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“Revista USP” faz “radiografia” da violência urbana no Brasil

Publicado em 29 julho 2021

Por Claudia Costa

Nova edição da publicação traz dossiê com ensaios de especialistas sobre a segurança pública no País

“Quanto mais homicídios, mais frágil a democracia”, escrevem os pesquisadores Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, e Luís Felipe Zilli, do Núcleo de Estudos em Segurança Pública da Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, na apresentação do dossiê Segurança Pública, publicado na edição 129 da Revista USP , que acaba de ser lançada pela Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP. Organizadores do dossiê, Manso e Zilli acrescentam que “a violência letal, intencional e armada tem sido um dos grandes desafios políticos para as instituições democráticas no contexto atual do Brasil urbano”. Para eles, mais do que meramente um problema de segurança pública, a concentração de homicídios em alguns territórios metropolitanos ajuda a localizar a ação de grupos armados e o domínio que exercem sobre bairros ou conjuntos de favelas, submetendo a população local aos seus próprios interesses. A nova edição da revista busca explicar qualitativamente esse fenômeno, além de refletir sobre maneiras de reverter esse quadro de violência e o processo de fragilização do monopólio da força pelo Estado.

Composto de seis ensaios, o dossiê detalha a variação das taxas de homicídios nas cinco regiões brasileiras. O primeiro artigo, Tiro Cruzado: as Dinâmicas de Violência Armada Letal Envolvendo a Juventude Brasileira, de Maria Fernanda Tourinho Peres e Fernanda Lopes Regina (USP) e Mariana Thorstensen Possas, Ana Clara Rebouças de Carvalho e Maíne Souza (Universidade Federal da Bahia), apresenta um quadro geral e se detém na comparação entre os Estados de São Paulo e Bahia. “Desde os anos 80, assistimos a um crescimento das taxas de homicídios, atingindo o pico em 2017. Vivemos há 30 anos um estado de violência letal endêmica, que afeta especialmente a juventude negra e pobre, sem conseguir produzir uma compreensão do problema e reação política à altura”, escrevem, concluindo que os efeitos da dinâmica “tráfico-polícia” são a grande causa das mortes dos jovens.

Cena do filme Cidade de Deus (2002) – Foto: Reprodução

Na sequência, os conflitos entre gangues estão reproduzidos no texto O Efeito Gangue sobre a Dinâmica dos Homicídios: Um Estudo sobre o Caso de Cambé/PR, de Cleber da Silva Lopes e Anderson Alexandre Ferreira (ambos da Universidade Estadual de Londrina), que analisam os padrões de homicídios em um território periférico do município de Cambé, no Paraná, ao longo de 15 anos (1991-2006), através do conhecimento do primeiro autor, morador do território analisado e integrante de uma das gangues ativas no começo da década de 2000. Em Necropolítica e Racismo na Construção da Cartografia da Violência nas Periferias de Belém, Aiala Colares de Oliveira Couto (Universidade do Estado do Pará) analisa a cartografia dos homicídios em Belém a partir da sobreposição de dinâmicas criminais nos territórios envolvendo narcotraficantes, milicianos e outras variadas formas de conflitos urbanos.

O surgimento, consolidação e expansão de facções criminosas do Ceará e do Rio Grande do Norte são descritas por Juliana Melo (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e Luiz Fábio S. Paiva (Universidade Federal do Ceará); as dinâmicas da letalidade violenta, sobretudo entre jovens, nos Estados do Espírito Santo e Minas Gerais são analisadas por Marco Aurélio Borges Costa (Universidade Federal do Espírito Santo) e Rafael Rocha (Universidade Federal de Minas Gerais); e, por fim, Giovanni França (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) estuda o envolvimento de jovens com a criminalidade no Estado de Mato Grosso do Sul, demonstrando como a expansão do narcotráfico em todas as regiões do Estado e os conflitos entre as duas principais facções criminosas do Brasil pela disputa da hegemonia atacadista de drogas e armas na fronteira incidiram diretamente no recrutamento de jovens e no número de encarceramentos no Estado.

“O dedo na ferida”

A revista ainda traz outras três seções. A questão da segurança pública reaparece na seção Arte através do artigo O Dedo na Ferida, de Alecsandra Matias de Oliveira. A autora lança o olhar sobre propostas artísticas surgidas após a década de 1990. “São artistas e obras que atingem o ponto nevrálgico, expõem os crimes, a violência, a marginalidade e a justiça. Evocam a reflexão sobre a barbárie contemporânea”, escreve. Ainda segundo Alecsandra, “o dizer sobre violência é também apontar para sua banalização ou indiferença; é mostrar a crueza das chacinas, das articulações do narcotráfico, das inseguranças nas periferias, da discriminação racial, dos feminicídios, do crescente armamentismo entre a população, das grades dos condomínios, etc. – esse é um debate que atravessa as artes visuais, a literatura, a música, o teatro e o cinema”.

A seção Textos reúne três artigos: O Conde de Monte Cristo e Catábase de Edmond Dantès, por Cleber Vinicius do Amaral Felipe; A Tensão entre o Silêncio e o Discurso em Haneke, por Rafael Mantovani; e Itaguaí, ou o Grande Teatro do Mundo, do crítico literário e pesquisador francês Pierre Brunel, com tradução e notas do professor da USP Jean Pierre Chauvin. Por fim, Livros traz análises sobre O Polímata: Uma História Cultural – de Leonardo da Vinci a Susan Sontag, de Peter Burke (Editora Unesp, 2020), por Carlota Boto; A Modernidade entre Tapumes – Da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna, de Vagner Camilo (Ateliê Editorial/Fapesp, 2020), por Victor Gustavo Zonana; e José Saramago: Literatura contra Mercadoria, de Jean Pierre Chauvin (Fonte Editorial, 2021), por Cícero Alexsande dos Santos.

Revista USP, número 129, dossiê Segurança Pública, Superintendência de Comunicação Social da USP, 184 páginas.

A revista está disponível na íntegra, gratuitamente, neste link

 

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