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O Dia (RJ) online

Rio vive hiperendemia de doença que afeta gatos e humanos

Publicado em 26 abril 2017

Por Rosayne Macedo

A designer de interiores Fernanda Titow, de 35 anos, por pouco não perdeu um dedo da mão por conta de uma doença que vem tirando o sono de muitos cariocas: a esporotricose, uma micose profunda na pele que é transmitida por gatos a humanos e pode causar lesões sérias e potencialmente fatais quando não tratadas em tempo adequado. Após ser mordida por um felino de rua num sinal de trânsito, Fernanda precisou ficar hospitalizada e se afastar do trabalho durante quase um ano para se tratar. “Se houvesse mais informação sobre a doença, talvez eu não tivesse passado por tudo isso. O diagnóstico poderia ter sido feito logo no início e o tratamento teria durado uns três meses apenas”, conta ela.

Entre 1987 e 1998, eram registrados apenas um ou dois casos ao ano em humanos. A partir de 1998, no entanto, a explosão foi crescente e desde então o Rio assiste a um aumento considerável da esporotricose, gerando um quadro de hiperendemia na capital e Região Metropolitana. Em 2013, a doença passou a ser considerada grave problema de saúde pública e a notificação se tornou compulsória para os atendimentos em unidades públicas ou em consultórios particulares.

Em 2016, foram 13.536 atendimentos nos institutos públicos veterinários, em assistência domiciliar ou comunitária, segundo a Vigilância Sanitária do município, um aumento de 400% na comparação com o ano anterior, quando foram registrados 3.253 casos felinos. Em pessoas, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) registrou 580 casos. A infecção em humanos tem cura, mas pode provocar lesões gravíssimas na pele. Há registros de óbito entre pacientes imunodeprimidos, como portadores do HIV, doentes renais e pessoas submetidas à quimioterapia para tratamento de câncer.

“A esporotricose é hoje um grave problema de saúde pública e precisamos juntar forças nas áreas pública e privada para conter o crescimento da incidência da doença. É muito importante manter a população informada para garantir o diagnóstico e o tratamento adequados dos pacientes e animais infectados”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia no Rio de Janeiro (SBDRJ), Egon Daxbacher. “Importante informar também que os animais que, porventura, não resistirem ao tratamento devem ser cremados e não enterrados, para evitar que continue o ciclo de infestação dos fungos na terra”, completa Egon.

As estatísticas, porém, se referem apenas aos casos notificados. Os pesquisadores apontam que o nível de subnotificação deve ser grande. “No Brasil, a esporotricose humana não é uma doença de notificação compulsória e, por isso, a sua exata prevalência é desconhecida. Apenas no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz INI, unidade de referência no Rio de Janeiro, mais de 5 mil casos humanos e 4.703 casos felinos foram diagnosticados até 2015”, ressalta à ‘Agência Fapesp’ a veterinária Isabella Dib Gremião, do Laboratório de Pesquisa Clínica em Dermatozoonoses em Animais Domésticos do INI/Fiocruz.

Segundo ela, do Rio de Janeiro a doença se espalhou para outras cidades fluminenses e para outros estados. A recente emergência da esporotricose felina na região metropolitana de São Paulo chama a atenção dos pesquisadores da Unifesp e do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), onde 1.093 casos foram confirmados nos últimos anos. Já há casos de esporotricose em todo o Sudeste e o Sul do Brasil. Começam também a se manifestar na região Nordeste e no exterior. Em Buenos Aires, em 2015, foram relatados cinco casos humanos positivos.

No Brasil, além da falta de capacidade de fazer diagnósticos em larga escala nas esferas municipal, estadual e nacional, falta acesso a remédios para tratar a doença. O medicamento de referência é o antifúngico itraconazol, de preço elevado. A cada mês e ao longo de seis meses são necessárias no mínimo quatro caixas: duas para tratar o animal e outras duas para o tutor, caso este esteja doente. Segundo a pesquisadora Isabella Gremião, além da capacidade de diagnosticar todos os casos e do acesso ao medicamento, o combate ao surto de esporotricose exige que os governos realizem campanhas educativas sobre a guarda responsável do animal, já que muitos abandonam os gatos doentes, o que acaba realimentando o ciclo da doença.

Informação é a principal arma contra a doença

Especialistas consideram que a disseminação de informações e orientações para prevenção e tratamento é a forma mais eficaz de combater a doença. Hoje, a falta de informação é um dos principais obstáculos ao controle e combate à curva ascendente da esporotricose. Atenta ao problema, a SBDRJ entrou nessa luta e vem adotando uma série de ações para melhorar a qualidade da informação e disseminá-la entre os públicos envolvidos.

