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Ruptura na universidade

Publicado em 10 janeiro 2006

Agência FAPESP
Revista Pesquisa FAPESP - Em seu discurso de agradecimento ao receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Brasília (UnB), o físico Roberto Salmeron avisou à platéia que aquela data em que se realizava o evento era de uma extraordinária coincidência. Exatamente no dia em que foi agraciado, 19 de outubro de 2005, completava-se mais um aniversário de um acontecimento inusitado na vida universitária brasileira.
Há 40 anos, 223 professores se demitiram em protesto contra a interferência do regime militar na vida acadêmica e a expulsão de 15 docentes. Com um quadro de 305 professores, a UnB perdeu 79% de seus mestres em um único dia. A universidade havia começado as atividades em abril de 1962 e ainda estava em plena estruturação, com prédios em construção e sem que todos os cursos estivessem abertos.
Embora Brasília tenha sido criada por Juscelino Kubitschek, o ideal de uma universidade inserida na cidade sempre constou do projeto do urbanista Lúcio Costa, que reservou uma área específica para ela no Plano Piloto. "Lúcio Costa estava consciente de que uma universidade seria necessária para a germinação da vida intelectual na nova capital do país", diz Salmeron, ativo participante das discussões sobre a UnB e, anos depois, coordenador dos seus Institutos Centrais de Ciência e Tecnologia e do Instituto de Física. Na França desde 1968, hoje aposentado da Escola Politécnica de Paris, em 1999 ele publicou A universidade interrompida: Brasília 1964-1965 (Editora da UnB, 476 páginas, esgotado).
Motivados pelo clima de mudança da época, os especialistas convidados a discutir e planejar a UnB pensaram num modelo mais avançado de universidade, que foi aplicado e posteriormente adotado por outras instituições de ensino. A UnB foi dividida em oito institutos centrais e faculdades. Cada um deles agrupava todas as atividades de ensino, pesquisa ou qualquer outra criação intelectual em sua área. Os alunos tinham uma formação básica por dois anos.
Quem desejasse seguir carreira científica ou artística continuaria no instituto. Mas se escolhesse outra profissão seguiria para a faculdade adequada a partir do terceiro ano. Pela primeira vez criou-se o sistema de créditos, pelo qual a aprovação em uma disciplina era reconhecida em toda a universidade — se o aluno mudasse de opção não precisaria cursar outra vez as disciplinas.