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Restrição alimentar durante a gravidez altera intestino de feto

Publicado em 10 maio 2012

Uma pesquisa coordenada pela professora Maria de Lourdes Mendes Vicentini Paulino, do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, comprovou que a restrição alimentar materna durante a gestação causa alterações no intestino da prole que perduram até a vida adulta. Essas modificações, segundo o estudo, podem colaborar para o estabelecimento da obesidade observada em animais nascidos nessas condições.

Os resultados da pesquisa, feita com ratos, estão em consonância com a chamada hipótese da programação fetal, já levantada por outros trabalhos da literatura, segundo a qual, o organismo do feto se adapta a um ambiente intrauterino adverso. Como esse metabolismo se mantém após o nascimento, o indivíduo se torna mais propenso a engordar caso o padrão de ingestão calórica melhore.

O experimento na Unesp foi iniciado com dois grupos de ratas-mãe. Durante o período de gestação, as ratas do grupo controle recebeu uma dieta com 17% de proteína. As outras recebiam apenas 6% de proteína na ração.

Assim que os filhotes nasceram e teve início o período de amamentação, as fêmeas passaram a receber uma dieta idêntica, com 23% de proteína. As primeiras análises foram feitas quando os filhotes estavam com três semanas de idade, o que corresponde ao período de desmame.

A investigação se concentrou nos efeitos da baixa ingestão proteica durante a gestação sobre a atividade e expressão gênica de enzimas intestinais e sobre a expressão gênica e imunolocalização de transportadores intestinais da prole, que são fundamentais para a absorção de nutrientes no intestino. Foram avaliadas a atividade e a expressão gênica das enzimas sacarase, lactase e maltase – responsáveis pela digestão de carboidratos.

Para saber o quanto a síntese dessas enzimas estava sendo estimulada, foi medida a abundância do RNA mensageiro relacionado a esse processo. E para medir a quantidade de enzimas presente nas células intestinais, um raspado de mucosa foi incubado com o carboidrato a ser digerido.

Observou-se que, a partir das três enzimas estudadas, uma elevação estatisticamente significante na lactase, que é justamente a responsável pela digestão do açúcar do leite, no grupo que sofreu a restrição alimentar. Houve também aumento na expressão gênica dessa enzima.

Após o desmame, os filhotes dos dois grupos passaram a receber uma dieta idêntica, com quantidades normais de proteína. Na segunda análise, feita com 16 semanas, considerada a fase adulta nos ratos, verificou-se maior atividade e maior expressão gênica da enzima sacarase no grupo cuja mãe havia sido privada de proteínas durante a gestação.

Nas duas análises – feitas com três e 16 semanas de idade – foi possível notar maior proliferação intestinal, maior expressão gênica e maior presença dos transportadores SGLT1, GLUT2 e PEPT1, que têm consequência direta na absorção dos nutrientes. Essas respostas foram encontradas principalmente no duodeno, parte inicial do intestino delgado.

O resultado enfatiza que alterações do intestino delgado observadas na idade adulta podem ter sido programadas durante a gestação e que esta resposta pode ser atribuída, pelo menos parcialmente, ao aumento na expressão gênica de enzimas e transportadores. Essas modificações, que possibilitam maior absorção de nutrientes, talvez possam contribuir para o acúmulo de gordura observado em outros estudos.

A equipe pretende agora investigar se a atividade enzimática e a expressão gênica das enzimas pancreáticas, responsáveis por iniciar a digestão dos nutrientes, também são afetadas pela restrição alimentar.

Assessoria de Comunicaçao e Imprensa, com informações da Agência Fapesp