Notícia

A Tarde (BA)

Restos de alimentos revelam passado do homem do gelo

Publicado em 29 março 2009

Agência FAPESP

Os alimentos ingeridos por um indivíduo podem dizer muito sobre ele, como onde e quando viveu.

A partir da análise do conteúdo encontrado no intestino do “homem do gelo”, descoberto em 1991 na fronteira da Áustria com a Itália, um grupo de cientistas britânicos conseguiu identificar um pouco do estilo de vida do europeu que viveu há cerca de 5,2 mil anos.

Ao identificar seis tipos diferentes de musgo no trato alimentar do homem mumificado, os pesquisadores concluíram que ele viajou bastante, foi ferido – supostamente por uma flechada – e fez seus próprios curativos. Os resultados foram publicados na revista Vegetation History and Archaeobotany, dedicada especialmente a Oetzi, o nome recebido pela múmia a partir da região em que foi descoberto.

A descoberta de fragmentos de musgos no intestino de Oetzi é surpreendente, uma vez que se trata de plantas que não são palatáveis nem nutritivas.

Além disso, há poucos relatos de sua ingestão para tratamento medicinal. James Dickson, da Universidade de Glasgow, e colegas estudaram amostras encontradas em microscópio e verificaram seis diferentes espécies.

Espécies

Quatro das seis espécies são importantes para entender seu estilo de vida e os eventos ocorridos em seus últimos dias: Anomodon viticulosus, Hymenostylium recurvirostrum, Neckera complanata e Sphagnum imbricatum.

Segundo os pesquisadores, os diferentes musgos teriam sido ingeridos involuntariamente, após terem sido usados para embalar alimentos – onde teriam se grudado – e em curativos. “Pequenos pedaços podem ter ficado no sangue que secou em seus dedos e, então, foram ingeridos acidentalmente na vez seguinte em que comeu carne ou pão, como sabemos que ele fez durante seus últimos dias”, destacaram os autores. Uma das espécies de musgo teria sido ingerida ao beber água em um rio.

A espécie usada no curativo, a Sphagnum imbricatum, só é encontrada a mais de 50 quilômetros do local em que Oetzi foi descoberto, o que indica que ele teria percorrido tal distância após ter se ferido e antes de morrer.

Teoria

Pesquisadores que estudam o homem do gelo desenvolveram uma nova teoria para explicar sua morte, afirmando que ele perdeu a vida por causa de uma pancada na cabeça, e não de hemorragia provocada por um ferimento à flecha.

Há quatro meses, pesquisadores suíços publicaram um artigo no periódico Journal of Archaeological Science afirmando que a múmia, conhecida também como Oetzi, havia morrido depois de uma flecha rasgar uma artéria sob a clavícula esquerda, provocando perda de sangue e ataque cardíaco.

Mas radiologistas, médicos legistas e outros pesquisadores, valendo-se de novas informações geradas por tomografia computadorizada, afirmaram acreditar que a perda de sangue apenas fez Oetzi ficar zonzo. Eles dizem que o homem do gelo morreu ao bater a cabeça ao cair ou foi agredido.

Conclusão

As conclusões feitas pelos pesquisadores foram apresentadas no Instituto de Múmias e do Homem do Gelo, criado em julho para centralizar a ciência produzida a partir de Oetzi. A múmia está guardada no Museu Arqueológico do Tirol do Sul. Em nota, o instituto diz que as descobertas reabrem o debate sobre a causa exata da morte, já que a hipótese da pancada na cabeça leva em conta a posição incomum do corpo, supõem os pesquisadores.

Os cientistas afirmaram acreditar que o homem do gelo caiu de costas, mas foi virado pelo agressor que, então, arrancou a haste da flecha – deixando a ponta no corpo de sua vítima. Os pesquisadores dizem ainda ter determinado que Oetzi assumiu sua posição final antes do rigor mortis se instalar.