Notícia

Jornal do Brasil

RENATO ARCHER: ESTADISTA DA CIÊNCIA

Publicado em 21 junho 1996

Por GUILHERME A. M. CAMARGO
Muito poder-se-á falar de Renato Baima Areher da Silva. Seu cavaIheirismo aristrocrático. Seu jeito agradável de falar, voz rouca e macia ao mesmo tempo. Sua fascinante erudição. Seu perfil paradigmático de político hábil, intelectual e estrategista - homem público de virtudes absolutamente incomuns em nosso país. Todos certamente se lembrarão de sua lendária amizade com o dr. Ulysses Guimarães, iniciada em 1955, quando, juntos, fundaram a famosa Ala Moca do PSD na Câmara dos Deputados. Por onde passou, deixou uma legião de admiradores. Talvez seja, entretanto, a atuação de Renato Archer em defesa da ciência e tecnologia nacionais seu legado mais importante em quase 50 anos de vida pública. Foi aluno do almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva - o grande cientista e fundador do Conselho Nacional de Pesquisas - na Escola Naval. Álvaro Alberto despertou em Archer a paixão e o interesse pela ciência como instrumento vital para o desenvolvimento do Brasil. Já em 1955, jovem deputado. Renato Archer integrou a famosa Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou as exportações ilegais de minérios nucleares brasileiros e comprovou as pressões internacionais contra o desenvolvimento da energia nuclear no Brasil. Mais tarde, tornou-se a pessoa mais influente junto ao presidente Juscelino Kubitschek em questões nucleares, científicas e estratégicas. Foi representante do Brasil em Viena, na assembléia geral que deu origem à Agência Internacional de Energia Atômica em 1956. Em seguida, Archer fez uma visita à Inglaterra, França e Bélgica para conhecer os mais importantes centros de pesquisa nuclear do mundo. Em Harwel, Inglaterra, ouviu do cientista inglês John Dummworth o seguinte epitáfio: "Você acha que o mundo civilizado sucateará seu parque energético à base de combustíveis fósseis só porque você é patriota e o Brasil tem urânio? Pois saiba que muitos anos se passarão antes que o seu país tenha o direito de usar energia nuclear." Renato Archer nunca esmoreceu na luta pelo Brasil nuclear e pôde testemunhar em vida a realização dos sonhos de Álvaro Alberto, que haviam se tornado seus próprios sonhos. Em 1958. Archer participou com José Leite Lopes e Osvaldo Cruz de três programas de televisão em que defendiam a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia. Argumentavam que o momento era oportuno, em decorrência da instalação, no país da indústria automobilística. Impunha-se a necessidade de uma estrutura de formação de pessoal capaz de projetar os modelos brasileiros, não só de automóveis, caminhões e tratores, mas, principalmente, de motores. Quase três décadas se passaram para que finalmente este Ministério se tornasse uma realidade. Em 1985, o presidente Tancredo Neves nomeou Renato Archer o primeiro titular do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil. Nessa época, nosso país já produzia aviões, possuía uma indústria espacial florescente, estava construindo centrais nucleares e desenvolvia um programa nuclear autônomo extremamente avançado. No Ministério. Archer deu impulso a três setores vitais para o futuro do país: uma política de informática que privilegiasse a indústria nacional, a biotecnologia e os novos materiais. Além disso, consolidou institucionalmente as atividades de C&T, dinamitando o CNPq, a Finep. Secretaria de Informática, a Comissão de Cartografia e criando a Secretaria de Biotecnologia. Durante o governo de Itamar Franco. Archer foi nomeado presidente da Embratel. Mais uma vez deixou sua marca de grande empreendedor. Lançou a segunda geração do Brasilsat - o Satélite Brasileiro de Telecomunicações. Incentivou a digitalização da Rede Nacional de Telecomunicações através de fibras óticas e microondas digitais e iniciou a interligação de nossa rede digital com as redes do Cone Sul. Estados Unidos e Europa através de cabos submarinos de fibras óticas (Projetos Unisur, Américas e Columbus). Iniciou o projeto do Teleporto, em cooperação com a Prefeitura do Rio de Janeiro, que irá transformar nossa cidade num dos grandes centros de telecomunicações do planeta. Maranhense de fibra e tradição, carioca por adoção. Renato Archer foi um verdadeiro estadista da ciência. O Brasil perde um de seus filhos mais nobres num momento histórico de grandes incertezas. Que nossos jovens se inspirem no exemplo dele. Engenheiro, diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear e membro do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos.