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Jornal do Estado (PR) online

Resistir às tentações cansa e tem limite

Publicado em 26 março 2007

Por Agência FAPESP

Inibir impulsos pode causar desistências mais à frente
Agência Fapesp

Agência FAPESP — O esforço para tentar controlar emoções e inibir impulsos não pode ser mantido por muito tempo. Evidências científicas mostram que o autocontrole sofre esgotamento, assim como um músculo que levantasse muito peso por longo tempo. Assim, ao "gastar" o autocontrole tentando não perder a paciência com um chefe impertinente, por exemplo, um indivíduo teria menos energia para resistir à tentação de comer um doce que arruinaria sua dieta.
Mas, enquanto identificamos os limites de nosso esforço muscular ao sentir a fadiga no corpo, não temos consciência de que chegamos ao limite da resistência à tentação num momento de fraqueza emocional. Até agora.
Pesquisadores da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, identificaram um indicador biológico de vulnerabilidade às tentações, segundo estudo publicado na edição de março da revista Psychological Science. Uma medida de regulação do coração chamada de "taxa de variabilidade de freqüência cardíaca" (TVFC) parece, segundo os cientistas, estar ligada ao autocontrole.
Os autores realizaram um estudo em duas partes para testar a hipótese. Na primeira fase, os participantes foram instruídos a jejuar por três horas a fim de tomar parte no que acreditavam ser uma experiência de "fisiologia de preferência de comida".
A TVFC dos participantes foi monitorada enquanto eram oferecidos a eles bolos, chocolates e cenouras. A tentação, nesse caso, era indicada por render-se à guloseima mais saborosa, mas menos saudável.
A TVFC foi consideravelmente mais alta quando os participantes tentavam resistir à tentação (comendo as cenouras em vez de bolo ou chocolate), sugerindo que a TVFC espelhava a atuação do autocontrole.
Na segunda parte do experimento, depois de resistir ou render-se à tentação, os participantes foram instruídos a completar difíceis anagramas, alguns dos quais eram de resolução impossível. Os autores mediram por quanto tempo os participantes persistiram na resolução dos anagramas e, como previsto, os que exerceram forte autocontrole, resistindo aos doces, foram os que abandonaram antes a tarefa.
As pessoas que apresentaram naturalmente maiores níveis de TVFC, independentemente de caírem em tentação, foram as que persistiram mais tempo no teste do anagrama.
A TVFC não foi escolhida como indicador à toa. Suzanne Segerstrom, a pesquisadora que coordenou o estudo, notou que as estruturas cerebrais envolvidas no autocontrole se sobrepunham consideravelmente às estruturas que controlam a TVFC, o que sugeria o indicador como um reflexo apurado do autocontrole.