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Remédios contra osteoporose podem ganhar novo uso no combate ao excesso de ferro (107 notícias)

Publicado em 22 de fevereiro de 2026

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que dois medicamentos usados no tratamento da osteoporose — etidronato e tiludronato — podem ajudar a combater doenças causadas pelo acúmulo excessivo de ferro no organismo. Em testes realizados em células humanas, os fármacos se ligaram ao metal em excesso, reduziram o estresse oxidativo e evitaram danos celulares.

O estudo, publicado na revista científica BioMetals, foi conduzido no Instituto de Química da USP e contou com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Atualmente, apenas três medicamentos são aprovados para tratar a sobrecarga de ferro, os chamados quelantes, que ajudam a eliminar o metal do organismo, mas costumam provocar efeitos colaterais importantes, como náuseas e enjoos, dificultando a adesão ao tratamento.

A pesquisa é resultado do mestrado de Julia Tiemy Leal Konno, orientada pelo professor Breno Pannia Espósito. Diferentemente de estudos tradicionais de reposicionamento de fármacos, que testam várias substâncias em busca de novas aplicações, o trabalho partiu de uma hipótese específica: a estrutura química dos bisfosfonatos, ricos em fosfatos, poderia apresentar afinidade com o ferro.

Como ferro e cálcio competem no organismo, os testes foram realizados em condições fisiológicas normais de cálcio. Os resultados mostraram que os medicamentos conseguiram “capturar” o ferro em excesso e reduzir os processos de oxidação responsáveis por lesões celulares.

Segundo os pesquisadores, a sobrecarga de ferro ocorre quando o metal se acumula em níveis tóxicos, podendo ser causada por fatores genéticos, como a hemocromatose, ou como consequência de tratamentos médicos. Em pacientes com talassemia, por exemplo, transfusões frequentes de sangue, embora essenciais, podem levar ao acúmulo crônico de ferro.

Outros bisfosfonatos também foram testados e se mostraram eficazes na inibição da oxidação provocada pelo ferro, mas apresentaram maior toxicidade celular, o que exige cautela em um possível uso clínico. Já o ranelato de estrôncio, outro medicamento antirreabsortivo, não demonstrou capacidade de se ligar ao metal.

Para Espósito, os resultados abrem uma nova perspectiva terapêutica, mas ainda não permitem aplicações imediatas. “Os testes foram feitos apenas em culturas celulares. Trata-se de uma prova de conceito. São necessários estudos em modelos animais e, depois, em humanos para avaliar a segurança e a eficácia”, afirma.