Notícia

Bola Presa

Releitura histórica

Publicado em 05 maio 2020

Por Denis

Entre as revoluções da Grande Quarentena de 2020 está uma inesperada releitura da história do futebol brasileiro. Com as inúmeras reprises das mais diferentes Copas do Mundo, torcedores, comentaristas e ex-jogadores começaram a rever suas opiniões sobre a até então chata seleção de 1994, o artístico e injustiçado time 1982 e a consagrada esquadra de 1970. Ao invés de retranqueiro, o time de Parreira agora está sendo visto como taticamente moderno e muito mais técnico e ofensivo do que todos lembravam, até com comentários de como o time tinha toques Guardialescos de controle do ritmo da partida. Já o time de 1982, mítico para quem só ouviu falar, foi detonado pela irregularidade, defesa cheia de buracos e atacantes abaixo do nível do resto do time. Até o imbatível time do tri tomou umas porradas da galera que achou muito fácil jogar futebol com todo aquele espaço no meio-campo.

Rever as partidas antigas de Copas do Mundo pode ser uma experiência educativa pela chance de acompanhar o jogo um pouco mais distante do forte contexto emocional da época, quando estamos na torcida e afogados naquela ânsia de Copa. Gostaria, por exemplo, de rever um jogo da Copa de 2010 sem uma entrevista grosseira do Dunga fresca na memória, talvez a simpatia me fizesse enxergar mais naquele time. Sabendo do resultado e da história da partida também temos menos preocupação com o que vai acontecer e gastamos nossa atenção em outras áreas, com foco nos detalhes ao invés apenas do todo. Mas a frieza desse futebol sem contexto tem também seus muitos poréns: considerar a Holanda de 1974 revolucionária só é possível se soubermos o que outros times estavam fazendo na mesma época.

Isso serve também para a grande tendência da temporada de releituras, que é trazer justiça para times criticados e levar realidade para times colocados no Olimpo da Amarelinha. Gosto do exemplo do time do tetra em 1994: uma nova geração de comentaristas e torcedores tem tentado refazer a narrativa do time sem graça ao apontar talento além de Romário e Bebeto e modernidade no esquema tático. Essas críticas, no entanto, indicam que torcida e especialistas não entenderam nada na hora. Se o time era tão bom assim e se venceu uma Copa, por que torcida e imprensa nunca se convenceram com aquele grupo? Não sabiam nada de futebol? Não enxergaram essa escondida genialidade por trás do Parreirismo? Acho que nesse caso há um fator essencial de expectativa e cultura que não pode ser totalmente excluído da discussão. Torcida e parte da crítica espera aque a Seleção Brasileira jogue de certa forma. Esse estilo deve ser ofensivo, criativo, envolvente, empolgante, com toques de improviso e muito domínio do jogo, nada de ficar esperando o jogo acontecer. É preciso de momentos de explosão. Com os atacantes muitas vezes isolados no ataque e um toque de bola com excesso de cautela, é claro que a torcida não estava se enxergando em campo. É um estilo tão não-brasileiro que até a Espanha multicampeã de 2008 a 2012 era taxada como um time sonolento por muitas mesas de bar brasileiras: toque de lado não é com a gente.

Esse mesmo contexto muda com o passar dos anos. Ainda há os que pensam daquele jeito, mas o futebol europeu tomou conta das TVs, da molecada e do nosso imaginário. Muitos hoje admiram outros estilos e os quase 20 anos sem um título mundial fizeram tantos outros perceberem que talvez a gente até possa rever alguns conceitos. A redenção tardia do time de 1994 é compreensiva nesse novo contexto, mas não faz a galera lá de 1994 estar errada. Eles queriam outra coisa, esperavam outra coisa, torciam por outra coisa. Vencer é importante para o futebol brasileiro, mas o estilo é importante demais para nossa identidade.

Em uma época onde é fácil cravar que vivemos “novos tempos” é tentador arrasar algo consagrado e fazer reviver outro que estava enterrado. Estamos vendo isso todo dia em todas as áreas. A tentação aumenta quando falamos do Twitter, onde começar uma polêmica com uma chamada “opinião impopular” rende discussão, repercussão, cliques e até “elogios pela coragem”. Mas tirando os exemplos vazios daqueles que só querem fazer barulho com as convicções alheias, pode ser interessante insistir em rever o passado esportivo com os olhos atuais. A arte faz isso desde sempre. Há algumas semanas a Fapesp fez um vídeo com uma história sucinta da crítica de Machado de Assis pelas mãos de seus colegas escritores e é divertidíssimo ver como a releitura dele e de sua obra mudou através das décadas. Seu estilo parece moderno, depois enfadonho e questões que hoje parecem fundamentais para entender ele e que aprendemos no ensino médio, como a confiabilidade de seus narradores, surgiram só 40 anos depois da sua morte. Mudam-se os tempos, as prioridades, a sociedade, os pressupostos e ainda há suco para tirar daquele autor. O que sabemos hoje no futebol, portanto, com discussões sobre posse de bola e ocupação de espaços, dá novo significado para o que foi o time de 1994 e talvez revele falhas antes despercebidas no de 1982. Como na arte, um diálogo interminável.

