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Jornal da Unicamp online

Ricos, mas desconhecidos

Publicado em 17 agosto 2015

Por Manuel Alves Filho

Pesquisa desenvolvida para a tese de doutoramento da historiadora Cristiane Maria Magalhães, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, resultou na elaboração de um inventário inédito acerca do Patrimônio Paisagístico Brasileiro. De acordo com o levantamento, que privilegiou bens que receberam proteção por meio de algum instrumento jurídico de salvaguarda, o país possui 492 desses monumentos, que no estudo foram divididos em 22 categorias, como árvores, balneários e estâncias termais, cemitérios e memoriais, conventos e claustros, fazendas e sítios etc. O trabalho foi orientado pela professora Silvana Barbosa Rubino.

A autora da tese de doutorado explica que identificou a necessidade da elaboração do inventário durante as pesquisas, pois inexistia levantamento anterior que apontasse qual a dimensão e as características do patrimônio paisagístico nacional. Os dados obtidos ajudaram a dar sustentação aos objetivos centrais da pesquisa, de contextualizar, qualificar e pontuar sob quais circunstâncias esses bens têm sido protegidos, considerando o período compreendido entre as décadas de 1930, quando foi constituído o primeiro órgão federal de preservação, que deu origem ao atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e 2010, ano do início da pesquisa.

Além de inventariar e categorizar as unidades que compõem o patrimônio paisagístico do país, a historiadora também se preocupou em estabelecer a localização desses bens no Google Maps. A iniciativa, segundo ela, é para dar maior visibilidade a esses monumentos, que são em boa medida desconhecidos tanto no Brasil quanto no exterior. “Por meio do inventário, o interessado tem acesso, através do arquivo digital, a um link externo que direciona para a localização exata ou aproximada de cada bem”, assinala Cristiane.

Em relação ao estado de conservação dos patrimônios, a autora da tese de doutorado afirma que foram registrados avanços ao longo das últimas décadas, principalmente a partir dos anos 1980, quando ganharam importância os aspectos técnicos relativos a estudos, restauração e preservação dos monumentos históricos e culturais. “No entanto, ainda há muito a ser feito em conformidade com as normativas internacionais e com o que tem sido realizado em outros países há décadas, principalmente em termos de inventário, catalogação, descrição, valoração, preservação e restauração do patrimônio paisagístico”, considera.

A despeito do desconhecimento por parte dos brasileiros sobre a importância desse patrimônio e das dificuldades para preservá-lo e divulgá-lo, Cristiane entende que a população nutre uma enorme afeição pelos bens paisagísticos. “Basta visitar o Parque Municipal de Belo Horizonte (MG), o Jardim Botânico (RJ) ou o Parque do Ibirapuera (SP) nos finais de semana, para se ter uma noção da frequência e dos usos feitos pela população. No Rio de Janeiro, os jardins da Casa de Rui Barbosa transformam-se em um berçário diariamente. É lindo ver a quantidade de mães e babás com suas crianças brincando e tomando sol no local. Se no Brasil, diferentemente do que acontece na Europa e nos EUA, a frequência a esses espaços não é maior, credita-se apenas aos estados de abandono e de falta de segurança existente em muitos desses locais, e não à falta de apreço da população brasileira em estar nos parques e jardins públicos ou nos parques nacionais”, assegura.

Em sua tese, Cristiane deu especial atenção aos jardins históricos. O foco da pesquisa, conforme a historiadora, decorreu do fato de o tema ser muito pouco abordado pelos pesquisadores brasileiros. Dentro das discussões historiográficas, avalia, a abordagem é inédita. “Não por outra razão, parte significativa da pesquisa bibliográfica e metodológica foi realizada em Portugal, onde cumpri estágio na Universidade de Coimbra, sob supervisão do professor Carlos Fortuna. Lá, pude ter acesso a uma ampla bibliografia internacional especializada e a metodologias atuais no tratamento a esses bens”, esclarece.

No trabalho, segundo a pesquisadora, os jardins históricos brasileiros são compreendidos e vistos por crivos simbólicos e conceituais, numa vertente culturalista da história. O Brasil, conforme a historiadora, possui jardins históricos notáveis. Ela elenca alguns deles, como os jardins do Palácio do Catete e Jardim Botânico, ambos no Rio de Janeiro; o Jardim do Hospital São João de Deus, na Bahia; a casa de Monteiro Lobato e o Jardim da Luz, em São Paulo; o Parque das Águas de Caxambu e o Parque Municipal de Belo Horizonte, em Minas Gerais; além dos jardins concebidos pelo paisagista Burle Marx, que estão espalhados por várias cidades brasileiras.

Cristiane observa que um jardim histórico é como um museu vivo. “A relevância histórica, cultural e patrimonial dos jardins históricos é inestimável”, defende. Para sustentar a sua afirmação, ela se vale das palavras da pesquisadora espanhola Carmen Añon, segundo as quais cada jardim se inscreve como documento único, que não se repete, com um processo próprio de desenvolvimento; uma história particular, com nascimento, evolução, mutações, degradações etc. Trata-se de um bem que reflete a sociedade e a cultura que o criou e na qual viveu. “Nos dizeres de Jorn de Precy [filósofo e paisagista islandês que se fixou na Inglaterra no início do século 20], nós temos sobre a terra um tempo limitado. E encontramos, nos jardins, sítios nos quais o tempo para; refúgios nos quais o tempo, sem idade, parece infinito”, pontua a autora da tese.

Tanto os jardins históricos quanto os demais monumentos que constituem o patrimônio paisagístico, prossegue a historiadora, contribuem para que a história de uma localidade ou país seja contada. “Nesse sentido, cito a arquiteta e paisagista portuguesa Rita Theriaga. Para ela, as paisagens e o patrimônio paisagístico podem fornecer informações acerca das relações que se estabelecem ao longo do tempo entre as sociedades e o meio natural, podendo como tal contribuir para a compreensão da história, da ciência, da antropologia, da literatura etc. É nesta perspectiva que faz sentido designar ‘paisagem’ como patrimônio cultural, na medida em que são bens em constante evolução e que herdam, se utilizam e se legam às gerações vindouras”.

Retomando o tema jardins históricos, Cristiane acrescenta que estes são monumentos locais com características peculiares. Eles não são adjacências da arquitetura ou decorações das cidades, como alguns podem pensar. “Os jardins apresentam valor artístico, valor histórico e valor enquanto memória e identidade de um povo. Estar em um jardim histórico é como caminhar dentro das paisagens de Botticelli, Claude Lorrain, Monet, Frans Post, Nicolau Facchinetti ou Antônio Parreiras. Portanto, a salvaguarda e preservação das características peculiares destes bens culturais contam a história de um país e da sua relação com a arte, a arquitetura e as tecnologias de determinado período histórico”, reforça.

O trabalho de Cristiane também deu origem a uma página no Facebook denominada “Jardins Históricos Brasileiros [www.facebook.com/jardinshistoricosbrasileiros], que conta com seguidores de diversos países, e a um site [www.jardinshistoricosbrasileiros.blogspot.com.br]. O objetivo dos espaços virtuais é divulgar informações sobre os monumentos e promover trocas de experiências com outros pesquisadores sobre o tema. A tese de doutorado da historiadora contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

Publicação

Tese: “O Desenho da História no Traço da Paisagem: patrimônio paisagístico e jardins históricos no Brasil - memória, inventário e salvaguarda”

Autora: Cristiane Maria Magalhães

Orientadora: Silvana Barbosa Rubino

Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Financiamento: Fapesp