Notícia

Jornal da USP

Rumo à interdisciplinaridade

Publicado em 22 abril 2013

Por Paulo Hebmüller

Na era das conexões virtuais ditas “sociais”, criar espaços “físicos” para que seres humanos se encontrem e troquem experiências não é uma ideia de pouca importância. No caso das universidades, não são poucas as que têm investido na criação de cafeterias que propiciam a interação de professores e estudantes de diferentes áreas. Trata-se inclusive de uma formulação acadêmica defendida pelo espanhol Jorge Wagensberg em seu livro O gozo intelectual (Editora da Unicamp, 2009): a universidade pode ser mudada fomentando-se o conceito de cafeteria. Nela se dão conversas nas quais surgem novos problemas e propostas de estudos interdisciplinares.

No Encontro Acadêmico USP Interdisciplinaridade no Ensino, Pesquisa e Extensão, realizado no auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária, nos dias 15 e 16 de abril, vários palestrantes fizeram referência às cafeterias como espaços de encontro.  A professora Gabriela Celani, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, apresentou o projeto do prédio do Ciclo Básico 3 da instituição, que terá laboratórios interdisciplinares para graduação, livraria, áreas de convivência – e, claro, uma cafeteria. Juan Larraín, da Universidade Católica do Chile, também mostrou um novo prédio que vai abrigar centros disciplinares e terá um espaço com a mesma destinação.

Na USP, o ex-reitor José Goldemberg lembrou que em sua gestão (1986-1990) criou o Clube dos Professores, restaurante que já trazia essa intenção. “A USP é muito pobre em relação a seus espaços, em comparação com outras universidades. Quem sabe a Praça do Relógio possa ser convertida num local de integração”, diz o pró-reitor de Pesquisa, Marco Antonio Zago.

Esgotamento – O encontro acadêmico, organizado conjuntamente pelas quatro pró-reitorias da USP – sediado num complexo que terá em breve seu próprio café –, foi um local propício para a troca de ideias com foco em interdisciplinaridade. Ao longo dos dois dias de debate, nos vários painéis em que palestrantes de universidades brasileiras e do exterior discutiram como fomentá-la, houve visões discordantes e relatos de experiências bem-sucedidas. De comum acordo, o diagnóstico de que o modelo vigente nas instituições não dá conta dos desafios do cenário atual. “A complexidade da sociedade contemporânea exige repensar as modalidades cristalizadas de compreensão do mundo. A produção de conhecimento, do saber e da cultura mudou”, afirma a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda.

“A organização tradicional da universidade está esgotada. É preciso assumir novos riscos”, considera Luiz Bevilacqua, Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC). “Há uma crise profunda do ensino superior na Europa”, concorda Alfredo Pena-Vega, do Centro Edgar Morin, da França. Em diferentes instituições, no Brasil e no mundo, novos formatos têm sido criados na tentativa de superar entraves.

Vários palestrantes chamaram a atenção para o fato de que os jovens que agora entram na universidade são bastante diferentes daqueles das gerações anteriores. “Os alunos são visuais, pragmáticos e imediatistas”, descreve Denise Consonni, que lecionou durante 30 anos na Escola Politécnica da USP e agora dirige o Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da UFABC. “Nossos jovens são muito criativos e entusiasmados, mas por coisas interessantes. Se o professor apaga a luz e der aquela aula com power point, não há quem aguente. Eles vão se conectar nos seus smartphones ou iPads com outros que falem a linguagem deles”, diz Marco Antonio Zago. “Os jovens vão se conectar ao nosso ambiente se este for estimulante.” Para o pró-reitor, é preciso ter em mente que os estudantes de hoje estarão em seu auge profissional daqui a 15 ou 20 anos. Portanto, defende, a formação dada a eles na atualidade não pode sofrer as limitações de uma visão fragmentada.