Com parágrafos de atraso, a ponte para o basquete chega graças ao escritor Graciliano Ramos. Ele diz temer que a consagração de Machado de Assis tenha criado um “respeito supersticioso” sobre sua obra, criando no autor um ídolo que ao invés de atrair, afasta leitores e críticos. Sabe aquele livro clássico que não entendemos nada, achamos um porre mas que temos medo de criticar para não parecer burro? Tipo isso. Se é que você vai ter coragem de começar a ler o livro, claro. Por muito tempo foi essa a sensação que tive que experimentávamos com Michael Jordan, alguém tão intocável no basquete que se tornou alvo do tal respeito supersticioso. A gente responde que ele é o maior de todos os tempos sem nem parar para pensar, refletir ou simplesmente reler sua obra. Ou, se for do contra, diz que LeBron James foi melhor com o mesmo receio de ir lá cutucar e realmente rever, repensar e discutir Jordan. Até por escolha própria, o jogador mais famoso da história não era revisitado há muito tempo. Mas podemos estar finalmente corrigindo isso com o documentário The Last Dance.

Num primeiro momento fiquei frustrado de ver que o documentário cobre toda a carreira de Jordan no Chicago Bulls. Eu estava muito ansioso para as imagens inéditas prometidas sobre seu último ano na franquia e ao invés disso estava vendo histórias que já ouvimos mil outras vezes sobre seus primeiros anos na NBA. Ao longo dos episódios, porém, deu pra perceber que o objetivo do documentário não era realmente aquela última temporada, mas apenas usá-la como pano de fundo para recontar a história de Jordan e dos principais personagens do time que fez história nos anos 1990. Mais do que revelar bastidores, a ideia era pegar todos os nomes relevantes da história, dos próprios jogadores a adversários, jornalistas e personalidades da época, para contar a história definitiva de Jordan. Ou ao menos definitiva para os olhos de 2020, claro.

A coisa tomou proporções ainda maiores que as imaginadas. A princípio o plano era deixar o documentário pronto apenas em Junho para que ele fosse transmitido na ESPN americana entre os jogos da Final da temporada 2019-20, preenchendo uma pequena lacuna de dias sem basquete no meio dos Playoffs. Mas o coronavírus chegou, chutou a NBA para escanteio e de repente o mundo não tinha NADA de esporte para assistir. Enquanto as reprises de Copa do Mundo movimentaram o torcedor de futebol no Brasil, coube a The Last Dance fazer as engrenagens se movimentarem nos EUA. Mesmo com apenas TRÊS episódios finalizados e com entrevistas ainda a serem feitas, o documentário foi adiantado e lançado em Março.

O que tem se visto então é um fenômeno cultural: cada exibição dos episódios dos documentários aos domingos tem alcançado cerca de SEIS MILHÕES de telespectadores nos EUA e as redes sociais, podcasts e até grandes sites de notícias tem sido ocupadas por discussões sobre Michael Jordan e sua turma. Não são discussões sobre revelações que descobrimos no documentário, elas quase não existem, mas repercussão de histórias antigas, entrevistas com personagens que revelam histórias que não entraram no filme, divulgação de estatísticas incríveis de 30 anos atrás e até reedição de temas polêmicos que achávamos que estavam encerrados. Na última semana reciclaram o papo sobre se foi ético, compreensível ou simplesmente babaca a decisão do Detroit Pistons de Isiah Thomas de ir embora de uma série de Playoff poucos segundos antes do último jogo acabar e sem apertar a mão dos rivais. É como se o Brasil parasse para descobrir DE NOVO quem matou Odete Roitman.

Uma das coisas legais de ver o tuitosfera americana é que lá eles assistem pela TV, então todos comentam ao mesmo tempo. É como se a gente estivesse vivendo uma segunda experiência da carreira de Jordan, mas em versão resumida e finalmente com a presença das redes sociais. Não só coisas aleatórias viram memes, algo que não era possível naquela época, como refizemos com a geração atual conversas sobre Jerry Krause, sobre o contrato de Scottie Pippen, a competitividade de Jordan, o melhor esquema tático para ele florescer, as “férias” de Dennis Rodman, o trabalho do técnico Doug Collins e muito, muito mais. Como aconteceu com Machado de Assis e a crítica literária brasileira, a gente apareceu aqui em 2020 com novos valores, ideias e imagem do basquete e a carreira de Jordan estava lá rica e completa para nos dar novas respostas.

