Notícia

Revista Valor Especial

Resultados além do esperado

Publicado em 21 novembro 2017

Por Ricardo Lessa

Além do efeito esperado de aumento na produção nacional de petróleo, as novas tecnologias utilizadas na exploração do pré-sal jogaram por terra os prognósticos mais pessimistas. Repetidas vezes, vários especialistas na área sustentaram que a operação seria antieconômica com o preço internacional do barril a US$ 50.

Passados 11 anos desde a descoberta das jazidas, com os avanços da tecnologia de perfuração e exploração, a empresa chega a retirar um barril de petróleo gastando menos de US$ 8, segundo informação da diretora de exploração e produção da Petrobras, Solange Guedes, em evento da Câmara de Comércio Brasil-Texas, em maio passado.

Ela assegurou que a Petrobras consegue perfurar um poço três vezes mais rápido do que há dez anos. Além disso, a recuperação do petróleo nas jazidas já chega em alguns poços a 50%. "É o quarto ciclo de expansão da Petrobras", comemorou a diretora no evento.

Podem parecer exagerados os números apresentados pela diretora, mas o fato é que o pré-sal está produzindo quase 1,7 milhão de barris de petróleo por dia, já superou os campos mais antigos, e dez outros sistemas de exploração estão sendo construídos para entrada em produção em futuro próximo.

Além disso, as grandes empresas mundiais na produção de petróleo, que, historicamente, não gostam de perder dinheiro, estão participando do negócio do pré-sal.

Oportunidades para desmentir os mais pessimistas não faltaram. Em 2015, a empresa recebeu o prêmio da Offshore Technology Conference, pelo conjunto da tecnologia desenvolvida para a produção do pré-sal. Em 2014, as sondas da Petrobras passavam os 5 mil metros de profundidade. Enquanto a construção dos poços ganhava em eficiência: em vez de 30 meses, como na época da descoberta, hoje leva 89 dias.

Os pesquisadores da Petrobras e das empresas parceiras enfrentaram as condições adversas de exploração dos novos campos: só no ano passado, a petroleira nacional depositou 62 pedidos de patentes, sendo 24 no Brasil e 38 no exterior.

"A Petrobras tem um conhecimento acumulado muito grande, o Brasil tem um diferencial mundial", reconhece o gerente de óleo e gás da ABB no Brasil, Maurício Cunha. A ABB é um dos maiores conglomerados multinacionais e fornece equipamentos que vão desde robôs até painéis digitais, passando por sensores e outras soluções tecnológicas para plataformas de exploração e refinarias da Petrobras.

Cunha acredita que a Petrobras faz pouca propaganda dos avanços que conseguiu nos últimos tempos. Mas os parceiros realçam as qualidades da brasileira. Mauricio Cunha é categórico ao afirmar: o futuro da exploração do petróleo está abaixo do oceano, e a Petrobras é uma das líderes nessa área.

Junto com o sistema Watson da IBM, a ABB trabalha para que os engenheiros tenham à disposição a resposta mais eficiente para um problema encontrado. Isso será possível com a alimentação de uma grande base de dados com as soluções encontradas por engenheiros de petróleo de todo o mundo. Assim, um engenheiro no Brasil poderá conhecer o percentual de acerto de cada solução encontrada pelos pares de outros países.

"A tecnologia de sensores e alarmes já é conhecida e de amplo uso; uma plataforma, por exemplo, tem 3 mil pontos com sensores. Agora temos que oferecer o diagnóstico e propor uma solução", diz.

Um dos sistemas da ABB mede o desgaste de equipamentos. Ele vai indicar quando precisa ser trocado, se a vida útil dele pode ser prolongada, tudo isso facilita a vida dos operadores e engenheiros, além de economizar gastos desnecessários e evitar acidentes.

A ideia é reduzir ao máximo a presença humana nas plataformas de petróleo e transferir a operação para painéis em terra, reduzindo riscos para os funcionários e para o meio ambiente, além de evitar o gasto de manutenção de pessoal no mar.

Outra parceira da Petrobras é a Shell, que está presente na exploração de vários poços do pré-sal. A Shell prevê investimentos de cerca de R$1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento nos próximos cinco anos.

