Notícia

Diário do Rio Claro online

Rio Claro abrigará Centro Paulista de Bioenergia

Publicado em 25 novembro 2010

Por Antonio Archangelo

O laboratório do Centro Paulista de Bioenergia da Unesp será construído em Rio Claro. A informação foi passada pelo atual reitor Herman Voorwald, durante discurso de inauguração do Unespetro na manhã de ontem (23). "Nós (Unesp), a USP, a Unicamp, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o governo do Estado, assinamos um grande convênio para a criação do Centro Paulista de Bioenergia, recursos que envolvem cerca de R$ 300 milhões. A Unesp de Rio Claro terá um grande laboratório central, onde ficarão equipamentos, técnicos, pesquisadores e docentes envolvidos, além de sete laboratórios filiados com competência na área de bioenergia, disse.

A iniciativa busca criar uma base científica para ampliar a competitividade da pesquisa paulista e brasileira em energia obtida de biomassa. Pelo convênio, a Secretaria de Ensino Superior do estado vai repassar R$ 18,4 milhões para as universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp), que serão usados para a construção de laboratórios, eventuais reformas e compra de equipamentos. As instituições de ensino, por sua vez, comprometem-se em contratar pesquisadores em diversas áreas da pesquisa em bioenergia, que trabalharão em conjunto com os pesquisadores já atuantes neste campo nas três universidades, num esforço integrado.

O formato do novo Centro, que foi alvo de discussões ao longo de 2009, é baseado numa partilha de investimentos e de responsabilidades. Cada um dos três atores envolvidos - governo, universidades e Fapesp - investirá montantes equivalentes. O convênio veio em resposta a uma proposta amadurecida entre as partes envolvidas e que foi apresentada ao governo estadual.

Os novos laboratórios deverão ter caráter multidisciplinar e envolver pesquisadores de áreas diversas, como agronomia, química, biologia, física, matemática, engenharia e ciências sociais. "A aglutinação de competências das universidades é o forte desse projeto e o objetivo é que o Brasil avance no que diz respeito ao conhecimento em bioenergia", diz o reitor da Unesp, Herman Voorwald.

A pesquisa em bioenergia vem crescendo no país, principalmente em São Paulo, Estado que concentra boa parte da produção de cana do país, e envolve iniciativas federais, estaduais e do setor privado. O Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, de acordo com seus idealizadores, quer diferenciar-se de iniciativas já existentes mirando em avanços na fronteira do conhecimento, associados à formação de recursos humanos qualificados.

Pesquisa aponta riscos

O campus de Rio Claro tem sido reconhecido pela produção de conhecimento na área do biodiesel, uma forma de bioenergia. Recentemente, uma tese de doutorado de Daniela Morais Leme, do Instituto de Biociências (IB), campus de Rio Claro, apontou dano ambiental do biodiesel derivado da soja, concorrente comum ao etanol brasileiro.

De acordo com o estudo, o dano é significativo e pode provocar mutações genéticas em seres vivos. O estudo é um dos 20 vencedores da edição 2010 do Prêmio Green Talents (http://www.dialogue4s.de/en/338.php), promovido pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha.

O biodiesel é uma das apostas do governo brasileiro para responder à demanda mundial por combustíveis "verdes". É feito com matérias-primas renováveis, como óleos vegetais, mais comumente o de soja, ou gordura animal. Além disso, não lança na atmosfera altas doses de gás carbônico, já que não é derivado do petróleo, como a gasolina e o diesel convencional. "O problema é que a análise da qualidade desse produto, só leva em conta o nível de emissão de poluentes no ar e não verifica se há substâncias tóxicas para o solo e a água", afirma a autora da pesquisa.

A investigação foi iniciada em 2007 com a proposta de verificar o impacto no meio ambiente em caso de vazamentos de combustível nas etapas de distribuição. A estudiosa analisou biodiesel de soja e diesel puros e misturas dos dois óleos em diferentes concentrações encontradas no mercado, denominadas B-50, B-20 e B-5 (classificação que varia de acordo com a porcentagem de biodiesel na composição).

Os resultados demonstraram que o diesel comum é tóxico para as células, mas a surpresa foi o desempenho do biocombustível. No solo, tanto os óleos compostos como o B-100, assim chamado o biodielsel puro, apresentaram efeito mutagênico (alteração do DNA das células). O B-100, ainda, manteve essa característica quando aplicado na água.

A tese foi orientada pela bióloga e professora do Instituto de Biociências, Maria Aparecida Marin Morales, e será defendida em dezembro. Parte do estudo foi desenvolvida durante estágio de doutorado realizado na Agência de Proteção Ambiental da Alemanha, sob a coordenação da bióloga Tamara Grummt.

"Os resultados se complementam e indicam que, de fato, o biodiesel é capaz de gerar mutações. Agora, precisamos saber que parte do combustível provoca esse efeito e determinar se é possível neutralizá-la", explica Daniela. Para isso, uma nova etapa de pesquisa começou a ser desenvolvida por ela, em conjunto com o Instituto de Química (IQ), câmpus de Araraquara. A química Mary Rosa Rodrigues de Marchi, professora do IQ e coordenadora desse estudo, afirma que será árduo o trabalho de identificar o que está causando as respostas genéticas. (Unesp e Ambiente e Energia)