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Associação Paulista de Jornais

Rio Preto vai ajudar EUA a salvar sapos, rãs e pererecas

Publicado em 08 fevereiro 2012

O pesquisador Matthew Venesky, de Tampa (Florida, Estados Unidos), está em Rio Preto para pesquisar espécies de girinos encontrados em águas paradas e corredeiras de Nova Itapirema e Icém. O objetivo do estudo é proteger as espécies encontradas naquele país que vêm sendo ameaçadas por fungos. Nos estudos foram analisadas 13 espécies de girinos. As atividades de Venesky, da University of Soulth Florida, estão sendo acompanhadas pela pesquisadora de Rio Preto Denise Rossa-Feres.

"O Brasil foi o país escolhido devido à grande variedade de espécies aqui existentes. O interesse dele surgiu após ele ler um artigo meu sobre girinos publicado na revista internacional científica Behavioral Ecology", diz a pesquisadora. Com a ajuda de uma máquina fotográfica que faz 500 imagens por segundo, eles acompanham passo a passo da alimentação das espécies. O equipamento ainda não existe no Brasil. "Estamos aproveitando a presença de Vanesky para interagir e trocar experiências. Analisamos as formas com que os girinos se alimentam e dessa maneira vamos estudar uma fórmula de evitar que eles sejam atacados por fungos que atingem a região da boca deles e leva a morte", explica Denise.

Os trabalhos de pesquisa tiveram início no último dia 1º e seguem até sábado. Amanhã o pesquisador e Denise viajam para o Parque Estadual da Serra do Mar no Núcleo Picinguaba, no litoral paulista, para estudar espécies daquela área. "É a primeira vez que venho ao Brasil. Aqui a diversidade é enorme. Enquanto nos Estados Unidos temos cem espécies, aqui encontramos mais de 800", explica Venesky. Além da amplitude de espécies, o pesquisador americano está levando para o país norte- americano uma nova técnica de análise, com software de computador bastante utilizado pelos pesquisadores brasileiros.

"O programa era utilizado por nós apenas para analisar peixes e aqui os pesquisadores mostraram que também pode ser utilizado no caso dos girinos. A novidade nisso é que analisamos a forma do corpo do girino e não somente utilizamos as medidas", explica o pesquisador. A visita de Venesky à Rio Preto atraiu a atenção de pesquisadores brasileiros. Três, sendo um de Minas Gerais, um de Goias e uma do Maranhão, vieram até a cidade para acompanhar os trabalhos realizados.

"É uma ótima oportunidade para interagir e trocar experiências. Comparar as diversidades das espécies e aprender essa técnica de fotografar com mais velocidade", diz Gilda Vasconcelos de Andrade, pesquisadora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A visita de Vanesky também instigou nos pesquisadores brasileiros a vontade de ter o equipamento até então inovador. "Já estamos vendo de comprar uma máquina dessas para auxiliar nas nossas pesquisas e trabalhos", diz Gilda. Segundo o pesquisador americano, um modelo mais simples do equipamento custa em média 10 mil dólares.

Durante os dias em que esteve na cidade, o pesquisador deu início a três parcerias com pesquisadores brasileiros. Os projetos ainda estão na fase inicial e não foram definidos. "Além do projeto de estudarmos espécies de anfíbios juntos, ele ainda conheceu um pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), parcerias também foram feitas com eles", explica Denise.

Para finalizar os trabalhos realizados na cidade, Venesky ministrou uma palestra na tarde de ontem na Universidade Estadual Paulista (Unesp- Ibilse). Trinta e seis pesquisadores de diversas universidades do estado estiveram presentes.

"Esse foi um importante passo para a internacionalização da Unesp. É uma prova que aqui se faz pesquisa de qualidade", diz a pesquisadora.

Projeto reúne 40 pessoas

Com cerca de 40 integrantes, o projeto "Sisbiota: Girinos do Brasil", coordenado pela professora e pesquisadora de Rio Preto Denise Rossa-Feres reúne pesuisadores de várias universidades brasileiras com a finalidade de detalhar as espécies de girinos encontrados nos biomas do país. Onze estados e seis biomas estão sendo analisados pelo grupo há um ano. "O projeto visa fazer um trabalho em escala espacial, o que nunca foi feito anteriormente. Criar um guia de identificação das espécies de girino para auxiliar outros pesquisadores na identificação das espécies", explica Denise. Segundo a pesquisadora, o estudo tanto do local em que vivem, como são distribuídos no meio ambiente e um trabalho específico com cada espécie encontrada é necessário para a preservação desses animais.

"Esse estudo nos permitirá saber como as pressões ecológicas, como qualidade da água em que vivem e predadores, afetam as nossas espécies", explica a pesquisadora. A pesquisa possui um caráter teórico e também prático, como a elaboração de planos de proteção ambiental. Além da pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Ibilce), integram a equipe pesquisadores de outras dez universidades de seis estados brasileiros sendo Maranhão, Goiás, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Ceará e Bahia. O projeto faz parte do Programa Sisbiota-Brasil, financiado pelo CNPq, Capes e FAPs estaduais, no caso da Unesp, a Fapesp.

Os girinos

Os anfíbios são um grupo em declínio mundial, e o Brasil é o país que tem a maior diversidade de espécies endêmicas - aquelas que ocorrem em apenas uma região - em todo o mundo. Na busca de tentar reverter esse declínio, o principal obstáculo encontrado para o desenvolvimento de programas de conservação e manejo de anuros - sapos, rãs e pererecas - está na dificuldade de identificação dos girinos para se criar um inventário das espécies.