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Jornal de Santa Catarina (SC) online

Rotinas obsessivas

Publicado em 19 agosto 2013

Rituais fazem parte da rotina de qualquer criança pequena, como ouvir a história favorita antes de dormir ou de dar boa-noite para os bichinhos de pelúcia e bonecas. Outras têm mania de contar árvores quando passeiam de carro ou evitam pisar nas divisões da calçada enquanto caminham.

Mas, quando esses comportamentos tornam-se frequentes e passam a interferir na rotina ou a causar sofrimento, pode ser sintoma do transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Os casos em que a doença se manifesta antes dos 10 anos são classificados como TOC de início precoce. Acreditava-se que, quanto mais cedo os sintomas aparecessem, pior seria a evolução da doença, mas estudos recentes indicam que não é a idade o fator determinante, e sim o tempo que o paciente fica sem tratamento.

Em entrevista à Agência Fapesp, Maria Conceição do Rosário, professora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) fala sobre a doença.

Crianças pequenas tendem a gostar de repetições e rituais. Quando isso deixa de ser normal?

Maria Conceição do Rosário - Existem fases do desenvolvimento em que os rituais costumam ficar mais intensos e frequentes, como entre dois e cinco anos e durante a adolescência. São períodos de transição na vida e os rituais ajudam a organizar a rotina e a deixar o indivíduo menos ansioso. No caso de crianças pequenas, os rituais costumam surgir na hora de comer, de dormir ou de tomar banho. Uma parte das pessoas pode manifestar sintomas obsessivo compulsivos nessas fases, mas depois eles desaparecem. No entanto, isso pode significar que há uma predisposição. Nesses períodos de maior vulnerabilidade, se o indivíduo passar por uma situação traumática ou estressante, pode desenvolver a doença.

Quais são os sintomas do TOC?

Rosário - Há uma diferença entre ter sintomas obsessivo-compulsivos e ter TOC. Essa diferenciação é feita com base em três fatores: o tempo que a pessoa gasta com os rituais e pensamentos obsessivos, a interferência que eles causam na rotina e o incômodo que eles provocam. Se a criança começa a se atrasar para atividades, deixa de brincar por medo de se sujar ou porque acha que aquilo vai dar azar, ou não consegue dormir se a mãe não contar a mesma história várias vezes do mesmo jeito e fica transtornada com a situação, pode ser um sinal de alerta. Mas quando não são muito frequentes, nem muito intensos, os sintomas podem auxiliar no desenvolvimento.

Até quanto tempo por dia a manifestação dos sintomas é considerada normal?

Rosário - Em geral, até uma hora por dia, somando todos os rituais e pensamentos obsessivos. No entanto, isso pode variar. Em alguns casos, pode durar apenas 40 minutos e causar um grande incômodo ou interferir muito na rotina. Isso já nos permite fechar o diagnóstico. É importante ressaltar que a demora para diagnosticar e tratar o problema pode piorar a evolução do quadro.

Quais são os transtornos associados mais frequentes?

Rosário - Quanto mais jovem for a criança, maior o risco de sofrer também de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), tiques e outros transtornos de ansiedade. Na idade adulta, a depressão é o mais frequente.

Quais são os fatores de risco para o desenvolvimento de TOC?

Rosário - O fato de a criança ter pais com sintomas obsessivo-compulsivos ou com tiques é um fator de risco, pois sabemos que há uma predisposição genética e há uma associação de TOC com a síndrome de Tourette (transtorno neuropsiquiátrico caracterizado por tiques). Situações estressantes vivenciadas pela criança também são fatores de risco. Não precisa ser algo trágico. Pode ser apenas a mudança para longe de uma pessoa com quem a criança tinha forte vínculo. Em adolescentes e adultos há alguns poucos estudos que falam sobre o uso de drogas.