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"Remédio de branco" é menos eficiente no tratamento de indígenas

Publicado em 07 agosto 2018

A medicina tradicional indígena foi mais eficaz do que remédios convencionais no tratamento da dor entre membros das tribos do Vale do Javari, no oeste do Amazonas. É o que revela pesquisa realizada pela mestra em enfermagem Elaine Barbosa de Moraes, com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp).

A pesquisadora ouviu 45 índios das etnias marubo, canamari e matis, dos quais 80% recorreram à medicina tradicional indígena para o tratamento da dor e 64,5% confirmaram a eficácia desse método. Entre os 87,7% que usaram a medicina convencional, tomando o chamado “remédio de branco”, 22,2% disseram que o tratamento foi eficaz.

“Fica bem evidente que, mesmo utilizando mais a medicina convencional, o alívio da dor vem mais com o uso do remédio da medicina tradicional indígena”, concluiu Elaine.

Medicamentos

Os tratamentos indígenas mais usados são os chamados “remédios do mato”, feitos com plantas e que são responsáveis pelo alívio da dor de 40% dos entrevistados. Existem ainda outras formas de tratar a dor, como o uso de gordura animal, de enzimas, de banhos e de rituais de cura, conhecidos como pajelança.

Para Elaine, uma das causas da eficácia do tratamento indígena é o conhecimento deles sobre o uso de tudo que a floresta oferece. “A medicina tradicional indígena é um conhecimento que tem muito a acrescentar para a saúde da nossa população e poderia, tranquilamente, ser incluída entre as terapias complementares de saúde, assim como já foram incluídas outras terapias.”

A pesquisadora destaca que o Brasil ainda carece de um bom estudo de todos esses tratamentos e de um mapeamento maior dos tratamentos da medicina tradicional indígena.

Sem acompanhamento

Segundo Elaine, outra questão que influenciou no resultado da pesquisa e que dificulta a eficácia dos remédios da medicina convencional é a falta de acompanhamento e tratamento adequados pela saúde pública. Os indígenas do Vale do Javari são atendidos por um Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), que é ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Elaine entrevistou 36 funcionários do Dsei que prestam atendimento às três tribos para avaliar como os agentes de saúde lidam com a dor dos indígenas. No total, 73% disseram que, durante o atendimento, não investigam a dor dos índios. A pesquisadora concluiu que os profissionais do Dsei têm pouco tempo de formação e que falta a eles conhecimento específico para lidar com a dor e a saúde indígenas.

“A assistência à dor dos indígenas é precária, assim como a de quem não é indígena, porque, em nossa sociedade, a dor ainda não é bem trabalhada. Um acompanhamento melhor resultaria em uma terapêutica mais apropriada, uma vez que o indígena usa muito a medicina convencional. Se eles não sentem um alívio tão grande – somente 22,2% relataram melhoras com a medicina tradicional –, essa dor pode estar sendo mal-avaliada, a prescrição pode não ser a mais apropriada”, enfatiza.

Na opinião de Elaine, se houvesse um acompanhamento melhor, com profissionais com mais conhecimento tanto da dor quanto da saúde indígena, o alívio da dor com uso da medicina convencional seria maior. (Agência Brasil)