Entre as dificuldades para trabalhar interdisciplinarmente, avalia Vahan Agopyan, pró-reitor de Pós-Graduação da USP, está exatamente o fato de que os docentes foram formados de maneira disciplinar e não estão acostumados a atuar em conjunto com outras áreas. A falta de integração entre cursos pode levar a que um aluno de graduação passe o curso inteiro indo a um só edifício. “Na pós, é ainda pior: pode frequentar apenas um laboratório e nem conhecer o chefe do departamento ao qual aquela instalação pertence”, diz Agopyan.

Indução – A estrutura departamental, aliás, foi apontada por vários palestrantes como um dos fatores a emperrar o maior intercâmbio, seja de docentes, alunos ou matérias – embora, para outros, os departamentos não possam ser apontados como “vilões”. A demarcação de “territórios” pode começar na própria definição das especialidades e se aprofundar nos aspectos administrativos, na fragmentação do ensino e no prejuízo à pesquisa. “O ambiente acadêmico é refratário a novas experiências, encastelado nas especialidades e imerso em cultura pesadamente disciplinar”, aponta Guilherme Soares Melo, da Diretoria de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Trabalhar interdisciplinarmente não significa apenas colocar no mesmo espaço professores ou pesquisadores de áreas distintas. “Ivani Fazenda define interdisciplinaridade como a reunião de saberes da experiência, saberes técnicos e saberes teóricos interagindo sem hierarquização”, diz Gabriela Celani, da Unicamp. “A interdisciplinaridade não é a sobreposição de ambientes: é a integração dos ambientes para geração de um conhecimento novo”, define Adelaide Faljoni-Alario, coordenadora adjunta da área interdisciplinar da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e docente da UFABC. Para a professora, a formação de recursos humanos e a geração de conhecimento “realmente novo” são sempre melhores em grupos interdisciplinares.

Cabe às instituições induzir à criação desses grupos – ou eles devem se formar espontaneamente? Houve opiniões diferentes entre os palestrantes. Luiz Bevilacqua, por exemplo, acha que interdisciplinaridade é consequência: “Ela não se impõe, mas acontece”. Visão distinta foi defendida, entre outros, por Reynaldo Victoria, que foi diretor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e da Comissão de Pós-Graduação do Programa Interunidades em Ecologia Aplicada do Cena com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. “Acredito que um dos papéis fundamentais das agências de fomento é estimular a interdisciplinaridade”, diz o professor, que atualmente integra a Coordenação do Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Na USP, um exemplo de indução é o Programa de Incentivo à Pesquisa, que destinou recursos do orçamento da Universidade para a formação de 120 Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAPs). Um dos pressupostos para o financiamento dos projetos era que os grupos fossem interdisciplinares. Os NAPs envolvem aproximadamente um terço do total dos docentes da instituição.

Visão sistêmica – Para dialogar com pesquisadores de outras áreas, é necessário “ter grande base epistemológica em sua própria disciplina”, acredita Alfredo Pena-Vega, do Centro Edgar Morin. “Para fazer a transgressão das fronteiras disciplinares é preciso saber por que minha disciplina não responde ao que estou procurando e deixar que ela seja ‘transgredida’”, completa. O ex-reitor Goldemberg alerta também para o perigo de modismos e “simplificações grosseiras” quando se fala em interdisciplinaridade. “É preciso deixar os cientistas fazerem o seu trabalho corretamente em sua área. Especialização onde é caso de especialização; interdisciplinaridade onde for possível”, diz.

Exemplos dessa tese foram apresentados em diferentes momentos do encontro. A professora Paula Santana, da Universidade de Coimbra, em Portugal, relatou a experiência de um trabalho que reuniu universidades de diversos países para pesquisar fatores que levam à obesidade, grande problema nas sociedades ocidentais, e ajudar na proposição de políticas públicas de saúde que enfoquem a questão. A obesidade, afinal, leva ao aumento de doenças como hipertensão e diabete, com impacto nos orçamentos públicos.

