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Divulgação FMB-UNESP

Sabemos mesmo como caminha a Unesp?

Publicado em 09 julho 2018

Por Maria Encarnação Beltrão Sposito

A relação entre discurso, linguagem e ideias é incontestável. O que lê, para quem o discurso é enunciado, nem sempre tem clareza sobre o fato de que aquele que enuncia deveria estabelecer essa relação de modo a respeitar a ideia, bem aceita entre nós cientistas e intelectuais, de que nenhum discurso é neutro, mas, tampouco, qualquer um deles deve ser desprovido de razão e fundamentação.

A linguagem é o meio pelo qual construímos e expressamos nossa visão de mundo, nossas razões e nossas emoções; é o universo de múltiplas combinações de palavras que nos possibilita organizar o que há em torno e diante de nós; é o veículo no qual embarcamos para erguer o edifício de conceitos dos mais elementares ao mais complexos, a partir dos quais nos posicionamos no mundo. Pode, no entanto, ser também a atmosfera na qual elaboramos representações nem sempre fincadas na realidade, mesmo que isso possa ser feito de forma não intencional. Quando isso ocorre há mais simulação do que explicação!

Quando me deparo com um texto curto, em que aparece contextualização relativamente bem feita sobre um período da história, seguida de uma sequência de posições ou informações que são apresentadas sem argumentação ou fatos que lhe deem sustentação, sinto-me diante de uma estratégia discursiva que deseja levar o leitor a creditar e justificar a segunda parte do texto aos processos descritos na primeira, como se estes fossem a explicação daquela.

Discordo dessa estratégia, mas, de outro lado, não defendo qualquer tipo de neutralidade, nem científica, nem política, razão pela qual parto da concepção de que os discursos devem ser politizados o suficiente para denotar a posição de seus autores, mas jamais politiqueiros demais a ponto de promover confusão entre Política, com "P" maiúsculo, e difusão rápida e superficial de posições pré-estabelecidas e de verdades em si.

Pareceu-me ser esse o modo de construir o pensamento no artigo "Para onde caminham as Universidades Públicas brasileiras?", de Henrique Tahan Novaes, docente da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília e presidente da Seção Sindical desse câmpus universitário.

Assim, vejamos: muitos entre nós, intelectuais brasileiros, concordam com os fatos de que o Brasil vem sendo colocado à venda, como cantou Raul Seixas, e de que temos um projeto ultraliberal para o país. Também é possível observar que, nos momentos de crise, a disputa pelos fundos públicos se acirra. Como desconhecer a "tragédia brasileira", composta de opções equivocadas em nossos sistemas de transportes, de assassinatos no campo e de jovens fora do Ensino Médio? Será que, entre os educadores, há os que não tenham percebido que a educação vem progressivamente se tornando uma mercadoria? Há quem desconheça o fato de que o Banco Mundial "recomenda" aos países dependentes e periféricos que não cabe ao Estado oferecer Ensino Superior Público? Se há os que desconhecem ou têm dúvidas sobre esses pontos, não pertenço a esse grupo.

Passar dessas constatações à descrição do que são consideradas propostas ultraliberais na Universidade Pública, sem quaisquer filtros, sem distinguir os interesses internacionais das ações de múltiplos matizes que estão em movimento no âmbito da Universidade brasileira é, no mínimo, falta de acuidade. Isso pode fazer o leitor supor que há correlação unívoca entre as ações da elite e do Estado brasileiro que levam aos problemas descritos em grande parte do texto e o que ocorre dentro das instituições de ensino superior público.

Basta um pouco de capacidade analítica para apreender o conjunto de conflitos que vêm se estabelecendo entre planos de poder que são diferentes e que representam, também, interesses de diversas ordens, dos mais privados aos públicos, dos mais individuais àqueles que, supõe-se, deveriam ser coletivos. Poderia ter sido feita uma análise mais apropriada para se apreender como se estabelecem, de modo mais ou menos contraditório, os liames que articulam dinâmicas globais e nacionais ao que ocorre em nossas universidades públicas.

