Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Remédio elimina excesso de ferro

Publicado em 26 fevereiro 2012

Um ano, cinco anos, no máximo dez anos de sobrevida. Esse era o prognóstico que os médicos transmitiam aos pais de portadores de talassemia até meados da década de 1990, quando a doença - anemia do Mediterrâneo, cujo nome vem do grego talassa (mar) e aima (sangue) - ainda tinha tratamento limitado e oneroso até na Itália, onde é maior sua incidência.

Dependentes de transfusões constantes, uma ou duas vezes por mês, os portadores da doença carregavam, colada ao corpo de oito a dez horas por dia, uma bombinha para infusão do Desferal, na época único quelante ou medicamento destinado a retirar o excesso de ferro acumulado no organismo, principalmente no coração e no fígado.

Carlos e Cláudia Di Sessa Vellozo, que nunca tinham ouvido falar da doença, levaram um choque quando souberam que o primeiro filho, Danilo, teria pouco tempo de vida. Ficaram muito abatidos, mas não aceitaram a sentença de morte. Descendentes de italianos, residentes em São Caetano do Sul, rejeitaram a sugestão de aborto, ao se confirmar a segunda gravidez. Nataly, a filha do meio, nasceu saudável.

A chegada de Gregory, um ano depois, dobrou o problema, pois ele também tinha talassemia. Saíram em busca de informação e encontraram aliados valiosos, quando ouviram no rádio o nome de Neuza Cattassini, então presidente da Associação Brasileira de Talassemia (Abrasta).

Venceram os desafios: Danilo, agora com 25 anos, e Gregory, com 22, ambos analistas de sistemas, têm uma rotina normal. Trabalham, namoram e passeiam, entre uma transfusão e outra. São 700 ml de sangue a cada 25 dias, e dosagens diárias de quelantes - combinando o Desferal (deferoxamina) da bombinha de infusão com um dos novos produtos surgidos nos últimos 15 anos, o Ferriprox (deferiprona) e o Exjade (deferasirox), aplicados por via oral.

Os quelantes orais trouxeram alívio para os portadores de talassemia, sem o incômodo do Desferal, cuja bombinha é acoplada ao corpo por uma seringa para infusão subcutânea. A combinação dos medicamentos é, em alguns casos, necessária, porque a ação deles varia na remoção do excesso de ferro - um é mais eficaz para o coração, outro funciona melhor para outros órgãos.

O tratamento é caro, mas o Sistema Único de Saúde (SUS) cobre os custos, exceto a compra de bombas e seringas, artigos importados que a Abrasta providencia. Além de doações, a associação consegue trazer os produtos na bagagem de parentes e amigos em viagens ao exterior.

"Isso, quando um agente da alfândega não confisca a mercadoria como se fosse contrabando", queixa-se a presidente da Abrasta, Merula Steagall, de 44 anos, filha de pais gregos, dos quais herdou o gene de talassemia major, o tipo mais grave da doença.

Outras formas são a talassemia intermédia, que pode ou não precisar de tratamento, e a talassemia minor, que só apresenta traços da doença, sem requerer cuidados especiais.

Segundo a médica Sandra Loggetto, do Centro de Hematologia de São Paulo, os doentes de talassemia no Brasil não ultrapassam muito o número de casos identificados pela Abrasta (301 major e 221 intermédia). Os talassêmicos minor são cerca de 2,7 milhões. "Deve-se dar atenção a esse número, porque portadores de gene da talassemia minor podem gerar filhos com a doença", diz a médica.

No País, há hemocentros ou hemonúcleos de referência em todos os Estados, onde os talassêmicos têm tratamento adequado sem gastar nada. Eles recebem sangue específico, filtrado e jovem (de uma semana), controlado por um serviço de hemovigilância para eliminar o risco de transmissão de outras doenças, como aids e hepatite C.

"A grande novidade dos últimos 20 anos foi o surgimento dos quelantes orais", afirma o médico brasileiro Fernando Tricta, vice-presidente da canadense ApoPharma Inc., responsável pelo lançamento do Ferripox (deferiprona), uma das alternativas para o injetável Desferal.

Utilizado há mais de dez anos na Europa e no Brasil, o medicamento está batalhando para ser aprovado pela vigilância sanitária dos Estados Unidos (FDA).

Uma outra contribuição para o tratamento da talassemia foi o lançamento de uma nova técnica de ressonância capaz de detectar o excesso de ferro no coração, antes do aparecimento de sintomas. O método foi desenvolvido pelo cardiologista Juliano de Lara Fernandes, do serviço de cardiologia da Unicamp, com financiamento da Fundação de [Amparo] Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

"Começamos no ano de 2003 e hoje o método já está disseminado por mais de 20 cidades brasileiras", afirma o especialista.

A equipe de Fernandes criou uma planilha que pode fazer análises gratuitamente pelo computador, enquanto métodos tradicionais exigem equipamentos de US$ 30 mil a US$ 40 mil. A nova técnica de ressonância reduziu em até 70% as mortes de pacientes provocadas por insuficiência cardíaca.