Notícia

Monitor Mercantil

Repensando o ensino de literatura

Publicado em 18 julho 2000

A literatura é um dos produtos da língua, mas não o único nem o mais importante. Como todos sabem, o Pino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado. No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de "Suspiros Poéticos e Saudades", de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos, como, por exemplo, os de José de Alencar, que não servem, atualmente, como modelo de estilo literário nem de uso lingüístico do português. Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro. Entretanto o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas). Assim, se o conhecimento das outras artes não é pré-requisito para a maioria das carreiras universitárias, por que o de literatura o é? A meu ver, o conhecimento literário só deveria ser exigido dos candidatos ao curso de letras (mesmo assim, se um estudante universitário de inglês só estuda a literatura dessa língua na faculdade, não seria o caso de um estudante de português aprofundar-se na história das literaturas de língua portuguesa também na faculdade, em vez de fazê-lo no colégio?). Se o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então, por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não-ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Cari Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras nacionais? No meu entender, o conhecimento de literatura não é mais importante do que o de outras formas de manifestação artística nem deveria ser privilegiado em detrimento das demais artes. Além disso, em termos culturais, a literatura universal, com Dante, Goethe, Rousseau, Dickens e Joyce, dentre outros, é tão importante quanto à literatura de língua portuguesa. Por outro lado, a literatura é um dos produtos da língua, mas não o único nem o mais importante (parece-me que a principal função da linguagem é permitir a comunicação pragmática entre os seres humanos, e não produzir literatura). Assim, por que a leitura dos estudantes deve se dar apenas sobre a literatura de ficção e não sobre jornais, revistas e livros de não-ficção? E por que os exames vestibulares não exigem dos candidatos à universidade cada vez mais o domínio de uma cultura geral, indispensável a qualquer profissional de nível superior, em lugar de cobrar deles apenas o conhecimento histórico da literatura portuguesa e brasileira? Aldo Bizzocchi Professor do curso de mestrado em comunicação da Fundação Cásper Libero (SP). Doutor em lingüística e semiótica pela USP, é autor de "Léxico e Ideologia na Europa Ocidental" (Ed. Annablume/FAPESP, 1998). Artigo fornecido pela Agência Folha.