Notícia

Correio da Paraíba

RNA substitui DNA contra doenças

Publicado em 18 março 2007

São Paulo (Fapesp) - Cada uma de nossas células guarda a receita para o sai funcionamento na molécula de DNA, a dupla fita de ácido desoxirribonucléico em forma de escada em espiral.
Para funcionar, porém, as células dependem da ação de uma família de moléculas mais simples e versáteis, em geral formadas por uma fita única de acido ribonucléico: o RNA. A todo momento um tipo específico de RNA chamado mensageiro copia as instruções contidas nos genes e as envia ao local em que serão lidas para originar proteínas, os componentes fundamentais dos seres vivos. E uma tarefa mais complicada do que parece, pois o caminho percorrido pelo mensageiro é repleto de obstáculos e armadilhas. Como o capitão Gulliver subjugado pelos minúsculos habitantes de Liiput no romance de Jonathan Swíft, os mensageiros são freqüentemente interceptados e amordaçados, por vezes até desmembrados, por outra variedade de moléculas de RNA ainda menores: os micro-RNAs, que agem associados a um complexo de proteínas. A receita para produzir micro-RNAs está em trechos do DNA que até recentemente se pensava não terem função — por isso conhecidos como DNA-lixo. "Um lixo que é luxo", afirma o biólogo molecular Carlos Menck, da Universidade de São Paulo (USP), que estima que entre 30% e 40% do genoma humano se dedique exclusivamente a produzir RNA com a função essencial de regular quase tudo o que acontece nas células. Em experimentos com o verme Caenorhabditis elegans, usado como modelo biológico de seres vivos mais complexos, os pesquisadores norte-americanos Andrew Fire e Craig Mello demonstra ram em 1998 que pequenas moléculas de RNA injetadas bloqueavam com eficiência a interpretação de certos co mandos celulares — processo que batizaram de interferência por RNA. Dito de manei ra simples, o RNA silenciava os genes, impedindo a produção de proteínas.

Nobel
O trabalho de Fire e Mello valeu à dupla o Nobel de Medicina de 2Q06 e revelou a geneticistas e biólogos moleculares uma nova estratégia de assumir o comando celular e assim tentar combater de modo eficaz e definitivo problemas de origem genética como o câncer. Usando micro-RNAs como molde, pesquisadores da Europa e . Estados Unidos recente mente passaram a produzir em laboratório moléculas de RNA desenhadas especificamente para interferir no funcionamento de certos genes. Essas moléculas criadas artificialmente são os chamados RNAs de interferência, ou simplesmente RNAi, que á semelhança do DNA são formados por uma fita dupla em vez de simples. Assim como os micro RNAs, os RNAi interceptam e destroem as informações celulares antes que sejam processadas e originem pro teínas. Com o auxílio dessa ferramenta, equipes da USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) co meçam a compreender melhor, como surgem determinadas formas de epilepsia; câncer e enfermidades cardiovasculares. Também dão os primeiros passos para verificar o potencial dessas moléculas para controlar esses problemas de saúde, além de outros provocados por vírus, bactérias, protozoários e vermes.
"O .RNAi tem um grande potencial terapêutico", afirma a, geneticista Iscia Lopes-Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Testes concluídos recentemente em seu laboratório indicam que o RNAi pode ajudar a combater a infestação pelo verme Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose, problema que atinge cerca de 200 milhões de pessoas no mundo. A equipe de Iscia preparou cópias de RNA para inativar um gene essencial para o metabolismo do S. mansoni e aplicou em camundongos infestados com o verme. Em seis dias, o numero de parasitas nos camundongos era 27% menor, uma redução que os pesquisadores consideraram promissora como ponto de partida. Apesar do resultado esperançoso, a geneticista mostra-sé 'cautelosa. "Ainda é preciso comprovar que os vermes realmente morreram como conseqüência direta da 'inibição por RNAi", explica. Por essa razão, ela investiga agora o efeito do RNAi, aplicado diretamente sobre 'os parasitas isolados, mantidos em placas de vidro.' Além de eficaz, essa técnica promete menos efeitos indesejados nos, casos em que se pretende combater microorganismos invasores como vírus; bactérias, protozoários ou vermes porque, é possível desenhar uma molécula de RNA exclusiva para genes do parasita, sem correspondente nos seres humanos.

De graça
Antes dos experimentos, porém, foi preciso aprender a fabricar as cópias de RNAI. Durante o doutorado concluído em 2005 no grupo de Iscia, o bioquímico Tiago Pereira desenvolveu um pro grama de computador capaz de desenhar moléculas de RNAi sob medida; 'Foi um avanço e tanto não apenas para o grupo da Unicamp. Disponível gratuitamente no 'site do laboratório' na Internet, o programa criado por, Pereira permite agora que os pesquisadores brasileiros 'interessados em usar o RNAi não dependam mais exclusivamente de empresas estrangeiras.