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O Vale

Rio+20 para gregos e troianos

Publicado em 02 outubro 2012

Acompanhei mais diretamente duas avaliações da Conferência Rio+20 e creio que seria interessante passar avante impressões e opiniões colhidas, uma vez que elas refletem duas correntes que tiveram participação bem intensa no antes e no durante. Terão forte participação no pós Rio+20. São anotações tomadas na última reunião do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) em Brasília e do recente seminário realizado na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisado Estado de São Paulo).

A reunião de Brasília foi presidida pela ministra Izabela Teixeira e teve a presença do principal negociador brasileiro na Rio+20, o embaixador André Correia do Lago. O seminário da Fapesp, denominado proverbialmente de “Mudanças Climáticas: o futuro que não queremos- uma reflexão sobre a Rio+20", reuniu pesquisadores envolvidos com os grandes programas da agência relacionados ao binômio meio ambientei biodiversidade. O embaixador ressaltou que o Brasil saiu da conferência como um ator internacional na questão do desenvolvimento sustentável e que o documento final teve o grande mérito de ter sido acordado por todos os países presentes, assegurando a vontade política global de agir no sentido da economia verde e sustentabilidade. Segundo ele, foi demonstrado que existe um consenso mundial para mudanças profundas nos métodos e nos processos de geração e consumo de produtos, tendo como base procedimentos mais conserváveis no que se refere aos recursos naturais e ao meio ambiente. Politicamente, a conferência parece ter sido um sucesso. Mas vamos ouvir os cientistas no contexto do seminário da Fapesp, conforme reportado pelo jornalista Fábio de Castro. Carlos Alfredo Joly, coordenador de um dos programas geridos pela agência, colocou que a comunidade científica nacional e internacional se mobilizou fortemente, chegando à conferência “bem preparada para fornecer subsídios capazes de influenciar a agenda de implementação do desenvolvimento sustentável”, copiando literalmente o que o mencionado jornalista escreveu. Segundo Joly, nada disso apareceu no documento final. O documento pelo seu entendimento é genérico e não determina metas nem prazos, tampouco estabelece uma agenda de transição para uma economia mais verde ou mesmo para uma sustentabilidade maior da economia.

Paulo Artaxo, a quem tenho representado nas reuniões do Conama, destacou que as discussões e menções sobre mudanças climáticas foram muito discretas no documento final (quase nulas em suas palavras). No relato do jornalista Fábio de Castro, Artaxo cravou no seminário da Fapesp uma síntese bem marcante: “o texto final da Rio+20 tem 51 páginas divididas em 283 tópicos. Deste total, apenas três tópicos mencionam a questão do clima”. Fábio Feldman deu depoimento bem interessante, que converge para o início desta coluna. Ele entende que houve falta de liderança. Na Eco-Rio 92 éramos liderados por um cientista (José Goldemberg), enquanto que na Rio+20 fomos liderados por um diplomata. Falou e disse!

Lembro-me muito bem da Rio-92, pois a participação da ciência joseense foi marcante, pelo menos por parte da minha instituição. Nossa participação na Rio+20 foi para lá de cinzenta. Foi obscura. Nem pareceu que 20 anos haviam se passado no desenvolvimento de ciência e de pesquisa em nossos meios. Desenvolvimento houve com grande conteúdo. A paquidermia de alguns ‘iluminados’ locais não deixou nosso desenvolvimento aflorar a tempo de demonstrá- lo neste evento tão ou mais importante do que aquele de 1992. Pior para nosso ambiente e sustentabilidade. Com um novo Inpe, nova AEB e novo MCTI, acreditamos que novos desenvolvimentos irão aflorar. Para nosso bem e toda a santa ciência.