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Brasil Econômico

Roupas e bandagens feitas de restos de cana-de-açúcar

Publicado em 23 maio 2010

Por João Paulo Freitas

Silgia, professora da USP: produto será útil para pessoas com feridas na pele causadas por dificuldade de movimento

Graças a um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo USP , o bagaço e a palha da cana-de-açúcar são parcialmente queimados para a geração de energia pelas usinas.

Dois projetos de pesquisa, um conduzido por Silgia Aparecida da Costa, professora do Curso de Têxtil e Moda da USP, e outro coordenado pelo professor Adalberto Pessoa Junior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da mesma instituição, resultaram em uma fibra elaborada com celulose de cana-de-açúcar.

Além de aproveitar resíduos, o produto apresenta a vantagem de conter propriedades medicinais.

O trabalho começou em 2006, quando Silgia iniciou um projeto de pesquisa voltado ao desenvolvimento de fibras com propriedades medicinais a partir de celulose comercial de madeira e quitosana, polímero abundante na natureza, produzido a partir da quitina, substância presente em crustáceos como lagosta e camarão.

A professora explica que a quitosana é conhecida por sua propriedade fungicida, bactericida e cicatrizante.

"Esse polímero é também um resíduo, só que da indústria da pesca", observa.

"Como eu já tinha experiência na área médica, decidi desenvolver têxteis para o segmento", afirma Silgia.

"O intuito foi confeccionar bandagens e roupas para portadores de deficiência física", diz.

É que esse tipo de paciente costuma sofrer de feridas - conhecidas também como úlceras de pressão - na superfície da pele devido a limitações de movimento.

O segundo projeto surgiu da troca de informações entre Silgia e Sirlene Maria da Costa, que possuía experiência no uso de bagaço de cana-de-açúcar para a produção de papel e que atualmente é pesquisadora do Centro de Têxteis Técnicos e Manufaturados do Instituto de Pesquisa Tecnológicas, o IPT.

Silgia sugeriu que elas tentassem produzir uma fibra com a celulose da planta. A ideia tornou-se o projeto de pós-doutorado de Sirlene. A pesquisa foi coordenada pelo professor Pessoa Júnior.

Enzimas

A fabricação da fibra começa com a extração da celulose, que posteriormente é dissolvida com o auxílio de um solvente.

O gel resultante passa então por um processo chamado extrusão, que transforma a substância em filamento contínuo, isto é, fibra propriamente dita.

Além da quitosana, os pesquisadores testaram outras substâncias para agregar propriedades medicinais ao produto, como a lisozima, enzima extraída da clara de ovos e que possui propriedades bactericidas, e bromelina, enzima obtida da casca do abacaxi e que é eficaz na limpeza de feridas.

O objetivo é avançar nos testes voltados ao desenvolvimento de produtos como tecido, malhas e nãotecido aglomerado de fibras, sem trama .

Somados, os dois projetos receberam cerca de R$ 190 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp.

Segundo Silgia, diversas empresas demonstraram interesse no produto, mas a pesquisadora não revela detalhes nem os nomes dos interessados, já que nenhuma parceria foi estabelecida ainda.

"A indústria têxtil brasileira tem dificuldade de competir com a chinesa, que produz a preços reduzidos. Por isso, precisamos de têxteis de alto valor agregado e mais tecnologia", afirma.

Os pesquisadores, por meio da Agência USP de Inovação, depositaram patente do processo.