Notícia

Nisac

Revisão em praça pública

Publicado em 26 abril 2017

Wellcome Trust, fundação do Reino Unido que financia pesquisa biomédica, anunciou no dia 17 de janeiro que passará a aceitar preprints nas referências bibliográficas dos projetos que apoia. Preprints são artigos que ainda não passaram pelo crivo da revisão por pares, a forma de avaliação consagrada em revistas científicas – em vez disso, eles são disponibilizados em repositórios eletrônicos públicos e expõem seus resultados à crítica instantânea da comunidade científica.

“Esperamos que, ao citar preprints, os pesquisadores sintam-se encorajados a utilizar esse modelo para divulgar resultados e descobertas mais rapidamente”, explicou, em um comunicado, Robert Kiley, diretor de serviços digitais da Wellcome Trust. No dia 24 de março, foi a vez de os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), principal organização de fomento à pesquisa médica dos Estados Unidos, autorizarem que seus candidatos citem preprints nos projetos submetidos à agência. Revistas científicas costumam levar meses ou até mais de um ano para cumprir as etapas do processo de avaliação de um artigo e publicá-lo efetivamente. Já no caso de um preprint, o manuscrito é imediatamente disponibilizado para leitura e comentários.

As iniciativas da Wellcome Trust e dos NIH fazem parte de um movimento que ganhou fôlego com o crescimento recente da publicação de preprints em áreas como as ciências da vida e as ciências sociais, reproduzindo a experiência das ciências exatas. O repositório arXiv, atualmente sediado na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, é utilizado por físicos, matemáticos e cientistas da computação há 26 anos e inspira novas iniciativas. Em fevereiro de 2016, 30 organizações científicas e instituições de apoio em todo o mundo, entre elas a Academia Chinesa de Ciência, a Fundação Bill e Melinda Gates, os NIH e a Wellcome Trust, uniram-se em um convênio e fizeram um apelo para que todos os dados coletados durante o surto do vírus zika passassem a ser disponibilizados de forma rápida e aberta. A decisão segue preceitos de uma declaração da Organização Mundial da Saúde de setembro de 2015, que incentiva a divulgação rápida de dados durante emergências em saúde, encurtando o caminho entre informações científicas, autoridades e público. A medida surtiu efeito e, já em março, estudos com indícios contundentes da relação entre o zika e a microcefalia foram publicados em preprints.

De acordo com Jessica Polka, o principal temor dos biólogos em relação aos preprints é que os artigos sejam vistos como trabalhos de qualidade inferior, que não passaram pela revisão por pares. Ela observa, porém, que 65% dos artigos de astronomia, astrofísica, física nuclear e física de partículas publicados em revistas indexadas entre 1995 e 2011 tinham versões preliminares depositadas no arXiv. “Os preprints não querem competir com a publicação convencional em revistas. Trata-se de um complemento”, afirma. A iniciativa tem inspirado projetos em outros países. No Brasil, a biblioteca eletrônica SciELO (sigla para Scientific Eletronic Library On Line) anunciou em fevereiro que lançará o repositório SciELO Preprints. Segundo o comunicado da direção da biblioteca, o objetivo é dar celeridade à publicação de artigos no país.

Olavo Amaral, professor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, observa que os sistemas de financiamento à pesquisa delegaram a avaliação da qualidade da ciência aos periódicos, devido à confiança na revisão por pares. “Mas a revisão por pares não é um filtro suficiente para assegurar a qualidade de um artigo”, diz. No modelo tradicional, ele afirma, a maioria das revistas conta com avaliadores voluntários e cada trabalho é geralmente analisado por no máximo três revisores. “No modelo de preprint, é possível colocar o artigo sob o olhar crítico de centenas ou milhares de pares, de maneira aberta”, explica Amaral. Ele, Stevens Rehen e Eduardo Fraga, professor do Instituto de Física da UFRJ, debateram, em 2016, o assunto em evento da Academia Brasileira de Ciências (ABC), realizado em Belo Horizonte.

Atualmente o arXiv tem registrados mais de 210 mil pesquisadores ativos e esse número cresce cerca de 10% ao ano. Por dia, há mais de 1,2 milhão de acessos no site e são submetidos de 500 a mil novos manuscritos. “É evidente que no meio disso há muitas ideias ruins e algumas até erradas. Por isso que o filtro da revisão por pares mantém sua relevância”, pondera Backovic. Os repositórios de preprints são frequentemente questionados em relação à verificação da qualidade do que publicam. Alguns deles, como o arXiv, têm investido em softwares que conseguem identificar palavras duplicadas e possíveis casos de plágio. Também exigem que os pesquisadores comprovem seu vínculo institucional.

Interesse no assunto? Clique aqui para baixar a reportagem completa.

Fonte: Revista Fapesp