A pesquisadora lembrou que a saúde não é determinada apenas por questões pessoais, genéticas ou de histórico familiar: ela é afetada por círculos que vão se ampliando – desde estilos de vida socialmente determinados, acesso a lazer e esporte e condições de moradia e de trabalho até macroproblemas como poluição etc. “Andar para a frente não significa destruir as disciplinas e as barreiras, mas criar laços e compreender que cada disciplina não se aniquila quando trabalha com outras áreas”, defende Paula Santana.

Outro exemplo foi relatado por Paulo Artaxo, docente do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. Artaxo apresentou o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, que por 15 anos reuniu mais de 300 pesquisadores de 25 países, com coordenação do Brasil. Os primeiros papers originados pelo projeto eram claramente disciplinares, comenta, mas progressivamente passaram a conjugar abordagens das áreas biológicas, sociais, exatas etc. “Fenômenos como as mudanças climáticas globais não podem ser abordados disciplinarmente pela quantidade de questões envolvidas. A visão sistêmica completa precisa incluir ecologia, biologia, química, física, oceanografia, geografia etc.”, explica.

Essas disciplinas, diz o professor, são ignoradas pela natureza e só existem na divisão feita pela estrutura universitária. “A integração é necessária e a universidade ainda não tem condições de dar esse suporte. Não é um passo trivial”, pondera.

A pró-reitora de Graduação da USP, Telma Zorn, citou o curso de Ciências Moleculares como uma iniciativa já na graduação que aponta na direção da interdisciplinaridade. “A USP é muito grande. Atuamos em todas as áreas e temos que levar em conta nosso tamanho e também a manutenção do compromisso com a qualidade”, afirma. Analisar como aumentar a presença das práticas interdisciplinares em todas as áreas da Universidade era um dos objetivos do encontro. Docentes da USP atuaram como relatores em todos os debates e mesas. As conclusões serão sistematizadas num documento a ser divulgado para toda a comunidade.

Mudar as entradas e saídas

Experiências com novos modelos de organização universitária foram apresentados no encontro acadêmico. Luiz Bevilacqua, da UFRJ, citou casos internacionais e alertou que não basta reformular as ementas na tentativa de atualizar estruturas curriculares. “Elas não servem mais. É preciso rearranjar eixos integrados que traduzam os novos caminhos de produção do conhecimento”, defende. “No novo ambiente da ciência, de motivação e de convergência, não existem soluções únicas.”

O caso da UFABC, que começou a funcionar em 2006, foi apresentado por Denise Consonni, diretora do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da universidade. A instituição é formada por três centros, não tem departamentos, oferece cerca de mil disciplinas compartilhadas entre os cursos e possui dois bacharelados interdisciplinares. A UFABC tem hoje 9 mil alunos em 26 cursos, ministrados em três quadrimestres por ano.

Um dos problemas centrais do modelo brasileiro é que os alunos entram numa faculdade ou instituto, e não na universidade, diz Naomar de Almeida Filho, professor titular e ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A UFBA já vem implantando um sistema em que parte dos estudantes cursa um primeiro ciclo de bacharelado interdisciplinar. A opção profissional vem no segundo ciclo. “O curso pode ser definido pela saída, e não pela entrada, como fazem universidades em posição de vanguarda no mundo”, defende.

É o caso da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Fundada em 1746, a instituição tem 7.500 alunos nas áreas de ciências básicas, ciências sociais e humanidades e políticas públicas. “Todos entram na universidade, e não no departamento, com exceção do curso de Engenharia”, explica João Biehl, professor brasileiro que leciona no Programa de Saúde Global. É no final do segundo ano de curso que os alunos fazem a escolha da área de concentração para os dois anos seguintes.

Para Naomar de Almeida Filho, o modelo da universidade brasileira foi pensado para a elite, e continuará a ser assim enquanto “o vestibular for um ‘escudo de proteção’ e as universidades estiverem baseadas em faculdades, com alguns lugares de entrada mais valorizados do que outros”. O professor defende também que é preciso definir políticas públicas para a massa de jovens que entra no ensino médio e não tem perspectiva de ingressar num curso superior de qualidade. “A universidade não pode virar as costas para o ensino básico e, principalmente, público”, conclui.