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Revista Revide

Revolução cotidiana

Publicado em 24 janeiro 2020

Por Da redação

Em séculos de evolução, a ciência têm proporcionado melhor qualidade de vida à espécie humana e é pensando nisso que, cotidianamente, pesquisadores se empenham em estudos que tragam conclusões que possam revolucionar a sociedade. Até pouco te1npo atrás, a cura para o câncer seria uma realidade responsável, mas as pesquisas avançaram a ponto de u1na reportage1n destacar a vitória contra o câncer de linfoma. Equipe de professores da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto desenvolveram tratan1ento pioneiro na América Latina que cura esse tipo de câncer, e teve até paciente curado com a terapia inédita. Quando o assunto é um grande polo de pesquisa, como o da cidade, outras inovações ganham espaço e é possível ver que, na prática, mes1no com as limitações para se produzir ciência no Brasil, novas descobertas leve1n Ribeirão Preto a ser destaque mundial.

A inovação da vez, que fez com que a cidade se tornasse notícia em diversos meios de comunicação, foi o desenvolvimento de um tratamento altamente efetivo para u1n tipo de câncer denominado Linfmna não-Hodgkin, que afeta o sistema linfático. Há cerca de quatro anos, professores da USP e pesquisadores do Hemocentro, por meio do Centro de Terapia Celular ( CTC), uniram conhecimentos e técnicas relacionadas para desenvolver a terapia no país. As medidas já eram desenvolvidas desde 2001, quando foi criado o CTC, com a ajuda de instituições públicas e mais de 170 alunos de pós-graduação que defenderam teses e dissertações relacionadas ao tema. Segundo Dimas Tadeu Covas coordenador do CTC, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), o tratamento com células CAR-T baseia- se na modificação genética das próprias células de defesa do paciente, que, em consequência, tornam-se específicas para destruir o tu1nor em qualquer lugar que esteja no organis1no.

O trabalho incessante exigiu esforços de mais de 20 profissionais, entre biólogos, farmacêuticos, biologistas moleculares e celulares, engenheiros químicos, bio1nédicos e médicos. ((O CTC do Hemocentro de Ribeirão Preto e Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP são pioneiros na América Latina e se iguala1n a muitos países do mundo que estão iniciando esse tipo de terapia. Para o Brasil, inauguramos um capítulo de esperança aos portadores dessa doença, que, nu1n futuro próximo, poderão ser tratados de forma efetiva", frisa o cientista. A terapia por células CAR-T, como mencionado, traz células produzidas em laboratório, oriundas das células mais importantes do sistema de defesa humano, chamadas de T.

Em estado natural, essas células, que protegem as células contra infecções e tumores, pode1n perder a capacidade de detectar as células do câncer. Dessa forma, o processo de produção das referidas células, e1n outras palavras, seria a transformação das células T para que possam readquirir a capacidade de identificação das células específicas do câncer. Diinas ainda reforça que o CTC já produziu tratamentos inovadores com base e1n células-tronco hematopoéticas e células estromais mesenquimais, além de continuar atuando firme1nente nessas áreas. Há, també1n, o desenvolvimento de estudos para regeneração tecidual, be1n como novos trata1nentos para o câncer e doenças genéticas, como aneInia falcifonne, a he1nofilia e a talassemia, e de forma pioneira, criando protocolos experimentais para terapia gênica. 1nento como o Brasil.

A pesquisa foi patrocinada pelo Ministério da Saúde e conduzida em 16 hospitais brasileiros- o HC de Ribeirão Preto está dentro desse grupo seleto. Octávio lembra que o Hospital foi um dos centros que 1nais recrutarmn pacientes para o estudo, sendo a Unidade de E1nergência u1n dos quatro hospitais públicos do país a oferecer o trata1nento no SUS. ''Os resultados do estudo foram u1n dos destaques do congresso europeu de AVC no ano passado e, agora, estão sendo avaliados pelo Ministério da Saúde para possível incorporação no SUS. Caso isso ocorra, o trata mento tem o potencial de salvar 1nilhares de vidas e reduzir as sequelas': frisa o estudioso. Octávio observa que um estudo como esse requer muito apoio do governo e de agência de fomento, e isso é essencial para que se combata a doença no país e que haja avanços na prevenção e tratamento.

