Notícia

Diário de Sorocaba

Revolução na biomassa

Publicado em 04 outubro 2007

A condição brasileira para a produção dos biocombustíveis é inegavelmente superior à da maioria dos países. Além de termos o domínio da tecnologia, são nulos os inconvenientes em matéria de ocupação das terras. No caso do etanol, por exemplo, que é uma iniciativa vencedora, plenamente consolidada, nós alcançamos uma liderança no processo de produção graças aos investimentos em tecnologia que começaram a ser realizados pelo setor privado há mais de 30 anos, respaldados depois pela Embrapa e pelo CTA.

"Podemos comemorar o fato que é um setor no estado da arte," tanto no que diz respeito à atividade agrícola como no processo industrial. Isso é válido inclusive sob o aspecto da preservação do meio ambiente que hoje é uma preocupação universal.

No denso e bem articulado discurso que produziu esta semana na abertura da 62ª Assembléia Geral das Nações Unidas, em New York, o presidente Lula aproveitou para desfazer algumas daquelas "preocupações". A experiência brasileira de três décadas mostra que é plenamente possível combinar o biocombustível com a preservação ambiental e a produção de alimentos. Além de proporcionar a alternativa de uma energia limpa, está se tornando uma fonte de renda importante para a agricultura familiar.

Pode se transformar — conclui Lula — num fator decisivo para os programas de combate à fome nas regiões pobres do planeta. Sua intensa pregação das virtudes da biomassa provocou o comentário admirado do presidente Bush que o chamou de "evangelizador do etanol"...

Tais considerações são interessantes, não estão fora da realidade neste momento em que mantemos certa liderança na tecnologia de produção dos biocombustíveis. O problema é a ameaça de um grande avanço no desenvolvimento de novos processos: estou convencido que vivemos a iminência de uma verdadeira revolução tecnológica que vai permitir utilizar a hidrólise para converter qualquer biomassa em combustível.

Se tomarmos como exemplo a soja, que produz 20% de óleo, e se puder transformar o resíduo restante em biocombustível, imagine-se o alcance dessa revolução. Na hora em que se fizer a hidrólise enzimática não vai haver nenhuma restrição para transformar a biomassa em biodiesel.

Temos comemorado os avanços que fizemos nesse campo, mas não sei se removemos (governo e iniciativa privada) as dúvidas sobre o que fazer se vamos aprofundar as pesquisas nessa direção para enfrentar competidores do porte dos EUA e de alguns europeus e asiáticos. A FAPESP tem um programa de pesquisa e há notícia de investimentos privados, da Votorantin, da Dedini, mas me parece que não há muito mais do que isso e, pior, o governo parece ausente.

É preciso acordar para o fato que estamos competindo com gigantes que não medem esforços para desenvolver novas tecnologias: há dois meses o Departamento de Agriculturados Estados Unidos doou 500 milhões de dólares para três universidades americanas que realizam pesquisas para desenvolver tecnologias biológicas ou químicas de transformação de massa em biocombustível. No relatório sobre o Estado da União enviado ao Congresso pelo presidente Bush, está dito que os EUA pretendem estar produzindo 108 trilhões de litros de etanol e biodiesel em 2.017.

Em que pese a aparência de exagero (a estimativa do setor privado é produzir ¼ desse volume), o que aprendemos é que o elefante americano quando se move derruba o que tem pela frente.

Em 2.017 nós devemos estar produzindo talvez 5% do biodiesel consumido no mundo, contra 75% dos EUA. Se não tratarmos de investir pesadamente em pesquisa, aproveitando a vantagem da liderança tecnológica que construímos nesses trinta anos, é certo que logo vamos ser ultrapassados no processo, como aconteceu em tantos outros campos de atividade nas últimas duas décadas.