A SBDRJ vem buscando também uma aproximação com órgãos públicos, como a Vigilância Sanitária do município, a fim de promover intercâmbio entre dermatologistas e veterinários para somar forças nas ações de orientação e conscientização da população para prevenção e tratamento da doença em animais e humanos.

Para esclarecer à população sobre a esporotricose, a SBDRJ lançou uma cartilha com informações sobre a doença e orientações básicas sobre como reconhecer os sintomas em humanos e nos animais. O documento está disponível no hotsite da SBDRJ. A entidade também fornece orientações aos médicos sobre como proceder para notificar a doença à Vigilância Epidemiológica do município e do estado.

Confira o relato completo de Fernanda Titow, vítima da esporotricose:

“Estava parada num sinal fechado em São Conrado e, quando o sinal abriu, uma moça veio correndo na minha janela pedindo para eu não sair com o carro porque um gato havia se instalado bem próximo a uma das rodas. Eu, então, desci do carro para ver o que estava acontecendo. O gato parecia estar machucado e assustado. A moça, então, disse que iria tirá-lo debaixo do carro. Mas ela deve ter pego de mal jeito ou, por causa dos machucados, ele sentiu alguma dor forte e gritou. Ela se assustou e jogou o gato em cima de mim. Ele me mordeu no dedo da mão, tão fundo que ficou pendurado ali. Teve que vir um senhor me ajudar.

Saí dali direto para o médico, mas fui orientada apenas a lavar o ferimento com água e sabão. Passados uns dias, o dedo começou a inflamar e a doer muito. Fui a vários médicos e ninguém diagnosticava certo. Um deles me receitou antibiótico, mas eu não melhorava. Até que a situação piorou tanto que fui internada numa clínica particular. Depois de 13 dias de internação, vários exames sem diagnóstico e já com a ameaçada de perder o dedo, o médico suspeitou de esporotricose e veio a confirmação. Daí em diante o tratamento passou a ser com o itraconazol, o remédio certo para acabar com o fungo. Só que passei um ano tomando esse medicamento, que é bem caro.

Minha sorte é que tenho plano de saúde e pude pagar pelo remédio. Mas , se houvesse mais informação sobre a doença, talvez eu não tivesse passado por tudo isso. O diagnóstico poderia ter sido feito logo no início e o tratamento teria durado uns três meses apenas. Por causa do tempo que fiquei parada, tive que parar de trabalhar e estudar”.

* Fernanda Titow, de 35 anos, é designer de interiores

Saiba mais sobre a esporotricose

A partir de informações da SBDRJ, Fiocruz e Fapesp, elaboramos um guia com informações completas para os leitores do Blog Vida & Ação. Confira:

O que causa a doença?

A esporotricose é causada por um fungo que vive naturalmente no solo, o Sporothrix sp. No Brasil, Sporothrix brasiliensis é o agente etiológico mais prevalente, embora S. schenckii também seja encontrado em menor proporção. A doença possui especificidades de contágio no Brasil. Em outros países, como Austrália e China, a doença está relacionada a fatores ambientais. No Brasil, é transmitida principalmente por gatos. O primeiro diagnóstico de esporotricose animal no Brasil é de 1907, entre ratos naturalmente infectados nos esgotos da cidade de São Paulo – os primeiros casos felinos ocorreram nos anos 1950. Não se conhece a razão pela qual os gatos são tão suscetíveis ao Sporothrix brasiliensis nem porque neles a doença é tão grave. Um gato com lesões pode ter o fungo em suas garras. Ao brigar com outro gato, um cão ou perseguir um rato, ele passa o fungo por meio de arranhaduras.

Como esse fungo infecta os gatos?

Não se sabe como o Sporothrix brasiliensis começou a infectar os gatos. Até o aumento no número de casos no Rio de Janeiro, a esporotricose era considerada uma doença muito esporádica e ocupacional. O fungo ocorre naturalmente no solo e sobre a superfície de plantas como a roseira. No caso norte-americano, os pacientes se infectaram ao se arranhar em seus espinhos. Apesar de existir outras espécies de fungos do gênero Sporothrix espalhadas pelo mundo e que também provocam a doença, segundo os pesquisadores a epidemia brasileira é única, pelo agente etiológico a atacar felinos, por ter se tornado uma zoonose a partir do momento que os gatos passaram a transmitir o fungo aos humanos e pelo expressivo número de casos. As arranhaduras nos gatos ocorrem geralmente na cabeça, local mais comum do aparecimento de lesões, mas não o único.

Como transmite para os animais?

