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Gazeta Mercantil

Reordenada, Dedini espera dobrar receitas

Publicado em 13 maio 2002

Por Agnaldo Brito - de Piracicaba
O grupo Dedini de Piracicaba — uns dos principais conglomerados brasileiros no ambiente da chamada indústria de base —, respira novos ares em 2002. Um declínio na segunda metade dos anos 90 havia forçado a empresa a uma correção de roca. Retomado o prumo, o complexo de 11 unidades industrias espalhadas pelos estados de São Paulo. Alagoas e Pernambuco deixou de ser o guia da organização. O grupo foi dividido em cinco focos de negócios, com independência para ações comerciais e de elaboração de projetos A confiança na nova arquitetura pode ser resumida nas expectativas de faturamento. A previsão é que a receita total da Dedini dobre este ano em relação ao ano passado. De um faturamento de R$ 200 milhões, o grupo anunciou que espera conseguir em 2002 uma receita superior a R$ 400 milhões e uma rentabilidade de 10% para investimentos. Tarcísio Angelo Marcarim, diretor corporativo da Dedini S.A. Indústria de Base e presidente da DDP Participações S.A — a holding do grupo - assegura que a perspectiva de duplicar o faturamento não é mágica ou conversa fiada. A empresa está apenas recuperando um patamar de receita que havia realizado até 1996, quando as usinas de açúcar e álcool passaram a reduzir os investimentos em seus parques industriais. Até 2001, as unidades industriais operavam com ociosidade de 50%. REENGENHARIA O processo de encolhimento apontou também uma nova maneira para organizar a arquitetura do grupo. Os cinco focos de negócios não são novidade, já existiam, mas não com a atual configuração. Cada uma possui um superintendente e tem a missão, definida pelo controle central, de assegurar um faturamento mínimo de R$ 40 milhões anuais. "Abaixo deste patamar, o foco não tem razão de existir como unidade independente e tem que ser incorporado a uma outra". explica Macanm. A exceção é a rubrica serviços, que este ano faturará R$ 20 milhões. No plano de negócios para 2002, três segmentos internos terão importância capital para a realização das metas. O foco açúcar e álcool, histórico dentro da organização, responderá por R$ 120 milhões. A área de energia co-gerada, segmento que se expande com o avanço da regulamentação da geração elíptica a partir da biomassa da cana de açúcar, atrairá negócios de R$ 78 milhões. No ano passado, as vendas de equipamentos para as usinas, principalmente caldeiras de alta pressão que melhoram o rendimento da co-geração. chegaram a R$ 40 milhões. A área de produção de equipamentos pesados se encarregará de atrair R$ 45 milhões este ano. Mas o maior negócio do grupo em 2002 será o de alimentos A empresa é a responsável pela montagem de duas unidades para produção de cerveja — em Pernambuco e Gotas Ambas unidades da Schincanol, cervejaria de ltu. A nova estrutura tem a seguinte concepção: nenhuma das 11 unidades industriais comandam mais os rumos do grupo, apenas serve ás demandas das cinco áreas Para acenar esta configuração, o grupo prevê investimentos de R$ 24.5 milhões nos próximos três anos. Estão excluídos deste valor os recursos gastos na manutenção do parque industrial, algo próximo a R$ 30 milhões anuais. O principal investimento do pacote é a montagem de uma nova fundição. Nova em dois sentidos, mais produtiva e própria. NOVA FUNDIÇÃO Em 1998, o grupo vendeu a fundição que tinha em Piracicaba para a Belgo-Mineira. A ação tinha o propósito de saldar um passivo com os bancos Pelo acordo da época, o grupo poderia utilizar a unidade durante cinco anos, prazo que expira neste ano. A unidade de R$ 14 milhões, cuja inauguração está prevista para o fim deste ano, terá capacidade produtiva de 14 mil toneladas por ano, ante as 15 mil toneladas anuais da anterior. A precisão e que a produtividade da nova fundição