Nessa reinterpretação histórica existe espaço até para algo que tanto abominamos aqui no Bola Presa: comparação de jogadores. Se comparar caras que jogam ao mesmo tempo já é difícil por causa de diferença de posições, companheiros, técnico, função tática e ponto da carreira, comparar jogadores de eras diferentes beira o impossível. E se o objetivo da discussão é simplesmente descobrir o bendito “quem é melhor”, o trabalho ainda não vai servir pra nada. Mas nesse caso histórico, as comparações podem ser úteis para dar contexto e ajudar quem não teve a chance de acompanhar uma situação mais de perto.

Em The Last Dance, por exemplo, vemos como Jordan penou em seus primeiros anos na NBA para transformar sua capacidade inacreditável de marcar pontos em resultado coletivo. Vemos como ele era criticado por não envolver os companheiros e como os adversários sabiam que na hora dos Playoffs era só focar a defesa toda nele para que eventualmente o Bulls sucumbisse. No caminho vemos o nascimento das Jordan Rules, o sistema defensivo do Detroit Pistons completamente adaptado para parar Jordan. Dá pra ver tudo isso em 2020 e não pensar em James Harden? Os dois não tem NADA a ver em personalidade, estilo de jogo, maneira de pontuar nem mesmo trajetória de carreira. No máximo eles jogam na mesma posição (às vezes) e fazem muitos pontos. Mas essas particularidades específicas servem para os dois e podem ajudar um fã de hoje a entender esses aspectos da carreira de Jordan. O Barba também quebra recordes de pontuação e beira o indefensável, mas apanha das críticas por não conseguir sempre transformar isso em sucesso coletivo e pelo tanto que seu Houston Rockets depende de suas atuações ofensivas. Pensei nele quando Jordan aparece cético, lá em 1989, de que precisa abrir mão de ser o centro do ataque para que o time melhor. E os últimos anos têm sido um festival de “Harden Rules“, com táticas defensivas criadas única e exclusivamente para segurá-lo. Desde o Milwaukee Bucks o marcando por trás até a dobra no meio da quadra inventada pelo Denver Nuggets, não faltam times saindo da sua rota para tentar botar freio nele, exatamente como faziam com Jordan nos anos 1980.

Outros paralelos podem ajudar quem chegou agora na NBA a sacar quem foi Jordan: saber da história da LeBron James ajuda a sacar a situação única da pressão do público e da imprensa, da obsessão da mídia por histórias sobre ele e até da preocupação do jogador com sua imagem e marca, algo iniciado por Jordan e que LeBron soube continuar como poucos. E Steph Curry deve ser o exemplo mais claro e recente de como um cara pode, de uma hora para a outra, revolucionar o basquete e fascinar uma geração inteira de jovens a querer assistir, consumir e jogar basquete. Nunca é EXATAMENTE a mesma coisa, mas estar presente para acompanhar como Curry tomou o mundo do basquete em 2015 é um bom jeito de começar a ter uma ideia do fenômeno Jordan quando ele entrou na NBA. Assim como Kobe Bryant foi, ao longo de sua carreira, um exemplo da mentalidade competitiva e até do estilo de jogo de Jordan. Se você acompanhou as carreiras de Harden, LeBron, Curry e Kobe já pode começar a fazer seu trabalho de literatura comparada com a vida e obra de Jordan.

Ao contrário da Literatura, onde revisitar o passado é constante e inevitável, no esporte às vezes acabamos deixando de lado muito rápido aquilo que já passou devido ao ritmo absurdo de competições e nossa ânsia pelo próximo jogo, sempre o mais importante. Não é nem que a gente esqueça do passado do esporte, os nomes mais famosos são sempre citados e lances clássicos são repetidos a exaustão. O que a gente nunca tinha parado para fazer era realmente essa experiência de apagar o presente e se entregar para o estudo do passado: reprises e mais reprises de jogos de diferentes épocas a cinco semanas de imersão em Michael Jordan. E a Grande Quarentena de 2020 ainda nos deu a chance de reviver essa história em grupo, todos juntos, da maneira que o esporte é mesmo melhor aproveitado. Não estamos falando de alguém numa sala revendo um jogo, é uma comunidade inteira.

Eu preferia ver os Playoffs 2020, que fique claro. Mas que a gente consiga ir além das conclusões e comparações fáceis e transforme essa situação bizarra na maneira mais única já criada para reinterpretar a história dos nossos esportes favoritos.

TORCEDOR DO LAKERS E DEFENSOR DE 87,4% DAS ESTATÍSTICAS.