoesqueleto foi afetado e, por conseqüência, houve perda de água. "Eles morrem por desidratação", diz Boscolo.

"Nosso biopesticida atua da mesma maneira que os detergentes usados para lavar louça. Enquanto estes dissolvem a gordura dos pratos, o nosso dissolve a gordura das pragas, além de possuir um efeito adesivo que imobiliza alguns insetos e aracnídeos, como os ácaros."