também seja maior — de 50 horas-homem por quilo para 35 a 40 horas-homem por quilo produzido. A configuração em áreas de negócios, com suas divisões de vendas e de engenharia, e estas relacionadas às unidades industriais, levaram o grupo a implantar o sistema de gestão empresarial ERP (Enterprise Resourcc Planning). O projeto é tocado pela Oracle e custará, entre treinamento, implantação de software e compra de equipamentos, R$ 8 milhões. Dentro do pacote de investimento, a empresa quer melhorar ainda o parque fabril encarregado de produzir equipamentos para dotar as usinas de açúcar e álcool de tecnologia para a co-geracão a partir do bagaço. EMPRESA PRIORIZA INVESTIMENTO EM TECNOLOGIA Tecnologia é a palavra-chave na Dedini. A empresa vai lançar novos equipamentos para os mercados em que atua. Pane deles, com tecnologia licenciada. A nova geração de maquinários para o setor sucro-alcooleiro tem a meta de elevar a produtividade na produção de açúcar e álcool no Brasil. Um dos equipamentos foi apresentado oficialmente na semana passada na usina Alta Mogiana de em São Joaquim da Barra. Trata-se da maior moenda já construída, com capacidade de esmagamento de até 750 toneladas de cana por hora. equivalentes à carga de 50 caminhões trucados de 15 toneladas cada. "A produção nacional, que já é a mais competitiva do mundo, poderá ter um ganho ainda maior", diz. A tonelada métrica de açúcar no Brasil chega a US$ 350. Na Europa, o custo é de US$ 600. Junto com a moenda gigante, o grupo Dedini trabalha em equipamentos que integram o processo de esmagamento e produção dos derivados da cana. entre os quais itens como o evaporador (que concentra o caldo da cana), tomador de amostra (que identifica o teor de sacarose) e o acionamento elétrico/hidráulico. Este equipamento reduz a demanda de vapor para o acionamento da moenda, o que permite, numa unidade onde haja geração de energia associada, que a produção excedente seja ampliada. SANEAMENTO BÁSICO Todos os itens têm agregado tecnologia de outros países — como Alemanha. Suécia e Japão — voltada a áreas em que a Dedini pretende se expandir, como o crescente mercado de saneamento básico. A empresa, que trabalhará na construção de unidades para tratamento de efluentes industriais e urbanos, acaba de ser contratada para montar uma estação de tratamento de esgoto (ETE) em Águas de São Paulo. A ETE processará o esgoto de 20 mil habitantes e tem tecnologia Paques, holandesa. Para o grupo, a importação de tecnologia e a manufatura no Brasil são um bom negócio que ajudará no plano de médio prazo de exportar equipamentos e projetos. Dos R$ 400 milhões em receita previstos para 2002, só R$ 14 milhões serão gerados por exportações — 3.5% do faturamento. "É pouco, mas o desenvolvimento do mercado externo começou este ano; em dois ou três anos. podemos chegar a R$ 40 milhões", diz Mascanm. O enfoque permanece nos mercados de açúcar e álcool do México. Sul dos Estados Unidos (principalmente Texas) e América Latina. Os ares de otimismo no grupo Dedini são evidentes. A nova abordagem do mercado já dá alguma previsibilidade. Aliás este é o ponto central da mudança "Queremos mais estabilidade", diz Mascahm. Ele acredita que a diversificação pode assegurar trajetórias sem grandes sobressaltos. Para o ano que vem. por exemplo, o grupo ia tem vendas fechadas de R$ 340 milhões, excluída a área de alimentos. que recebeu neste ano a encomenda de duas fábricas de cerveja. PASSIVO ADMINISTRADO Com a equalização do passivo dos bancos e o enquadramento de uma divida de R$ 150 milhões em impostos no Programa de Recuperação Fiscal (Refis), o grupo já tem assegurada a idéia de financiar a expansão a partir o lançamento de ações no mercado. De acordo com o presidente, isso poderá acontecer no próximo ano. A se confirmarem as previsões otimistas, pode-se ter a certeza que a empresa atingiu outro patamar gerencial.