Notícia

Monitor Mercantil

Roberto Amaral/Ex-ministro de Ciência e Tecnologia

Publicado em 11 março 2013

Por Rogério Lessa

Em entrevista exclusiva ao MM, o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral classifica as duas áreas como questão de segurança nacional. Além de defender um pacto social em torno de um projeto de desenvolvimento nacional, Amaral recomenda que aproveitemos a crise, "quando tradicionalmente os países desenvolvidos se esquecem do Hemisfério Sul", para avançar nas relações Sul-Sul e construir mercados alternativos, que nosso estágio de desenvolvimento tecnológico pode atender.

Qual seria a saída para emergentes que exportam cada vez mais produtos primários e geram empregos de baixa qualidade?

O Brasil tem uma deficiência histórica, que vem dos anos 50, particularmente dos Anos Dourados de JK. Nosso projeto de desenvolvimento estava fundado na importação de tecnologia e no investimento das multinacionais. Essa tecnologia, que era simbolizada pela indústria automobilística, era de quinta categoria. Chegamos aos anos 90 assim. A única frase correta de Fernando Collor foi afirmar que nossa indústria automobilística produzia carroças.

O exemplo vale para a indústria nacional como um todo?

Sim. Nos anos 70, época do famoso "milagre" da ditadura, esteve aqui uma delegação da Coréia do Sul, que queria conhecer o tal milagre. Na época estávamos à frente da China, da Índia e da própria Coréia. Ao final, um emissário coreano afirmou que não fora bem-entendido: "Não estamos interessados em ter uma linha de produção, mas de produzir nossos veículos."

Hoje a Coréia nos ultrapassou. Por quê?

Por que optamos pelo projeto neoliberal, enquanto a China preferiu o planejamento. Ficamos para trás em todos os indicadores. Aqueles países adotaram a participação do Estado no desenvolvimento econômico. Aqui o projeto neoliberal chegou ao extremo no governo dos dois Fernandos (Collor e Cardoso). Tínhamos um tripé estatal-multinacional-indústria nacional privada. A estatal foi desmontada, enquanto nossa indústria não investe em inovação. Acha mais barato e seguro alugar royalties do que investir em tecnologia. Por sua vez, as multinacionais só investem em tecnologia em suas matrizes.

Quem no Brasil ainda investe em ciência e tecnologia?

O Estado. Mas os dois Fernandos desorganizaram o sistema das estatais. Hoje, o pouco que temos de investimento ainda é promovido pela universidade pública - a universidade privada, quando investe, é com recursos da Capes e CNPq - Finep e agências estaduais, como Faperj e Fapesp. O capital nacional não investe. Temos um buraco que cresce a cada minuto. O mundo de hoje é dividido entre conhecimento e ignorância. O mundo digital e o mundo analógico. Os países ricos são os que detêm o conhecimento.

Os países são pobres quando não produzem conhecimento...

Ciência e tecnologia atualmente é uma questão de segurança nacional, bem como o investimento em pesquisa. Todo e qualquer país tem uma marca. Perfumes franceses, vinho, indústria norte-americana, azeite grego, moda italiana. Qual a marca brasileira? Somos o maior produtor de grãos de café do mundo e o maior exportador é a Alemanha. Temos café abundante e não fomos capazes de inventar uma máquina de fazer café.

Qual a sua opinião sobre a Embrapa?

É motivo de orgulho para o país. Mas não agrega tecnologia industrial. Mas se foi possível fazer a Embrapa, por que não é possível repetir a experiência em outros setores? Por que estamos há 35 anos paralisados com o programa espacial? Por que esperamos 35 anos para fazer Angra III. Estamos sem estratégia, sem projeto nacional. Algumas pessoas pensam que é publicar um texto no Diário Oficial. Mas é reunir a sociedade brasileira em função de alguns objetivos.

Quais são os principais objetivos nacionais?

Em torno de melhor distribuição de renda, oferta de empregos qualificados, elevação do nível educacional, poderíamos reunir a sociedade. A questão estratégica é eleger o fundamental. Temos uma crise de energia. Estamos demorando 20 anos para fazer uma hidrelétrica, mesmo sendo, ao lado de EUA e Rússia, o país de maior potencial, por questões ambientais falsas. Insegurança econômica e técnica extraordinária. Estamos, em pleno Século XXI, dependendo de São Pedro. Isso é dramático. E, no entanto, todos querem ter ar-condicionado em casa, janelas de alumínio, usufruir do progresso, como se não dependesse de energia. Não há possibilidade de desenvolvimento sem energia boa, barata e confiável. Não há precedente no mundo.