"Espero, sincera1nente, que os governos federal e estadual continue1n fomentando pesquisas científicas e investindo e1n saúde. Justamente quando os recursos são escassos é que se torna 1nais ünportante que os investünentos em saúde seja1n funda1nentados em pesquisas de qualidade e análises de custo-benefício", argumenta o profissional, que faz questão de frisar o quanto é gratificante fazer a diferença na vida de u1n paciente com AVC que recebe o diagnóstico e tratamento adequado e se recupera sem sequelas - o que só é possível com a ajuda de profissionais capacitados e engajados na causa. O pesquisador cita, co1n gratidão, os professores Lauro Wichert Ana e Júlio Sérgio Marchini, os colaboradores Leonardo dos Santos, Ana Carolina Trevisan, Larissa Siena e Bárbara de Almeida Pinheiro Guimarães, bem como a todos os funcionários do HC, que se empenharam para a realização do trabalho. "Por 1neio da pesquisa científica e1n saúde temos conseguido fazer a diferença na vida de milhares de pessoas. Esse é o sonho de qualquer pesquisador. O trabalho árduo é recmnpensado todos os dias pelo carinho e reconhecimento dos nossos pacientes", finaliza o médico.

NO CENTRO DO DEBATE

Pesquisa da FMRP-USP revelou que fazer uso diário da maconha pode aumentar em até três vezes o risco de desenvolver psicoses. O estudo foi elaborado em 16 centros de estudo no mundo e em seis países, incluindo o Brasil. Como uma das responsáveis pela pesquisa no Brasil, Cristina Marta Del-Ben, médica psiquiátrica e professora da FMRP-USP, enfatiza que o objetivo do estudo, iniciado em 2012 e concluído em 2015, era, a princípio, checar a incidência e o número de casos novos de psicoses em determinado período de tempo e população.

O objetivo era estimar a incidência em Ribeirã o Preto e nos demais municípios componentes do 13° Departamento Regional de Saúde do Estado de São Paulo (DRS-XIII), com o intuito de investigar possíveis interações entre fatores sociais e biológicos na ocorrência desses transtornos mentais. O estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Referindo-se ao uso da maconha, o estudo evidenciou uma relação causal entre o uso da droga e psicoses, mostrando que, quanto maior o uso, eleva -se, também, o risco de desenvolver a perturbação.

O padrão de uso de maconha foi caraterizado quanto ao uso durante a vida, uso atual, idade de início do uso, frequência, quantidade de dinheiro gasto por semana com maconha e potência do tipo de maconha mais frequentemente utilizada. Mais constatações surgiram, pois o estudo mostrou, ainda, que quem faz uso todos os dias tem até três vezes o risco de desenvolver o problema - e essa condição se torna mais alarmante quando o uso diário for de maconha com alto teor de Tetrahidrocanabidiol (THC), responsável pelos efeitos psicoativos e neurotóxicos. "Em nossa região, o uso de maconha com alto teor de THC foi relatado por apenas uma pequena parcela de participantes do estudo (1,5% dos controles de base populacional e 3,6% dos pacientes).

Por outro lado, o uso diário de maconha foi observado em 7,4% dos controles e 25% dos pacientes, o que se refletiu num risco 2,5 vezes maior de ocorrência de psicoses entre os indivíduos com uso diário de maconhà: pontua Cristina. Segundo a especialista, a psicose, provavelmente, é multifatorial, sendo assim, não se sabe claramente a etiologia, mas dá para adiantar que se há um indivíduo na família com o diagnóstico, as chances são maiores de desenvolver o transtorno. Cristina destaca que a Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, tem longa tradição em pesquisa básica e clínica, com contribuições relevantes para a ciência, com o impacto direto na assistência à Saúde da população - isso tudo com aplicação contínua de conhecimentos atualizados e inovadores. "Políticas públicas voltadas ao desenvolvimento científico e tecnológico impactam, diretamente, no crescimento econômico do país. Bons exemplos são as medidas adotadas pela China e por Singapura, nas últimas décadas, com investimento maciço em educação e formação de recursos humanos com pesquisadores qualificados", finaliza a docente.