Notícia

Gazeta Mercantil

Represas de SP abrigam grupo de algas tóxicas

Publicado em 08 agosto 2000

Por Ana Maria Flori - de São Paulo
Pesquisadores do Instituto de Botânica da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo detectaram, nos dois últimos anos, 20 espécies potencialmente tóxicas de um grupo de algas, as cianofíceas, em lagos e represas do país. Só no Estado de São Paulo, foram encontradas 13 espécies. A bióloga Maria Teresa de Paiva Azevedo, pesquisadora do instituto, explica que a biodiversidade, tão comentada em relação a animais e plantas de grande porte, também vale para as algas. "Num ambiente em equilíbrio, encontramos diversas espécies, sem que nenhuma prolifere desenfreadamente. Os problemas começam quando nutrientes como nitrogênio e fósforo - presentes no esgoto doméstico, industrial ou que chegam aos reservatórios graças à ação das chuvas sobre lavouras adubadas - provocam transformações, que podem levar à multiplicação excessiva de algumas espécies", diz. Nunca como nos últimos anos as cianofíceas causaram tanta preocupação a pesquisadores e empresas de saneamento do mundo inteiro, embora essas algas - também conhecidas como cianobactérias ou algas azuis - vivam no planeta há cerca de 2,5 bilhões de anos, sem causar transtornos. Segundo Maria Teresa, nem sempre a multiplicação desenfreada de algas, que reconhecemos como grandes manchas verdes sobre a superfície da água, lança toxinas nos mananciais. "Mesmo quando falamos de espécies potencialmente tóxicas, é preciso fazer testes, no momento de floração, porque a mesma espécie pode produzir toxinas este mês, por exemplo, e no mês que vem não, mesmo se multiplicando em grande quantidade", explica. A produção de toxina varia de espécie para espécie, com a modificação dos níveis de acidez ou alcalinidade da água, temperatura e nutrientes disponíveis, equação complexa da qual ainda não se conhece o mecanismo exato. Terminar com o lançamento de esgotos em mananciais é necessidade imperiosa para diminuir riscos de multiplicação excessiva de algas e fornecer água de melhor qualidade. Apesar de longe da situação ideal, hoje 83% do esgoto sob responsabilidade da Sabesp é coletado e, desse total, 60% recebe tratamento antes de chegar aos mananciais. Nos locais onde o tratamento da água é moderno e eficiente, a proliferação de algas não chega a ameaçar a saúde pública. Possíveis toxinas são eliminadas antes que seja distribuída à população, mas as medidas preventivas encarecem muito o custo de produção da água. PARCERIA BEM-SUCEDIDA A pesquisa do Instituto de Botânica sobre as algas azuis só foi possível graças à colaboração entre os cientistas do instituto e técnicos da Cetesb e da Sabesp. "Técnicos das empresas nos fornecem amostras de água e colaboramos com eles sempre que há dúvida na identificação de alguma espécie de alga, além de trocarmos informações", diz a bióloga Maria Teresa de Paiva Azevedo. Até o final de 2001, os pesquisadores do Instituto de Botânica pretendem publicar um manual ilustrado, com fotos e desenhos, dentro dos sistemas de identificação mais modernos que existem, mostrando diversos estágios do desenvolvimento das algas. "Ás vezes uma fase jovem de terminada alga se parece com a fase adulta de outra, e isso dificulta a identificação. Como documentamos etapas de crescimento de uma mesma espécie, através de um banco de culturas, acreditamos que isso vai auxiliar as companhias de saneamento e tecnologia, que precisam responder a demandas com muito mais urgência do que pesquisadores ligados à universidade", explica Maria Teresa. O projeto Cyanophyceae/Cyanobacteria Planctônicas do Estado de São Paulo, coordenado pelo Instituto de Botânica entre 97 e 99, recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no valor de R$ 32,9 mil, que se somaram a outros US$ 47,9 mil. (A.M.F.) LABORATÓRIO CONTROLA QUALIDADE DA ÁGUA Em um dos mais modernos laboratórios da Sabesp, o químico Caetano Mautone, analista de projetos do controle de qualidade da água e responsável pelo Laboratório de Orgânica, fala sobre uma nova filosofia, que na última-década está em implantação na área de produção de água. Segundo ele, antigamente, depois que problemas ocorriam, procurava-se resolvê-los da melhor forma possível. "Hoje, nos preparamos para solucionar futuros problemas. A filosofia do controle de qualidade é prever o que o pode acontecer na água, para que a Sabesp tenha condições de controlar", diz. Explica que não se desenvolve metodologia de trabalho num laboratório de um dia para o outro. "Mesmo que não haja problema imediato, é preciso se preparar, saber como analisar a situação, que equipamento será necessário adquirir e onde conseguir treinamento para desenvolver metodologias", afirma. Um exemplo é a própria criação do laboratório, que tem intercâmbio com a Alemanha, onde os técnicos receberam treinamento e aprenderam a trabalhar com tecnologia mais moderna. Lembra que hoje, pela lei, a Sabesp é obrigada a analisar apenas 22 compostos orgânicos que possam ocorrer na água. No entanto, o laboratório está capacitado a checar a presença de 110, incluindo pesticidas e substâncias voláteis. Apesar dessa espécie de auditoria da produção da água, os responsáveis pelo tratamento não esperam o final do processo para averiguar possíveis contaminações. O químico Adilson Nunes Fernandes, responsável pelo tratamento de água da Estação ABV - Alto da Boa Vista, que, inclui o Sistema Guarapiranga, explica que um projeto de pesquisa desenvolvido nesse sistema foi desenvolvido para verificar qual o tratamento mais adequado para a, represa, com capacidade de armazenamento de 180 milhões de metros cúbicos de água. "Como resultado, no curto prazo, já fazemos aplicação de carvão ativado em pó, na área de captação da água, quando há suspeita de contaminação com determinadas toxinas de algas. É o suficiente; para que, nos 45 minutos que a água; leva para percorrer 5 quilômetros; até a adutora, esses compostos sejam removidos." No médio prazo, Fernandes conta que parte das obras em execução no Complexo Guarapiranga destinam-se à construção de filtros de carvão ativado granular, um método ainda mais eficiente "Esse é apenas umj exemplo. Trabalhamos considerando o meio ambiente como um todo e, na Sabesp, além da água, os produtos químicos utilizados no tratamento também passam por monitoramento." Esse tipo de tratamento tem um custo. Quanto mais etapas e produtos utilizados, mais caro é o preço da água. Atualmente, o valor médio do metro cúbico de água entregue por atacado às permissionárias, que vão revender a água aos municípios, sai a R$ 0,58, de acordo com a Sabesp. A empresa informa, também, que em relação ao esgoto, até o final de 2004, quando deverá terminar a segunda fase do Projeto Tietê, deverá coletar 90% do esgoto da população metropolitana, um acréscimo de 7% em relação aos números atuais. A Sabesp participa do Programa Guarapiranga, que envolve diversos, órgãos estaduais. Segundo o engenheiro José Lavrador Filho, coordenador setorial do programa, uma das funções da empresa é diminuir a carga de esgoto que chega à represa. "Até o final do ano, deveremos estar retirando cerca de 29 milhões de metros cúbicos anuais de esgoto, 8 milhões a mais do que em dezembro de 99 e muito superior aos 15 milhões de metros cúbicos de 1994, quando o programa teve início." Tratamento elimina toxinas As algas azuis podem produzir toxinas prejudiciais à saúde humana ou animal, mas não existem referências na literatura científica sobre mortes em decorrência de toxinas de algas. Toda a água distribuída pela Sabesp passa por tratamento. O trabalho preventivo consegue eliminar, na quase totalidade, as toxinas antes que a água chegue à população. Por isso, não são mais tão comuns, como nos primeiros anos da década de 90, reclamações sobre cheiro ou gostos estranhos - ou até mesmo de algum mal-estar em que a água seja a principal suspeita. Segundo a bióloga Maria do Carmo Carvalho, do setor de Comunidades Aquáticas da Cetesb, teoricamente existem dois tipos de contaminação possíveis para quem ingerir água com toxinas liberadas por algas. "A primeira é o efeito agudo. Pode ser gastroenterite, dermatite ou até um problema no fígado, dependendo do que foi consumido. Mas, mesmo bebendo água contaminada em pequenas doses, a pessoa estará recebendo toxinas que com o tempo poderão provocar efeito crônico, como câncer de fígado e rim", diz. Explica que nem sempre uma toxina que provoca mau cheiro ou gosto é tóxica e que, às vezes, água aparentemente límpida pode ter grande quantidade de algas potencialmente tóxicas. De todo modo, mesmo bebendo água de lagos ou outros locais em que não foi tratada, o homem, em geral, está mais protegido que os animais, já que costuma recusar um copo d'água com nata verde, característica de floração de algas. Sobre a morte de pacientes renais, em diálise com água contaminada, há anos, em Caruaru, Maria do Carmo diz que a morte não se deu por ingestão de água. "A água usada saiu de caminhões-pipa. Hospitais devem fazer novo tratamento da água, mesmo que recebida da rede, antes de usá-la em procedimentos como a diálise. Às vezes, a água da rede não está contaminada, mas recebe toxinas de algas que se desenvolvem em equipamentos sem manutenção adequada."