Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Retração atinge a Engenharia

Publicado em 14 novembro 2017

Por Eduardo Brandão

Respingos da Operação Lava Jato e a recessão atingiram em cheio a carreira em Engenharia. Em apenas três anos, ao menos 425 vagas foram encerradas na região, conforme levantamento feito por A Tribuna, com base no Caged. Entre junho de 2014 e o mesmo mês deste ano, a região contratou 454 profissionais. No mesmo período, foram demitidos 879 profissionais. A frustração com o pré-sal e a retração do polo de Cubatão justificam a extinção dos postos de trabalho.

As engenharias Civil (-136 postos) e de Produção (-83) foram os setores mais afetados. "Essa é a tendência verificada em todo o País. Contudo, as vagas voltadas ao setor da construção civil foram as mais impactadas, por conta da Operação Lava Jato, que inviabilizou grandes obras", sustenta o presidente licenciado da FNE, Murilo Pinheiro.

Estudo da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) indica que ao menos 50 mil postos de trabalho no setor foram fechados no Brasil nos últimos três anos. O Estado de São Paulo foi o mais afetado, com a perda de 17,5 mil profissionais. Ao menos 3% das vagas paulistas que foram encerradas ficavam nas nove cidades da Baixada Santista.

Pela primeira vez desde a década de 1980, formandos deixam a faculdade sem garantia de emprego. Essa situação ocorre no momento em que o País mais formou engenheiros. Levantamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) indicou que 80 mil jovens profissionais estavam aptos a ingressar no mercado ano passado. Já especialistas com carreira estabilizada passaram a engrossar o grupo de brasileiros que buscam uma recolocação no mercado de trabalho. Desde 2014, o número de profissionais de Engenharia demitidos é maior que o de contratados, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.

RETOMADA

O diretor da Graduação de Engenharia da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Aureo Pasqualeto, acredita que a situação deve ser revertida com a retomada de investimentos públicos. Ele assegura que a maior oferta de vagas para Engenharia tem relação direta com o crescimento do País.

"Um maior número de profissionais é necessário para que o Brasil avance. Retornando a atividade econômica, de imediato retoma-se a contratação", diz ele, que também é diretor técnico e cultural da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS).

Até o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o mercado de trabalho do setor estava aquecido, com andamento de obras e o ritmo de expansão do País. Naquela ocasião, o risco de falta de profissional era elevada.

À época, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (lpea) apontava que o número de engenheiros no País deveria triplicar até 2020 para não comprometer o andamento de projetos. O cenário otimista era previsto caso a economia nacional se mantivesse num ritmo de crescimento de 4% ao ano.

EXPECTATIVA

Contudo, em 2013 o crescimento econômico foi metade desse percentual (2,07%), seguido por três anos de quedas no Produto Interno Bruto (PIB, a riqueza gerada no País).

"Se tivesse que falar para algum aluno qual área seguir, falaria Engenharia. Somente com o desenvolvimento de novas tecnologias teremos um País com indicadores financeiros pujantes. Assim que o Brasil voltar a ascender na curva da economia, essa área volta a ser a bola da vez", acredita Pinheiro.

Categoria é contra importar profissionais

A Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) deu início à campanha contra a proposta do Governo Federal que flexibiliza a entrada de profissionais estrangeiros da área no País. A proposta de tornar mais fácil a entrada de engenheiros de outros países no Brasil é defendida pela equipe de Michel Temer (PMDB) para destravar o mercado da construção civil.

A medida deve ser enviada ao Congresso nas próximas semanas. "Antes de tomar uma ação com esse impacto, o governo deveria ter consultado as áreas técnicas e entidades representativas da profissão", diz Pinheiro.

Ele assegura que o número de profissionais no País é suficiente para atender à demanda interna, mesmo em caso de crescimento acima da média da última década. Até 2010, as faculdades brasileiras formavam cerca de 40 mil engenheiros por ano. Já em 2015, esse número foi dobrado. Contudo, ainda é aquém do que outras nações em desenvolvimento: Índia e China formam, respectivamente, 220 mil e 650 mil novos engenheiros por ano.

REGISTRO AUTOMÁTICO

A proposta defendida por Temer determina prazo máximo de 90 dias para os órgãos que regulam a profissão emitirem registros para engenheiros estrangeiros atuarem no Brasil. Atualmente, a licença é emitida pelo Conselho Regional de Engenharia (Crea), com período que pode ser superior a um ano, após a análise de títulos e de currículo dos estrangeiros interessados.

A nova regra permite a emissão automática do registro caso o prazo não seja cumprido aos profissionais de empreiteiras que vencerem licitações públicas. Essa flexibilização foi pedida ao governo brasileiro por grupos internacionais com interesse em entrar no País.

Entretanto, enfrenta forte pressão da classe nacional, que teme o aumento de desemprego no setor. "Se a empresa estrangeira quer atuar no Brasil precisa utilizar mão de obra local", argumenta Pinheiro.

REAQUECEER A ECONOMIA

O menor prazo para a emissão da licença é defendido pelo governo como forma de reaquecer a economia e retomar as mais de cinco mil obras federais paradas pelo Brasil.

A leitura é que a Operação Lava Jato comprometeu a saúde financeira das maiores empreiteiras brasileiras, que passam por restrições de crédito e podem ficar proibidas de firmar contratos de obras com o Poder Público.