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Brasil Econômico

Roupas e bandagens feitas de restos de cana

Publicado em 21 maio 2010

Por João Paulo Freitas

Graças a um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o bagaço e a palha da cana-de-açúcar poderão alcançar fins mais nobres. Hoje, esses resíduos da indústria sucroalcooleira são parcialmente queimados para a geração de energia pelas usinas. Dois projetos de pesquisa, um conduzido por Silgia Aparecida da Costa, professora do Curso de Têxtil e Moda da USP, e outro coordenado pelo professor Adalberto Pessoa Junior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da mesma instituição, resultaram em uma fibra elaborada com celulose de cana-de-açúcar. Além de aproveitar resíduos, o produto apresenta a vantagem de conter propriedades medicinais.

O trabalho começou em 2006, quando Silgia iniciou um projeto de pesquisa voltado ao desenvolvimento de fibras com propriedades medicinais a partir de celulose comercial de madeira e quitosana, polímero abundante na natureza, produzido a partir da quitina, substância presente em crustáceos como lagosta e camarão. A professora explica que a quitosana é conhecida por sua propriedade fungicida, bactericida e cicatrizante. Esse polímero é também um resíduo, só que da indústria da pesca", observa.

"Como eu já tinha experiência na área médica, decidi desenvolver têxteis para o segmento", afirma Silgia. "O intuito foi confeccionar bandagens e roupas para portadores de deficiência física", diz. É que esse tipo de paciente costuma sofrer de feridas — conhecidas também como úlceras de pressão — na superfície da pele devido a limitações de movimento. O segundo projeto surgiu da troca de informações entre Silgia e Sirlene Maria da Costa, que possuía experiência no uso de bagaço de cana-de-açúcar para a produção de papel e que atualmente é pesquisadora do Centro de Têxteis Técnicos e Manufaturados do Instituto de Pesquisa Tecnológicas, o IPT. Silgia sugeriu que elas tentassem produzir uma fibra com a celulose da planta. A ideia tornou-se o projeto de pós-doutorado de Sirlene. A pesquisa foi coordenada pelo professor Pessoa Júnior.

Enzimas

A fabricação da fibra começa com a extração da celulose, que posteriormente é dissolvida com o auxílio de um solvente. O gel resultante passa então por um processo chamado extrusão, que transforma a substância em filamento contínuo, isto é, fibra propriamente dita. Além da quitosana, os pesquisadores testaram outras substâncias para agregar propriedades medicinais ao produto, como a lisozima, enzima extraída da clara de ovos e que possui propriedades bactericidas, e bromelina, enzima obtida da casca do abacaxi e que é eficaz na limpeza de feridas.

O objetivo é avançar nos testes voltados ao desenvolvimento de produtos como tecido, malhas e não tecido (aglomerado de fibras, semtrama). Somados, os dois projetos receberam cerca deR$ 190mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp.

Segundo Silgia, diversas empresas demonstraram interesse no produto, mas a pesquisadora não revela detalhes nem os nomes dos interessados, já que nenhuma parceria foi estabelecida ainda. "Aindústria têxtil brasileira tem dificuldade de competir coma chinesa, que produz a preços reduzidos. Por isso, precisamos de têxteis de alto valor agregado e mais tecnologia", afirma. Os pesquisadores, por meio da Agência USP de Inovação, depositaram patente do processo.