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Brasil Econômico

Rio Tietê pode ganhar detector de enchentes

Publicado em 02 julho 2010

Por Carolina Pereira

Se você mora nos arredores de um rio como o Tietê, na cidade de São Paulo, imagine poder receber uma mensagem de texto em seu celular toda vez que houver risco de enchente por conta do aumento do nível da água. Com certeza, a medida evitaria diversas perdas materiais ocasionadas pelas inundações, além de preservar a vida daqueles que viriam a correr risco se permanecessem em suas casas durante a enchente.

O cenário pode parecer futurístico, mas é isso que propõe o projeto do professor Jo Ueyama, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP). O equipamento desenvolvido pelo seu colega de doutorado na Universidade de Lancaster, o inglês Daniel Hughes, foi adaptado e trazido ao Brasil por Ueyama, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a fim de viabilizar a implementação de um sensor de enchentes em rios do país.

O aparelho consiste em um sensor submerso que mede a pressão da água e, assim, monitora as variações no leito do rio. O equipamento ainda conta com um sistema GPRS (General Packet Radio Service), que permite o envio e recepção de dados para uma central por meio da rede de telefonia celular. Dessa forma, quando alertada sobre risco de enchente, um software instalado na central enviaria mensagens para os celulares cadastrados dos moradores. O sistema é alimentado por energia vinda de paineis solares.

O aparelho serve, também, para medir o grau de poluição do rio por meio da medição da condutividade elétrica do rio. Quanto mais limpa, menos eletricidade a água consegue conduzir. Além disso, um sensor antifurtos também foi instalado. Quando identifica um movimento estranho, o aparelho envia um alerta para a central.

Na prática

Colocar essa tecnologia em prática, no entanto, ainda depende de avaliação do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) do Estado de São Paulo, que afirma que vai iniciar, ainda nesse semestre, testes para saber qual é a viabilidade do projeto. De acordo com Ueyama, ainda são necessários investimentos de R$ 540 mil para que o projeto seja viabilizado e, parte do investimento, cerca de R$ 350 mil, seria direcionada para replicação do conhecimento por meio de bolsas de estudo.

De acordo com o professor, é preciso fazer com que outras pessoas aprendam esses equipamentos pois, segundo ele, essa tecnologia ainda não é muito difundida e todos os equipamentos são importados. Mesmo assim, o sistema é considerado barato pelo fato de um protótipo poder ser construído por cerca de R$ 200.

Segundo a proposta de Ueyama, o equipamento seria instalado primeiramente entre as pontes das Bandeiras e da Casa Verde, em São Paulo. Segundo Ueyama, o local foi escolhido por ser próximo da confluência entre os rios Tietê e Tamanduateí e pelo fato de o local já ter sido cenário de várias inundações.

Outra região que está na mira do pesquisador é o Vale do Paraíba, em São Paulo, onde está situada a cidade de São Luiz do Paraitinga, na qual aproximadamente 9 mil pessoas tiveram de deixar suas casas em janeiro deste ano, após o Rio Paraitinga alagar cerca de metade da cidade depois de fortes chuvas.

Cresce índice de chuva na terra da garoa

No que depender do aumento dos índices de precipitação na cidade de São Paulo, o equipamento criado pelo professor Jo Ueyama vai mesmo ser necessário para tentar evitar tragédias recorrentes, principalmente durante o verão, período em que mais chove na cidade. Segundo dados do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo, em milímetros, esse número aumentou 42,7% entre dezembro de 2000 e o mesmo mês de 2008, de 179,6 para 256,3, por conta de fatores como o aquecimento global. Embora não haja números de 2009, as enchentes que ocorreram na cidade no ano passado não indicam que a situação tenha melhorado. Em dezembro, por exemplo, fortes chuvas provocaram o transbordamento do Rio Tietê inundando casas de 4 mil moradores no Jardim Romano, Zona Leste de São Paulo.

Por que as tecnologias não são adotadas?

Já faz algum tempo que o Brasil está inserido definitivamente no cenário científico mundial. Existem hoje no país centros de pesquisa e empresas brasileiras desenvolvendo tecnologia de ponta nas mais diversas aplicações. Na área de segurança, o Brasil já dispõe do que existe de mais avançado mundialmente em termos de prevenção de desastres naturais, seja no que se refere a sensoriamento sísmico, meteorologia ou até mesmo na utilização de imagens para o controle de barragens de grande, médio e pequeno porte, além do monitoramento dos leitos dos rios, represas, açudes, várzeas e até mesmo de encostas e morros.

Falando especificamente sobre a utilização da imagem como ferramenta de prevenção, detecção e reação às enchentes, podemos dizer que já existem sistemas 100% nacionais à disposição do poder público que certamente ajudariam a diminuir muito os prejuízos e, principalmente, as mortes causadas no Brasil por esse tipo de fenômeno.

Esses sistemas são simples e baratos, compostos basicamente por boias que, fazendo o papel de sensores, conseguem medir com precisão as variações de profundidade e vazão de rios, barragens e represas.

Esses sensores trabalham em conjunto com sistemas de câmeras de alta definição capazes de fazer imagens tanto durante o dia quanto à noite e que são transmitidas via internet utilizando-se banda larga e nos sistemas mais modernos, sinal de celular por redesGPRS, EDGE e 3G.

Os dados obtidos pelos sensores, aliados às imagens recebidas, darão um panorama preciso e imediato do nível de perigo enfrentado e, por meio do próprio equipamento, diversas ações remotas, preventivas e reativas podem ser tomadas como a abertura ou o fechamento de comportas, o acionamento de sirenes de emergência para alertar a população que vive em áreas de risco, além da disponibilização das imagens e dados também pela internet para o comando dos órgãos especializados nesse tipo de ocorrência, como os Bombeiros e a Defesa Civil.

Se esses recursos, além de serem baratos, já estão à disposição do poder público há alguns anos, por que ainda não foram implantados em larga escala no Brasil? Bem, a meu ver não existe uma única explicação para isso, mas sim um conjunto de fatores negativos que somados acabam por dificultar esse processo, começando pela falta de profissionais qualificados nos quadros para auxiliar o governo na busca e implementação dessas novas tecnologias seja na esfera federal, estadual e, principalmente municipal, culminando com uma legislação antiquada e excessivamente lenta no que diz respeito à contratação pública de serviços, que muitas vezes acaba por desmotivar o governo a buscar novidades tecnológicas baseando-se apenas em soluções já conhecidas e balizadas em concorrências anteriores, porém de pouco ou nenhum efeito prático.

Isso observei na cidade de São Paulo, onde, em 2008, participei da implementação de um sistema de monitoramento dos piscinões em regime de teste. E, apesar dos resultados considerados excelentes pela administração municipal, até hoje, dois anos e duas enchentes depois, a licitação para a contratação ainda não foi realizada.