Menos cuidadosa, ainda, para não a taxar de radicalmente falaciosa, o que seria descuido total de minha parte, sem conhecer o autor e suas intenções, é a atitude dele de, num único parágrafo final, apresentar sua opinião sobre a Unesp. Em pouco mais de dez linhas, expressa seus pontos de vista sobre a Comissão Permanente de Avaliação, o que denomina de a "reforma da graduação" e, por fim, o "tacão de ferro invisível", que obriga os professores que atuam no âmbito da pós-graduação a produzir mais e mais.

Todos têm direito de expor suas ideias? Claro que têm. No entanto, resta a dúvida se um intelectual pode fazer afirmações sem apresentar argumentos e, então, indago: Que elementos há, no texto, para fundamentar esse último parágrafo? Que programas em curso, que documentos apresentados, que debates realizados, que decisões tomadas na Unesp alicerçam a "análise" do autor? Por que enunciar, de modo tão cabal, opiniões que podem levar o leitor a supor que seriam tão incontestáveis, histórica e politicamente, como os processos arrolados em todos os demais parágrafos do texto? Por que não explicar melhor as razões pelas quais considera que esses processos estão ocorrendo?

Para alicerçar meu ponto de vista, parto do trecho elaborado por ele, ao tratar do que chama de "novo sistema de avaliação da Unesp":

... segue o padrão toyotista de supervisão e acompanhamento de "desempenho" [e] é mais "descentralizado". A Comissão Permanente de Avaliação (CPA) era até então um órgão "distante" numa estrutura verticalizada de avaliação. Agora cabe ao chefe de departamento e aos próprios pares serem "déspotas de si mesmos", como diz o manual da Toyota (aspas do autor).

Comecemos pelo "manual da Toyota" ou pelo que a literatura de qualidade conceitua como toyotismo, bibliografia essa que o autor do texto deve conhecer muito bem, já que sua dissertação de mestrado defendida na Unicamp e publicada como livro, com apoio da Fapesp, versa sobre o tema.

Como um sistema de produção que é, próprio do período avançado do modo capitalista de produção, o toyotismo é composto de alguns elementos centrais: aplicação do just in time, para combinar o tempo de fornecimento de matérias-primas e o da fabricação dos produtos; conhecimento, por parte dos trabalhadores, de todas as etapas do processo de produção; mecanização, marcada por flexibilização; visualização, por parte dos trabalhadores, de todas as etapas de produção; avançado controle de qualidade dos produtos; realização de pesquisas de mercado para adaptar os produtos aos clientes; racionalização do trabalho, visando diminuição da oferta de empregos. Todas essas formas de condução dos processos de produção, inicialmente desenvolvidas no Japão e hoje generalizadas no mundo capitalista, têm objetivos claros: diminuir custos, aumentar a produtividade do trabalho e ampliar lucros.

Que características entre essas podem ser identificadas no documento, aprovado pelo CEPE, intitulado "Planejamento e avaliação departamental na Unesp"? Que paralelos podem ser feitos entre um sistema de produção e um processo de planejamento e avaliação que não visa lucros, nem produtividade, nem controle? Ou visa? Se sim, como fundamentar, nos cinco princípios em que se embasam o documento, ou na sua metodologia, essa posição é a questão que formulo.

Esse novo paradigma, por meio do qual é proposto anteceder a avaliação de ações de planejamento, tem como objetivos centrais o autoconhecimento dos departamentos, o conhecimento do conjunto da Universidade enunciado por suas bases, por meio das ênfases que cada grupo dá às múltiplas atividades que caracterizam nosso trabalho e a prevalência nas escolhas e decisões coletivas, às quais, pouco a pouco, devem se articular melhor às individuais. Com esses pressupostos, essa sistemática não tem, como meta, hierarquizar departamentos ou impulsionar cada um de nós a efetuar uma escalada progressiva de adição de pontos. Não é, assim, organizada para ampliar produtividade.

