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BeefPoint

Resistência do carrapato bovino a carrapaticidas no Estado de São Paulo

Publicado em 02 setembro 2013

O parasitismo dos bovinos pelo carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus é uma das principais causas de perdas econômicas na pecuária, sendo responsável por prejuízos de 1 bilhão de dólares ao ano na América Latina e 7 bilhões de dólares no mundo, estimado pela FAO em 2004. Os prejuízos são determinados pela diminuição do ganho de peso, da produção de leite, danos no couro provocados pelas picadas, além de transmitirem o protozoário Babesia sp, agente causador do complexo Tristeza Parasitária Bovina, que pode levar à morte.

Na região sudeste o carrapato está presente ao longo de todo ano com maior prevalência nos meses mais quentes e úmidos, de setembro a abril.

O uso de carrapaticidas é o principal meio de combate da praga há pelo menos 60 anos e, devido à insistente aplicação de drogas, foi inevitável o desenvolvimento de populações de carrapatos resistentes. Atualmente, das sete classes de carrapaticidas registrados no Brasil, cinco estão comprometidas parcial ou totalmente pela resistência, dependendo da fazenda ou região. Como agravante, a existência de populações resistentes, na maioria dos casos, leva a uma maior frequência de aplicações dos produtos, o que pode intensificar a resistência e provocar a presença de resíduos em níveis acima do tolerado em alimentos como a carne e o leite.

O Laboratório de Parasitologia Animal do Instituto Biológico (IB-APTA), órgão ligado a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, sob a coordenação da pesquisadora Dra. Márcia Cristina Mendes, em parceria com o Laboratório de Parasitologia Experimental e Aplicada do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, seis Pólos Regionais da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo e com o apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) realizou um levantamento inédito da resistência do carrapato do boi frente aos carrapaticidas usados nas regiões de São Paulo. O trabalho foi realizado nos anos de 2007 e 2008.

Foram acompanhadas pequenas fazendas de gado de leite no interior do estado. Inicialmente foi feito um questionário para verificar os métodos que o produtor usa para controlar o carrapato, como a escolha do carrapaticida, produtos usados, modo e freqüência da aplicação. Também foram coletadas amostras de carrapatos para verificar a resistência em ensaios de laboratório.

De acordo com o questionário aplicado, de forma geral, já foram utilizados todos os grupos químicos disponíveis para o controle do carrapato [organofosforados, formamidinas (amitraz), piretróides (cipermetrina e deltametrina), lactonas macrocíclicas (avermectinas) e os fenilpirazóis (fipronil)]. A maioria dos produtores não possui critérios para a escolha do carrapaticida, seguem a indicação de vendedores ou vizinhos e fazem o tratamento somente quando visualizam os carrapatos.

Para verificar a resistência foram realizados testes usando as larvas dos carrapatos, a fim de se obter o nível de resistência aos produtos mais utilizados para o seu controle.

Os resultados mostram que os casos positivos para carrapatos resistentes aos piretróides foi alta em todas as regiões analisadas, passando de 83,33% em 2007 para 100% em 2008 no caso da deltametrina e de 83,33% em 2007 para 84,21% em 2008 considerando a resistência a cipermetrina. 

Para o organofosforado clorpirifós, os casos positivos foram de 50% em 2007 e 95% em 2008. Levando-se em consideração que a maioria das propriedades utilizou este produto durante o período do estudo, o aumento da prevalência da resistência já era esperado.

Para a ivermectina, a resistência ocorreu em 30% das fazendas analisadas no ano de 2007 e 56,25% em 2008. Possivelmente, o aumento da resistência a essa droga está ligado ao seu uso como alternativa aos demais carrapaticidas com resistência já desenvolvida. As lactonas macrocíclicas se caracterizam por apresentar um longo período de ação residual, chegando a 120 dias em alguns casos, fator que favorece a seleção de cepas resistentes.

Diante do estudo, os pesquisadores sugerem a realização anual do biocarrapaticidograma para verificar qual o produto mais indicado para o tratamento dos bovinos. Além disso, indicam que o tratamento seja feito somente nos animais mais sensíveis à infestação por carrapatos, quando os parasitos ainda se encontram na sua forma jovem (larvas e ninfas), lembrando de utilizar a dosagem correta do produto, aplicando-o por todo o animal, no caso da pulverização.

O Laboratório de Parasitologia Animal do Instituto Biológico presta o serviço de realização de biocarrapaticidograma.