Notícia

Revista Medicina Social de Grupo

Remédios sob medida

Publicado em 01 abril 2008

Por Claudia Atas

A medicação individualizada, com alta probabilidade de obter os efeitos desejados e, ao mesmo tempo, eliminar os indesejados, deixou de ser futurismo. Em países como Estados Unidos, Japão e Espanha, já é possível encontrar, na bula de alguns remédios, informações que permitem adequar o princípio ativo e a dose às características genéticas de cada paciente.

Essa guinada está sendo preparada pelos farmacogeneticistas, cientistas dedicados à nova ciência que surgiu nos anos 1950 - a farmacogenética, também chamada farmacogenômica. Eles buscam identificar os fatores genéticos que interferem nos princípios ativos dos remédios e em outras substâncias, levando a reações benéficas ou prejudiciais.

"A farmacogenômica irá acabar com os testes empíricos da medicina de hoje, quando o clínico medica primeiro e depois verifica se houve resposta e efeitos colaterais", observa o farmacêutico bioquímico Mario Hiroyuki Hirata, do Laboratório de Biologia Molecular Aplicada ao Diagnóstico da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. "Conhecendo o perfil genômico do paciente, tanto em relação à doença, quanto à classe de medicamento que pretenda prescrever, o médico saberá, antecipadamente, como se dará sua metabolização, podendo substituí-lo, se for o caso", explica.

É o caso da administração da estatina e da ezetimiba no tratamento do colesterol alto (hipercolesterolemia) e na prevenção de aterosclerose. "Em pacientes que sofrem efeito colateral com a estatina, como dor muscular e fraqueza nas pernas, será possível diminuir esse princípio ativo associando a ezetimiba, o que reduzirá o colesterol de forma satisfatória em pacientes que não toleram a estatina nas doses terapêuticas recomendadas", informa Hirata, com base no estudo em desenvolvimento na USP.

O conhecimento genético, portanto, será um santo remédio para todos: "Haverá mais controle no tratamento, mais segurança entre os médicos e menos gastos".

Produtos Étnicos

A aprovação de um medicamento "para negros", nos Estados Unidos, gerou uma polêmica mundial. Desenvolvido pelo laboratório Nitromed para tratar a insuficiência cardíaca, o BiDil mostrou, nos testes realizados em 2004, ser mais eficiente em indivíduos negros. Recomendado aos afro-descendentes e saudado como o primeiro produto étnico, o BiDil provocou efeitos adversos na reputação da farmacogenética, acusada de "ciência racista".

"A farmacogenômica separa os indivíduos por grupos, na maioria das vezes, mas, sem dúvida, alguns medicamentos são mais tóxicos para determinadas etnias — as estatinas, por exemplo, são menos toleradas pelos orientais", esclarece Hirata. "Por isso, a administração de um medicamento terá de ser avaliada antes de qualquer dedução, caso contrário, voltaremos à medicina empírica."

Essa avaliação dependerá do conhecimento dos profissionais de saúde — farmacêutico, analista clínico e médico, entre outros — e de sua postura. Na opinião de Hirata, a conduta médica terá de ser muito mais transparente e os clínicos precisarão estudar mais farmacologia e genômica, "senão, nem eles poderão utilizar adequadamente esse tipo de informação".

Rede Brasileira

No conjunto das pesquisas farmacogenéticas em andamento no Brasil, 17 grupos desenvolvem estudos já consolidados, envolvendo instituições respeitáveis como as universidades federais do Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul e a católica de Brasília.

Os objetos dessas pesquisas, segundo o site da Rede Nacional de Farmacogenética/Farmacogenômica (www.refargen.org.br), relacionam-se a neoplasias; tuberculose; toxicogenética; genética do sistema imunológico; doenças genéticas, cardiovasculares e neuropsiquiátricas; dependência à nicotina; transtorno de déficit de atenção e hiperatividade; transtornos psiquiátricos e antiinflamatórios não— esteróides, entre outros.

"Faltam, no Brasil, recursos para grandes estudos", queixa-se Hirata. "Aqui na USP, também temos algumas limitações. Às vezes, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) não compreende a importância de determinados estudos nesta área e nega verbas ou bolsas." Ele acha que o Brasil ganharia muito com estudos mais amplos: "Nossa população é a mais heterogênea do planeta e uma pesquisa farmacogenômica, nessa dimensão, seria muito esclarecedora".

O aspecto econômico também entra nas considerações do professor. "A medicação individualizada, ou mais bem conduzida no sentido de evitar efeitos colaterais, ajudaria o país a economizar o significativo volume de dinheiro gasto nos tratamentos da medicina convencional. Isso já foi comprovado nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, Espanha e outros países europeus, onde já se encontram bulas com recomendações farmacogenômicas."