Os tubos rígidos pelos quais passavam o petróleo extraído do fundo do mar ficaram no passado. Para a exploração do pré-sal, foram desenvolvidos dutos flexíveis e resistentes à corrosão, que são enrolados em carretéis e sustentados em boias que ficam no meio caminho entre a superfície e o fundo do mar. Além de distribuir o peso, elas servem para manobrar todos os canos. Eles conduzem o fluxo de petróleo e servem também para injetar água e gás nos poços.

A mais de 2 mil metros no fundo do mar, os materiais dos equipamentos precisam ter mais resistência, além de outras especificações. "Tecnologia é chave para reduzir custo", afirma Regis Assao, gerente de parcerias para pesquisa e desenvolvimento da Shell no Brasil. Um poço custa US$ 40 milhões, qualquer ponto percentual de ganho de eficiência é uma economia importante que se faz", explica.

A Shell faz parcerias com a USP, a UFRJ, o Senai e com agências de fomento à pesquisa, como a Fapesp e o CNPQ "Queremos desenvolver tecnologia para o Brasil, por brasileiros", afirma Assao.

Um dos projetos é um robô autônomo (ou seja sem estar ligado por cabos à plataforma) para operar em águas profundas e inspecionar as instalações. Ele deve entrar em operação em 2020, já passou por testes de campo em águas rasas. Agora entra na fase de testes em águas profundas e passa para a industrialização.

Em parceria com a UFRJ, a Shell está montando também um Laboratório de Referência Mundial para pesquisas em recuperação de petróleo. Segundo Regis, a média de recuperação em jazidas do pré-sal fica em 20%. "É como uma esponja em que conseguimos espremer apenas um pequeno percentual do liquido que ela contém", exemplifica. Na Noruega, a média é de 70% de recuperação, segundo ele.

O tipo de rocha de onde sai o petróleo do pré-sal é bastante particular e, por isso, é necessária muita pesquisa para se saber como extrair melhor o petróleo delas. O óleo vem com muito enxofre e C02 , o que acaba formando ácido sulfúrico, com muito poder corrosivo, o que também demanda pesquisa de materiais de alta resistência.

Em colaboração com a USP e a Fapesp, a Shell montou o primeiro centro de pesquisa de inovação em gás, que funciona desde 2013, com 300 pesquisadores alocados em 40 diferentes subprojetos.

A inventividade das startups é outro alvo para a Shell. Para isso, e empresa organizou o Startup Challenge, junto com o Senai e o Sebrae. Nesse concurso, serão selecionados três concorrentes, que podem receber investimento em dinheiro, capacitação ou franquia de laboratórios.

"Nosso objetivo é integrar o ecossistema de inovação, sem querer reinventar a roda", esclarece o gerente. O benefício é receber o reconhecimento, mais que o valor de um investimento, porque isso significa que a Shell e os parceiros veem a empresa com futuro promissor. "Enquanto fica só na prateleira, inovação não é inovação, é só uma invenção", completa.

As parcerias também são a regra na Petrobras, que tem projetos conjuntos com mais de 100 universidades e instituições de pesquisa, fornecedores e outras empresas nacionais. No exterior, a companhia mantém parcerias com mais ele 60 universidades e 25 instituições de pesquisa.

junto com a Statoil, ela Noruega, desenvolve o projeto Doris: robô móvel para inspeção remota ele instalações offshore. Ele será capaz de transportar diferentes sensores que, em conjunto com algoritmos de processamento de sinais, serão responsáveis pela análise de dados e identificação ele anomalias em instalações submarinas.

Apenas um software criado pela empresa para fazer diagnósticos da perfuração ele poços em tempo real reduziu a utilização de sondas em 18 dias, gerando uma economia de R$ 34 milhões em 2016.

Um simulador virtual de controle de unidade de produção e da planta de compressão possibilitou correções e ajustes que reduziram riscos e evitaram 23 paradas não programadas na plataforma P-43, representando uma economia de aproximadamente R$ 2,5 milhões.

Também na ancoragem das plataformas, um grande gasto sempre, foram obtidos avanços ele leitura ele elados, que reduziram a necessidade de 30 linhas previstas nos projetos originais e possibilitando, à Petrobras, a economia de R$ 4 70 milhões.

A maior parte do dinheiro que vai para as pesquisas e para os laboratórios provém do 1% da receita bruta da exploração dos campos que a Agência Nacional do Petróleo obriga as empresas a alocarem em pesquisa qualificada no Brasil.