Se o que marca o toyotismo é o trabalho em "ilhas de produção", no lugar de "esteiras de produção", como ocorria com o fordismo, as ações mais articuladas dentro dos departamentos e entre eles não têm como meta promover lucros, mas integrar saberes e propiciar assunção ampla da construção de um projeto de universidade.

Para impor, efetivamente, metodologia afinada com o "manual da toyota", havia caminhos mais fáceis e não teria sido necessário debater o tema por 12 meses nem promover um diálogo no CEPE, que teve início com dissensos fortes e terminou com votação de 21 votos favoráveis e duas abstenções.

Continuemos com a concepção expressa sobre a CPA. A comissão é descrita como tendo sido um órgão distante numa estrutura verticalizada de avaliação. Estaria transferindo seu papel aos chefes e seus pares que passariam a ser "déspotas de si mesmo". O despotismo, todos sabemos, é uma forma de governo ou de ação que se caracteriza pela concentração de poder nas mãos de uma pessoa que o exerce de forma isolada e absoluta, por meio de arbitrariedades e coerções de toda natureza.

Alguém acredita no poder da CPA de outorgar o papel de déspotas aos demais? Será mesmo que 200 e tantos chefes e mais de 3.000 professores e pesquisadores, numa instituição pública, em que há estabilidade e à qual todos chegamos por concurso público e, portanto, por mérito, seriam agora os "déspotas de si mesmos"? Estariam todos eles desprovidos de crivo crítico, de capacidade de raciocinar e de se perceberem no processo? Quem o autor do texto que critico supõe que sejam os docentes e pesquisadores da Unesp? Gente que se presta a exercer a tirania, de modo opressor? Haveria algum espaço para tal num ambiente em que o domínio do ofício é a reflexão?

Lendo o texto, face ao fato de que as ideias não são desenvolvidas, mas apenas opiniões são, metaforicamente, expressas, não fica claro se o autor considera positivo ou não o fato de a "estrutura de avaliação verticalizada de avaliação" passar a ser mais "descentralizada". De minha parte, considero salutar a convivência entre o trabalho que a CPA vem realizando, analisando com cuidado os planos, projetos e relatórios individuais que a ela vêm, e a construção de um ambiente departamental que favoreça, a cada um de nós, conhecer melhor o trabalho dos demais colegas e compreender como o nosso pode contribuir para um projeto coletivo. Há dúvidas sobre o fato de que essa guinada na condução de nossas ações seja importante? Se há, quais são os argumentos contrários a esse novo procedimento? Ele reflete, lembremo-nos disso, o que foi solicitado nos Fóruns das Grandes Áreas de Conhecimento da Unesp, quando foram analisados os limites da planilha de critérios mínimos de desempenho docente, pois respeita histórias diferentes, diversidade entre áreas, carreiras e departamentos e, mais que isso, não tem uma grade pré-estabelecida, homogênea e fixa de variáveis e pontos. Tanto variáveis são escolhidas pelos departamentos, como pesos e projeções são feitas por eles, sem patamares rígidos, exceto o de que devemos nos equivaler, razão pela qual todos partimos de 100 pontos e a eles retornamos no biênio subsequente.

Rejeitar as mudanças que estão sendo implantadas, no que tange ao planejamento e avaliação departamental ou a outros projetos em debate, porque elas vêm da Reitoria é o mesmo que admitir que há a universidade, de um lado, e a Reitoria, do outro, como se não houvesse órgãos colegiados, associações e sindicatos, diretórios e centros acadêmicos, CRUESP e imprensa, estatuto, regimentos, regulamentos e Ministério Público, como se os que participam da gestão não fossem há longo tempo docentes e pesquisadores ou como se não houvesse conflitos e contradições, constantemente em movimento, com os quais temos que lidar, o que é positivo, se não consideramos que a realidade só pode ser vista de duas perspectivas opostas e antagônicas, que nunca se tocam.

*Maria Encarnação Beltrão Sposito é docente do Departamento de Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, Câmpus de Presidente Prudente, desde 1980, e presidente da Comissão Permanente de Avaliação da mesma universidade, desde 2017