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Representante brasileiro na Sociedade Internacional para Biologia Computacional

Publicado em 18 setembro 2008

Por Thiago Romero

Agência Fapesp

Guilherme Corrêa de Oliveira, da Fiocruz, é indicado para o conselho de diretores da Sociedade e fala sobre seus planos e desafios junto à entidade

Guilherme Corrêa de Oliveira, biologista molecular do Laboratório de Parasitologia Celular e Molecular do Centro de Pesquisas René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Minas Gerais, foi indicado para compor o conselho de diretores da Sociedade Internacional para Biologia Computacional (ISCB, na sigla em inglês), cargo que ocupará durante os próximos três anos.

Com mais de 2 mil sócios no mundo, a ISCB congrega pesquisadores interessados na análise de dados biológicos por meio da computação, sendo que a entidade está envolvida com a publicação de duas das principais revistas da área: Bioinformatics e PLoS Computational Biology.

A ISCB realiza a conferência anual Sistemas Inteligentes para Biologia Molecular, que em 2006 foi realizada pela primeira vez no Brasil, em Fortaleza, além de apoiar vários outros eventos relacionados ao tema em diversos países.

A eleição de um novo representante brasileiro para o cargo é vista como uma oportunidade de aumentar a interação com pesquisadores de outros países e a integração entre a ISCB e a Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional, única na área em toda a América Latina.

Oliveira é o terceiro representante brasileiro a integrar o conselho de diretores da ISCB. O primeiro foi Goran Neshich, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Informática Agropecuária), em Campinas, que esteve no conselho até 2006, e o segundo Sandro José de Souza, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em São Paulo, cujo mandato termina em 2009.

“A presença novamente de um membro do Brasil na ISCB permitirá que as atividades da sociedade, que têm um forte caráter internacional, continuem incluindo o Brasil”, disse Oliveira, que tem graduação em bioquímica e imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1990), doutorado em microbiologia pela Universidade Texas A&M (1995) e pós-doutorado pelo Centro de Pesquisas René Rachou (1997).

Atualmente é também colaborador no doutorado em bioinformática da Universidade Federal de Minas Gerais e primeiro secretário da Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional (AB3C), além de ser revisor de diversos periódicos científicos, entre os quais o Nature Biotechnology, BMC Genomics, Molecular and Biochemical Parasitology e Trends in Parasitology.

- Quais são seus planos e desafios junto ao conselho de diretores da ISCB?

Espero poder trazer para o Brasil novas possibilidades para publicação de estudos científicos, de realização de novos encontros no país e de treinamento de pesquisadores. Será mais fácil, por meio da ISCB, trocar experiências entre os grandes centros pelo mundo e pesquisadores do nosso país. A presença de um representante brasileiro no conselho possibilitará, como já ocorreu no passado, quando a reunião anual da ISCB foi realizada no Brasil, que permaneçamos nos planos da sociedade para a promoção de atividades no país. A ISCB tem interesse em participar de atividades científicas por aqui e, com o apoio da Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional, pode incrementar a realização de eventos científicos e de treinamento para estudantes brasileiros.

- Qual é o papel da biologia computacional para o desenvolvimento de outras áreas?

A biologia computacional é central para áreas como genômica e proteômica, sendo absolutamente indispensável para a compreensão dos sistemas biológicos. Ela é utilizada, entre outras atividades, para organizar os dados e fazer análises para que o biólogo tire significado da informação. Com a geração de grande volume de informação a partir da genômica funcional tornou-se necessário integrar todos os tipos de dados. Com a integração de informação, a biologia sistêmica utiliza todas essas informações na tentativa de entender o funcionamento dos sistemas de uma forma mais completa. Sem o suporte da bioinformática e da biologia computacional, e de outros profissionais envolvidos, como os das ciências da computação, estatística e física, atualmente os estudos de sistemas biológicos não seriam possíveis.

- Qual é o estágio atual das pesquisas em biologia computacional no Brasil?

