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Plantão News (MT)

Retrato poético de uma geração interrompida

Publicado em 01 fevereiro 2019

“Uma geração interrompida”. Assim Viviana Bosi define os poetas brasileiros que produziram algumas de suas obras mais significativas por volta dos anos 1970, durante o período mais sombrio da ditadura civil-militar. Eles são o objeto do livro Neste instante: novos olhares sobre a poesia brasileira dos anos 1970, coordenado por Bosi e por seu orientando de doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada, Renan Nuernberger, e publicado com apoio da Fapesp.

“Não quero dizer que todos os poetas que enfocamos constituíram um grupo homogêneo, longe disso. Talvez a palavra ‘interrompida’ se aplique mais a uns do que a outros. Em nosso estudo coletivo, olhamos para poetas jovens, como Ana Cristina Cesar, Cacaso e Afonso Henriques Neto, que participaram da chamada ‘geração marginal’, mas também para poetas de uma geração intermediária, como Paulo Leminski, Waly Salomão, Roberto Piva e Duda Machado. Olhamos também para poetas mais antigos, como Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Jorge Wanderley, Armando Freitas Filho e José Paulo Paes. O denominador comum é que todos foram posteriores ao que se convencionou chamar de ‘alta modernidade’ e todos tiveram uma atuação importante por volta dos anos 1970”, disse Bosi à Agência FAPESP.

Professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Bosi reuniu no livro ensaios de orientandos seus e também de colegas tanto da USP, como Roberto Zular, quanto de outras universidades, como Leonardo Gandolfi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Annita Costa Malufe, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Como lembrou a pesquisadora, os anos 1960 e 1970 constituíram um momento de virada rumo à contemporaneidade, quando novas visões da realidade, novos conceitos acerca do objeto artístico e novas propostas de interação com o espectador se apresentaram na música (MPB e Tropicalismo), no cinema (Cinema Novo e Cinema Marginal), no teatro (Teatro de Arena e Teatro Oficina), nas artes plásticas (Hélio Oiticica, Lygia Clark e outros) e também na poesia (Neoconcretismo, contracultura, Poesia Marginal). Esse momento colocou questões que ainda estão em aberto.

“Houve diferentes reações ao fechamento social, político e cultural imposto ao país. Alguns poetas responderam a isso por meio da ironia, do chiste, do oblíquo. Foi o caso de José Paulo Paes, que, em poemas muito concisos, contestou a ideologia ufanista, moralista, oficialesca. Sebastião Uchoa Leite fez algo parecido. Ele começou, nos anos 1950, com uma poesia muito elevada, que lembra Paul Valéry. Depois, entrou em contato com os concretistas. Mais tarde ainda, por ser um poeta muito reflexivo, passou a usar o humor e a ironia como instrumentos críticos em relação ao momento”, disse Bosi.

Geração interrompida

A derrota dos grandes movimentos de contestação política de 1968 impulsionou, em escala mundial, o fenômeno da contracultura. Diante da impossibilidade de vencer o “sistema” por meio do embate frontal, muitos artistas buscaram formas laterais de escapar dele.

“Isso se expressou aqui justamente em um momento de fechamento e recrudescimento da repressão política. Foi o chamado ‘desbunde’. A grande política deu lugar à micropolítica, à política individual, e viver em comunidades, publicar fora do mercado se tornaram modos de resistência”, disse a pesquisadora.

Ambos com formação intelectual bastante sofisticada, Leminski e Salomão foram expressões muito fortes dessa tendência, interagindo com os principais artistas da época, participando do movimento tropicalista e tendo vários de seus poemas musicados. Em uma outra chave, e apesar de seu comportamento e linguajar exuberantes, Roberto Piva seguiu uma trajetória mais recolhida, retomando procedimentos surrealistas e procurando depois conexões com a poesia oral xamânica.

“Cada um à sua maneira, esses poetas procuraram responder ao isolamento, ao exílio interior que aquele momento impunha. Alguns buscaram formas ainda mais indiretas de resposta, de prática da micropolítica. Foi o caso da Ana Cristina Cesar, com seu ritmo ofegante, sua escrita cortada, que traduz a dificuldade de viver, a dificuldade de interlocução, a sensação de isolamento social. Ou do Cacaso, que, em vários de seus poemas, dialogou com os aspectos sinistros daquela época”, disse Bosi.

Muitos artistas dessa geração morreram cedo. Alguns de maneira trágica, como Ana Cristina Cesar, Torquato Neto e Guilherme Mandaro, que se suicidaram. Outros porque “queimaram o pavio” rápido demais, como Leminski, Cacaso e Hélio Oiticica. E houve ainda aqueles que, para além da “vida louca” de sua geração, enlouqueceram de fato, como José Agripino de Paula e Rogério Duarte.

“Suas vidas e suas obras, identificadas com as dificuldades do coletivo, definiram, de certa forma, o retrato de uma geração interrompida, uma geração asfixiada pelo ambiente repressivo que se instalou no país, e que não raro sofreu perseguições, internações psiquiátricas e prisões”, disse Bosi. Dentre os poetas abordados no livro, alguns, tendo sido marcados pelas tensões e debates da época, continuam a produzir poesia de qualidade hoje, como é o caso de Augusto de Campos e Armando Freitas Filho.

Essa geração que se sentia mal, e muitas vezes não suportou a carga de um mundo normatizado pelo consumismo, pelo moralismo e pelo autoritarismo, sobreviveu no corpo do texto. Sua poesia ainda tem muito a dizer para a geração atual.

Neste instante: novos olhares sobre a poesia brasileira dos anos 1970

Organizadores: Viviana Bosi e Renan Nuernberger

Editora: Humanitas

Ano: 2018

Páginas: 452

Preço: R$ 45,00

José Tadeu Arantes | Agência Fapesp