De acordo com a SBDRJ, o perfil da doença mudou ao longo dos anos. Como os fungos causadores da micose se hospedam na terra, em gravetos e folhas secas, ela era mais comum na área rural. Contaminava principalmente aqueles que lidam diretamente com plantas e terra, por isso, era popularmente conhecida como a ‘doença do jardineiro’, pelo fato de os primeiros casos diagnosticados nos Estados Unidos no fim do século 19 terem sido entre plantadores de rosas. De uns anos para cá, no entanto, a incidência cresceu de forma preocupante nas áreas urbanas. Os gatos passaram a ser as principais vítimas dos fungos da família Sporothrixi e os principais transmissores da doença aos humanos. O fungo causador fica no solo, em palhas, vegetais e madeiras, podendo ser transmitido quando materiais contaminados, como farpas ou espinhos, entram em contato com a pele.

E para os humanos?

Os gatos são os principais transmissores para humanos e outros animais. Segundo especialistas, por meio de unhadas (o termo técnico é “arranhadura”) e mordidas, os gatos infectados transmitem o fungo a outros felinos, a cães e também a seus donos. Mas além dos gatos, outros animais que saem à rua e brincam na terra também podem ser contaminados, como os cachorros. Como o principal agente transmissor é o gato, o dono desinformado, muitas vezes, abandona o animal infectado e ele sai infectando outros animais e humanos. O correto é tratar o animal e jamais abandoná-lo.

A doença tem cura?

Quando descoberta e tratada corretamente, a doença tem cura, mesmo em gatos, que são mais afetados. Mas o tratamento é caro e demorado em gatos e humanos, mas, quando realizado adequadamente, há 90% de chances de cura. O tratamento não pode ser interrompido em nenhuma hipótese sem orientação médica do veterinário, no caso dos animais, e do dermatologista, no caso de humanos. A doença se concentra em animais da periferia e de comunidades carentes, o que dificulta o tratamento devido principalmente ao custo. As lesões em humanos e cães geralmente não são tão severas como nos felinos e raramente impõem risco à vida.

Como saber se fui contaminado?

A forma de contágio no ser humano se dá por contato da pele com um meio já contaminado. Pode ser por um ferimento como arranhadura, mordida ou mesmo por meio do espirro do animal infectado. A pele responde por 95% das manifestações de esporotricose em humanos, mas a doença também pode se manifestar em outros órgãos, como nos olhos. Sinais de contaminação em humanos aparecem na maioria das vezes em forma de lesões na pele que começam com um pequeno caroço vermelho e podem evoluir para uma ferida. Geralmente aparecem nos braços, pernas e rosto, formando uma fileira de caroços ou feridas. Aos primeiros sintomas, os donos de animais infectados já diagnosticados devem procurar imediatamente o dermatologista.

E no caso das crianças?

É preciso ter atenção redobrada com crianças, por causa do costume que têm de brincar com o animal próximo ao rosto, o que pode desencadear manifestações de esporotricose oftalmológica, por exemplo.

Principais sintomas nos gatos

Os principais sintomas nos animais são lesões ulceradas na pele, feridas profundas, geralmente com pus, que não cicatrizam e costumam evoluir rapidamente. O fungo presente nas lesões destrói progressivamente a epiderme, a derme, o colágeno, os músculos e até ossos. Além disso, o fungo pode acometer os órgãos internos, agravando o quadro clínico. Animais contaminados devem ser isolados e tratados rapidamente. Os donos devem usar luvas para manuseá-los e ministrar os medicamentos receitados por veterinário.

Onde procurar atendimento

A Vigilância Sanitária oferece atendimento e medicamento gratuitos no Instituto de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, em São Cristóvão, e no Instituto Paulo Dacorso Filho, em Santa Cruz.

E se o animal morrer?

Para evitar novas contaminações, os animais que morrem infectados devem ser cremados, porque, quando enterrados, continuam alimentando o ciclo de vida do fungo Sporothrix. Se por acaso o animal não resistir, ele deverá ser cremado e não enterrado, para evitar que continue a cadeia de transmissão dos fungos na terra e a consequente contaminação de outros animais e humanos. A Vigilância Sanitária também oferece cremação gratuita.

Principais cuidados a ser tomados

- Quando encontrar um animal com ferimentos característicos na rua, encaminhá-lo para tratamento. Tomar cuidado ao manejar o animal, usando luvas, de preferência.

- Não levar terra da rua para os animais de casa. Essa terra pode estar contaminada.

- Evitar que crianças brinquem com animais muito próximos do rosto e dos olhos.

- Quando tiver um animal doente em casa, desinfetar bem o local onde ele fica e aplicar os remédios usando luvas.

- Animais doentes não devem ser abandonados, pois podem espalhar ainda mais a doença. Eles devem ser tratados com ajuda de um veterinário

- Se o animal morrer, deve ser cremado, para não contaminar o solo e interromper o ciclo de vida do fungo.

Fonte: SBDRJ, SMS-RJ, Fiocruz e Agência Fapesp