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Jornal Primeira Página

Revelada nova abordagem para o Design Eficiente de Nanofármacos no combate ao câncer

Publicado em 07 março 2021

Por Rui Sintra

Hoje venho falar de um estudo recente desenvolvido por pesquisadores do Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia do Instituto de Física de São Carlos (GNano-IFSC/USP), que permitiu que uma nova e inovadora abordagem e investigação fossem implementadas através da interação entre potenciais nanofármacos e membranas de células cancerígenas presentes em tumores no fígado humano.

Este estudo vem abrir novas portas para pesquisas que o citado grupo vem desenvolvendo desde há um longo tempo na busca de diversos tipos de nanomateriais e principalmente nanopartículas para aplicação médica, e neste caso concreto tendo como foco um entendimento pleno de como um nanofármaco consegue “ conversar ” com uma célula cancerígena e, possivelmente, eliminá-la.

Depois de cinco anos de estudos, a pesquisadora sênior do GNano, Drª Juliana Cancino Bernardi e seus parceiros, com supervisão do coordenador do grupo, Prof. Dr. Valtencir Zucolotto, conseguiu observar que as membranas de determinadas células tumorais têm mais facilidade de captar nanopartículas, em comparação com células saudáveis. O estudo da interação de nanopartículas com células cancerígenas desenvolvido por Juliana, tendo como foco o câncer de fígado, conseguiu obter uma visualização perfeita de todo o sistema, associada a outras técnicas já conhecidas. “ De fato, o que fizemos foi isolar a membrana de uma célula tumoral, extraindo todo o material genético dela, tendo aproveitado apenas a membrana. Posteriormente, observamos a interação dela com uma nanopartícula. Essa observação nos permitiu verificar que as nanopartículas têm mais interação com a membrana da célula tumoral do que a de células saudáveis. Extrapolando para uma aplicação oncológica, isto é, se essa nanopartícula tivesse sido desenhada como um nanofármaco terapêutico, teríamos como efeito a morte das células tumorais, com danos muito menores para as células saudáveis ”, explica Juliana que complementa ter escolhido o fígado para sua pesquisa, por ele se enquadrar no metabolismo de primeira passagem, onde o fármaco é degradado “ Com o entendimento desta pesquisa abrem-se outras portas para o desenvolvimento de nanofármacos com base em membranas celulares para a terapia de vários tipos de doenças, especialmente o câncer ”, complementa a pesquisadora do GNano.

Em um futuro próximo, a pesquisadora acredita que o procedimento poderá ter uma eficiência terapêutica bastante relevante em termos científicos. “ Para o futuro, podemos imaginar este cenário: o paciente será sujeito a uma biópsia (neste caso, no figado), retirando-se um pequeno fragmento do tumor, procedendo-se, seguidamente, à coleta de células dessa amostra, retirando-se apenas a membrana e revestindo-a com a nanopartícula já impregnada com o fármaco. Finalmente, essa “ falsa ” célula é introduzida no paciente (uma das formas poderá ser por injeção), sendo que ela é imediatamente absorvida pelas células doentes presentes no tumor. A “ falsa ” célula exercerá, então, sua ação terapêutica sem afetar as células saudáveis ”, conclui a pesquisadora. “ Será uma medicina personalizada ”, finaliza Juliana Bernardi, que ao longo de sua pesquisa foi apoiada pela FAPESP, através da concessão de uma Bolsa de Pós-Doutorado.

Para o coordenador do GNano, Prof. Valtencir Zucolotto “ Esta pesquisa ilustra perfeitamente a expertise do grupo GNano, que atua em temas na interface entre Nanotecnologia e Medicina, manipulando nanopartículas para diagnóstico e terapia. O estudo aqui reportado, em particular, pode ser muito útil para o Design de Nanofármacos, uma área de pesquisa relativamente recente e de grande relevância.

Este estudo foi publicado na revista Materials Today Communications com autoria de Juliana Cancino Bernardi, P. M. P Lins, V. S Marangoni, H. A. M Faria e Valtencir Zucolotto.