Notícia

Diário do Povo

RESPIRANDO FUNDO

Publicado em 14 maio 2000

Por DENIZE ASSIS
Um estudo desenvolvido: por pesquisadores da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas está jogando por terra a idéia de que "rodar a baiana" funcione como uma válvula para aliviar o estresse. Pelo contrário - em algumas ocasiões, seguir o ditado de não levar desaforo para casa nem sempre é aconselhável. A pesquisa, coordenada pela psicóloga Marilda Novaes Lipp e pelo cardiologista Armando de Miguel, é inédita no Brasil e foi financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). "Para algumas pessoas, como as que têm pressão alta e para aquelas que têm dificuldade de se expressar, ter de externar suas emoções em momentos de nervosismo pode ser prejudicial", afirma Marilda. O estudo, que avaliou 80 pacientes adultos dos sexos masculino e feminino, indica também que as mulheres são mais estressadas que os homens - o problema atinge 80% delas, contra 53% deles. Os resultados do trabalho não deixaram muitas dúvidas. Os voluntários que sofrem de hipertensão e que externaram sua raiva numa situação de estresse (uma discussão mais intensa, por exemplo), apresentaram um aumento ainda maior da pressão arterial. "Essa variação tem efeitos prejudiciais sobre o coração", explica Marilda. Mas então, o que fazer quando essas situações - que se repetem praticamente todos os dias na vida das pessoas (por exemplo, levar uma "fechada" no trânsito) - acontecem? Para a pesquisadora, nada de gritar, esmurrar o volante ou arrancar os cabelos. "O mais indicado é controlar a raiva, respirar fundo e evitar qualquer conflito", ensina. Isso não quer dizer, porém, que as pessoas devam colocar de lado a disposição de brigar pelos seus direitos. Só que isso deve ser feito de maneira positiva e sempre mantendo as emoções sob controle. "Em ocasiões assim, o indivíduo que está sob estresse deve refletir se o fato que a está incomodando ou irritando irá, de fato, ter alguma relevância para sua vida", diz Marilda. Embora o estresse em si não seja uma doença, ele pode acabar facilitando o surgimento de problemas de saúde mais graves, já que ele pode diminuir a resistência do organismo. Os seus sintomas mais comuns são queda de cabelo, dificuldade para dormir, azia, desinteresse sexual, dificuldade de memorizar até as coisas mais simples, crises de ansiedade e até infecções repetitivas. Segundo informações do Laboratório de Estresse da Puc-Campinas, é possível prevenir e controlar o estresse. Basta fazer algumas mudanças simples no dia-a-dia, como melhorar a alimentação, tornando-a mais rica em verduras, legumes e frutas, e trocar o café e refrigerante por sucos e chás. Saber relaxar e fazer exercícios físicos também alivia o estresse. Mas nada é tão eficiente quanto afastar a causa do problema - o que, no entanto, nem sempre é possível. Nesses casos, a saída é tentar se treinar para aprender a lidar com a situação da forma mais amena possível. Se não conseguir fazer isso sozinha, a pessoa deve recorrer à ajuda médica. O Laboratório continua desenvolvendo a pesquisa, e está recrutando voluntários interessados em participar do trabalho. Â exigência básica é que se tenha entre 35 e 50 anos. Quem quiser entrar em contato pode usar os telefones (19) 756 7283 ou (19) 756 7284. Os voluntários serão avaliados por psicólogos e cardiologistas e receberão informações sobre como lidar com o estresse - tudo gratuitamente.