O que é mais relevante em uma estratégia?

Em torno dela não pode haver óbices. Sem energia não há educação, desenvolvimento, comércio, qualidade de vida. É fundamental também ter autonomia na área espacial. Não é lançar foguetes para cair na Califórnia, mas satélites para ter o controle de seu próprio território. Se não controlarmos nosso território, teremos de alugar satélites norte-americanos, indianos ou chineses para controlar espaço aéreo, quadro metereológico, o desmatamento da Amazônia. Muito menos as fronteiras. Estamos dependendo do Oceano Atlântico para várias coisas. É considerado outra Amazônia. Temos o pré-sal. Como defender nosso litoral sem submarinos de propulsão nuclear? Um submarino convencional fica horas submerso, enquanto o nuclear ficar meses. Precisamos eleger objetivos fundamentais e nos concentrar neles.

Qual a viabilidade política de um plano de desenvolvimento hoje?

Considero os oito anos de governo de Lula extraordinários, por vários motivos. Avanço da economia, das populações mais pobres, o mais efetivo programa de distribuição de renda que conhecemos. No entanto, faço uma crítica: fomos tímidos na reforma política e no debate político. Devolveremos o Estado recebido do neoliberalismo sem modificá-lo. Esse Estado é antipovo, enquanto poderia ser fundamental para os pobres. A burguesia pode pagar plano de saúde e escola particular. Esse é o grande desafio dos dois últimos anos de Dilma Rousseff na presidência e o grande desafio dos partidos de esquerda.

Há exemplos de países que se concentram mais na estratégia sem, porém, ter êxito no desenvolvimento. Seria um problema mundial?

Os EUA declararam em diversos documentos serem contra o desenvolvimento aeroespacial no Brasil. Quando formos fazer acordo com a Ucrânia, foi exigido, por incrível que pareça, a anuência dos EUA, que autorizaram, mas frisando que o Brasil não precisa de um programa espacial. Devemos discutir nossa posição, e não a deles.

Em vista disto não seria necessária nova estratégia dos países periféricos?

Até na Europa, com apoio dos EUA, os banqueiros conseguiram destruir a União Européia, impondo a recessão. Talvez o futuro da Europa seja ser um museu a céu aberto. Alguns países, como a Alemanha, se manterão na ponta, mas, em geral, optaram por diminuir o consumo interno para gerar excedentes exportáveis. Na globalização todos querem isto, inclusive Brasil e EUA. Aí está o impasse. Uma segunda questão relevante é o déficit orçamentário norte-americano. No momento ele é financiado principalmente por China e Alemanha. Esta última já anunciou que vai reduzir suas reservas em dólar.

A China segue crescendo acima de 7%, enquanto estamos tentando desenvolver o Mercosul, que é muito importante, pois o bloco é nosso principal importador, não EUA ou China. Devemos priorizar as relações Sul-Sul. Dificilmente vamos competir com EUA, Japão ou Alemanha exportando tecnologia. Mas nossa tecnologia está no nível das necessidades de importação de América do Sul, Latina e Sul da África. Se conseguirmos construir um grande mercado no Hemisfério Sul, teremos um consumidor alternativo.

Como vê os movimentos que estão surgindo pela paz e pelo desenvolvimento do Brasil?

A guerra é um determinismo do capitalismo e a paz é anti-econômica. Na crise, os países desenvolvidos só têm uma alternativa para produção e consumo: a guerra. Pouco podemos fazer contra isso. Os EUA desde a II Guerra não tiveram um dia sem guerra. E guerra imperialista, não é guerra de defesa. É guerra para conquistar riquezas. O fim da União Soviética foi muito ruim para a humanidade. Até então, tínhamos dois players. A força de um limitava a força do outro. Agora temos um imperialismo de rédeas soltas. Temos de evitar que chegue ao Hemisfério Sul e aproveitar que, nas crises, eles se esquecem de nós e, tradicionalmente, temos aproveitado para aprofundar o desenvolvimento.