Notícia

Gazeta do Povo

Rumo à estação Noruega

Publicado em 09 novembro 2008

A pesquisadora Amélia Siegel Corrêa prepara tese de doutorado sobre a trajetória do “pai da pintura paranaense”, o norueguês Alfredo Andersen. No país nórdico, ela coletou informações sobre as três primeiras décadas de vida do artista

A pesquisadora Amélia Siegel Corrêa interessou-se pelo artista Alfredo Andersen quando decidiu dar rosto às dez figuras de jornalistas que constavam em sua dissertação de mestrado realizada na UFPR sobre a imprensa republicana em Curitiba. Descobriu que boa parte desses homens das redações, que também eram políticos, havia sido retratada pelo norueguês radicado no Paraná. É o caso de Vicente Machado, Chichorro Júnior e Rocha Pombo.

“Portinari era o retratista das elites paulistanas. No Paraná, nós também tivemos um retratista que consolida, no plano simbólico, essa hegemonia das elites”, conta Amélia, que se interessou em saber mais sobre o artista como forma de dar continuidade às suas investigações sobre o Paraná do século 19.

A trajetória desse “norueguês-paranista”, como o define a pesquisadora, virou tema de sua tese de doutorado em Sociologia, na Universidade de São Paulo – USP, prevista para ser concluída em 2010. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp, Amélia pôde ir literalmente longe em seu trabalho: esteve por três meses na Noruega para coletar informações sobre as três primeiras décadas de vida do artista nascido em 1860, na cidade portuária de Kristiansand. “Não há qualquer estudo sobre esse período, apenas algumas fontes primárias, dados. Parti para entender o contexto, a cultura que formou o artista, conhecer sua história”, conta.

Recepção calorosa

Loira de olhos claros, a brasileira não era um elemento exótico na paisagem nórdica. “As pessoas achavam que eu era dinamarquesa”, diverte-se. Inicialmente, a pesquisadora, que já se vira bem com a língua do país, freqüentou por um mês e meio um curso de arte norueguesa na Universidade de Oslo, capital federal.

Enquanto isso, principiou suas investigações na biblioteca da Galeria Nacional e na Biblioteca Nacional, ainda sem ter uma idéia exata do que poderia descobrir. Mas bastava explicar as razões que a levaram ao país que as portas se abriam. “A história de um pintor norueguês que foi parar em Paranaguá e se tornou o pai da pintura paranaense despertou muito interesse”, conta.

Após o curso, Amélia rumou para Kristiansand, onde se hospedou na casa de Ragnhild Jensen, filha de Kaare Peersen, sobrinho de Andersen que, em 1830, esteve no Brasil para visitá-lo. Ali, rodeada pela calorosa família do artista, fez novas descobertas. “Ragnhild leu para mim todas as cartas que Kaare escreveu aos pais quando estava no Brasil. Por meio delas, pude ter uma idéia da vida doméstica de Andersen”, conta.

Na escola onde o artista estudou, encontrou o primeiro caderno de desenhos do artista, que tinha então 14 anos. No arquivo público, deparou-se com os variados endereços da família, que por não ter casa própria, mudava-se freqüentemente. Também encontrou o passaporte do artista e uma planilha com todas as viagens feitas pelo pai de Andersen, Tobias Andersen, capitão da marinha mercante.

Embarcado no navio do pai, Andersen pintava e conhecia o mundo. Numa dessas viagens, chegou à Paraíba, em 1891. “Tive acesso a trechos transcritos de um diário em que ele escreve que ficou impressionado com os brasileiros”, conta Amélia. Quando retornou à Noruega, deparou-se com sua cidade natal incendiada. Para complicar ainda mais, não foi aceito como professor de arte na Escola Matriz, por não seguir a doutrina cristã. Decidiu empreender outra viagem com o pai, dessa vez rumo à Buenos Aires. Mas um problema obrigou o navio a aportar em Paranaguá, onde o artista acabou deixando-se ficar (leia quadro).

“Os noruegueses são conhecidos por seu espírito aventureiro. Além disso, ele era jovem, tinha 32 anos, já conhecia o Brasil de uma viagem anterior e havia gostado de sua gente”, conta a pesquisadora sobre Andersen, que adaptou-se prontamente à cidade litorânea e, mais tarde, a Curitiba.

O longo período vivido por Andersen no Brasil também será resgatado por Amélia em sua pesquisa. Mas, neste momento, ela centra sua atenção na Noruega. “Ele viveu um período muito rico da história daquele país”, conta. O artista esteve vinculado ao movimento nacionalista que buscava resgatar a identidade norueguesa em um período pré-independência – esta só viria em 1905 – e foi contemporâneo de nomes como Edvard Munch, autor de “O Grito”.

Sua pintura mais famosa na Noruega é o retrato do Prêmio Nobel de literatura Knut Hamsun, autor de A Fome, de 1891, exposto na Galeria Nacional da Noruega. Amélia não tem como objetivo fazer uma análise estética das obras de Andersen, mas revelar “o que elas dizem sobre ele, sobre sua trajetória”.

“É interessante notar como a pintura de Andersen se modifica ao longo dos anos. No Brasil, a luz dos trópicos vai ficando cada vez mais visível”, diz ela, mencionando um auto-retrato de 1932, pertencente ao acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em que Andersen troca a boina habitual por um chapéu de palha tipicamente brasileiro.