O Brasil avançou bastante nos últimos anos na análise de genomas e de proteomas. Hoje vários grupos trabalham na geração e análise de ensaios em genômica funcional. Ainda não se atua na mesma escala dos principais centros no mundo, mas os trabalhos brasileiros são de qualidade. Vários grupos nacionais começam a se mobilizar para fazer trabalhos mais complexos na integração de dados e modelagem de sistemas biológicos. A biologia computacional é uma área que deverá crescer bastante nos próximos anos. Além disso, vários grupos brasileiros adquiriram equipamentos de seqüenciamento de DNA de nova geração e, para lidar com os dados gerados por essas máquinas, será preciso novas ferramentas e adaptações em ferramentas já existentes, devido ao enorme volume de dados gerados.

- Com o crescimento do número de pesquisas na área, que campos de pesquisa deverão avançar mais nos próximos anos?

Há a necessidade de se desenvolver novas ferramentas para o trabalho com a nova geração de seqüenciadores, permitindo, por exemplo, que os vários tipos de dados gerados sejam integrados. Existem poucos bancos de dados altamente integrados no Brasil. Esses bancos possibilitam que grupos não especializados em bioinformática possam analisar os dados de modo mais complexo. O país também crescerá na área de análise e de modelagem de sistemas. Os cursos de pós-graduação na área já formam as primeiras turmas, mas ainda falta maior massa crítica na área.

- Como assim?

Muitas instituições pelo país têm a bioinformática como uma importante área para seu crescimento. Porém, o número de cientistas com conhecimento na área é ainda muito pequeno para acomodar a demanda. Enquanto os cursos de pós-graduação treinam os estudantes, é essencial que exista uma maior cooperação entre as instituições. Os pesquisadores da área também acreditam que os diferentes comitês avaliadores das agências de fomento têm que aprimorar a maneira como analisam os pedidos de auxílio da área, pois esses pedidos são, em sua grande maioria, fortemente interdisciplinares. O apoio financeiro às pesquisas no país ainda precisa crescer significativamente. Temos ainda a questão da fixação do profissional da área de computação nos grupos de pesquisa. Esse profissional é atraído por bons salários na iniciativa privada e temos dificuldade em manter pessoal com treinamento em banco de dados e gerenciamento de sistemas, por exemplo. Finalmente, o acesso ao poder computacional instalado no país ainda é restrito para muitos pesquisadores.

- De que forma a troca de experiências incentivada pela ISCB pode contribuir para que a entidade se volte às necessidades do Brasil?

O Brasil tem ótimos pesquisadores em todos os níveis de atuação da bioinformática, desde estatística e programação até bancos de dados e análise genômica. A bioinformática surgiu por aqui, a exemplo do que ocorreu em outros locais, para suprir a necessidade do biólogo experimentalista. O volume de dados gerados pelos projetos genomas no Brasil demandou a criação de soluções computacionais para o problema de armazenamento, análise e interpretação dos dados. Hoje a bioinformática atua de forma mais elaborada, com o desenvolvimento de novas metodologias e métodos mais robustos, servindo não somente como uma disciplina de apoio. A demanda é, portanto, complexa. Novas tecnologias também empurram á área para a busca de soluções, como métodos inovadores de análise de seqüenciamento de nova geração. Insisto que a massa crítica no país é ainda pequena e o aprofundamento das relações de pesquisadores do Brasil com outros membros da ISCB pode ser muito benéfico para o resultado das pesquisas.

- Qual tem sido o papel e as principais contribuições da Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional para o incremento das pesquisas e obtenção de resultados novos na área?

A AB3C tem, como principal atividade, congregar os membros da comunidade científica nacional interessada em biologia computacional e bioinformática. A troca de experiências tem ocorrido com muita intensidade principalmente durante as reuniões anuais da associação. Pesquisadores importantes na área têm contribuído para alavancar a pesquisa colaborativa. Além disso, os principais trabalhos vinculados à associação são publicados em números especiais das principais revistas científicas no país, o que possibilita a divulgação de estudos dos pesquisadores brasileiros e sua maior inserção internacional. A AB3C tem ainda importante atividade de treinamento, com vários cursos já realizados, além de ter promovido o debate científico sobre os cursos da área para seu constante aprimoramento.

Mais informações sobre a Sociedade Internacional para Biologia Computacional: http://www.iscb.org

(Agência Fapesp, 18/9