Notícia

Jornal da USP

Restauração ambiental e econômica

Publicado em 06 fevereiro 2011

Por Caio Albuquerque

De Piracicaba

Parte da comunidade científica ligada ao planejamento florestal trabalha com o conceito de que, para restaurar áreas degradadas, não é necessário adotar somente o plantio usual de mudas de espécies nativas. O biólogo Ingo Isernhagen compartilha dessa concepção. Isernhagen é autor da tese "Uso de semeadura direta de espécies arbóreas nativas para restauração florestal de áreas agrícolas, sudeste do Brasil", defendida no programa de pós-graduação em Recursos Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

O trabalho, que teve orientação do professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, indica que a semeadura direta pode ser uma das técnicas alternativas de restauração florestal. "Entre essas técnicas podemos citar também a indução e condução da regeneração natural, o transplante de plântulas e bancos de sementes e o adensamento e enriquecimento de florestas com algum grau de degradação", diz o biólogo.

O estudo partiu da observação da necessidade de criar métodos alternativos ou complementares - e eficientes do ponto de vista técnico e econômico - para o plantio de mudas de espécies arbóreas nativas para restauração florestal de áreas degradadas. "O trabalho teve como objetivo geral avaliar a eficiência técnica e econômica da semeadura direta dessas espécies para a colonização inicial de áreas agrícolas abandonadas com baixa capacidade de autorregeneração e para o enriquecimento de áreas florestais restauradas com baixa riqueza de espécies", explica o pesquisador.

Densidade

- Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o trabalho foi desenvolvido em duas áreas experimentais localizadas em Áreas de Preservação Permanente (APPs) na Usina São João, em Araras, interior de São Paulo. Entre os anos de 2006 e 2007, pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Esalq, coordenado pelo professor Ricardo Rodrigues, realizaram o programa de adequação ambiental da usina.

"Naquela época foram realizados os primeiros contatos com os administradores, especialmente do Programa Margem Verde, que já executava plantios de árvores na usina, sobre o interesse em utilizar áreas com passivo ambiental para implantação de experimentos de restauração florestal pelo Lerf", relata Isernhagen. Além de ceder as áreas, a equipe do Programa Margem Verde forneceu mão-de-obra e alguns insumos, o que se mostrou imprescindível para a implantação e acompanhamento do trabalho.

Assim, especificamente nesse projeto, foram testadas diferentes densidades de sementes de espécies arbóreas nativas necessárias para a ocupação inicial das áreas degradadas. Uma vez instalados os experimentos, avaliaram-se também o tempo para ocupação dessas áreas e os investimentos financeiros, além de parâmetros de desenvolvimento da comunidade florestal. Para a primeira ocupação da área degradada foram utilizadas espécies de rápido crescimento e que fornecessem boa cobertura de copa (semeadura de preenchimento). Algumas das espécies utilizadas para preenchimento foram timboril, mutambo, lobeira, pau-cigarra, monjoleiro, paineira, sangra-d"água, capixingui e canafístula.

Uma vez ocupadas as áreas, foi feita a semeadura de enriquecimento, com espécies diferentes das primeiras, promovendo a autossustenta-bilidade da floresta. Nessa etapa, foram plantadas espécies como jatobá, cedro, cabreúva, jequitibá, pau-marfim e copaíba, entre outras 30 espécies. Os resultados mostraram que houve excelente cobertura da área degradada em cerca de dois anos e meio, período semelhante ao que normalmente ocorre com o plantio de mudas. As densidades testadas permitiram também a formação de uma comunidade florestal mais densa do que a formada por plantios de mudas em espaçamento de três metros por dois (mais comum). Enquanto nesse método a densidade é de 1.666 indivíduos/hectare, na semeadura direta alcançaram-se densidades estimadas entre 1.215 e 13.000 indivíduos/hectare.

Complementar - "O custo para aquisição de sementes para obter uma muda no campo, a partir de semeadura direta da maioria das espécies utilizadas, pode ser duas a três vezes menor do que o preço de uma muda em viveiro. Portanto, mostramos um método viável tanto técnica como economicamente para a ocupação inicial de áreas agrícolas abandonadas com baixa capacidade de regeneração", revela o pesquisador. Contudo, Isernhagen pondera que a efetividade pode variar consideravelmente em função das espécies utilizadas e das condições ambientais, especialmente do solo, ressaltando a necessidade de um diagnóstico adequado do local a ser restaurado.

"O método pode e deve ser adotado de forma complementar ou associado ao plantio de mudas, e não necessariamente substituí-lo", diz. Entretanto, não foi possível avaliar, durante o tempo de execução da tese, se a semeadura direta de enriquecimento é viável técnica e economicamente. "Mas os resultados preliminares também indicam que o método é promissor, podendo ser adotado inclusive para outras formas biológicas, como arbustos e lianas", aponta o pesquisador.

Isernhagen salienta ainda que é importante desenvolver o manejo de sementes de espécies nativas, desde a colheita no momento apropriado até o armazenamento. "Aqualidade do lote de sementes pode ter implicações diretas, junto a outros fatores de campo, no sucesso do método", ressalta. De acordo com o pesquisador, também é necessário prestar atenção "r" em problemas relacionados à infestação por plantas daninhas (especialmente nos primeiros meses após a semeadura), ao revolvimento do solo por animais, à predação por formigas e à profundidade em que é colocada a semente, entre outros fatores.