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Gazeta Mercantil

Relatório da Gazeta Mercantil Latino-Americana. A Universidade e a Empresa

Publicado em 31 agosto 1997

Por "Severino Goes - Florianópolis
Carta de Florianópolis" recomenda prioridade à educação e à pesquisa científica Os países do Mercosul deverão criar um fórum permanente de intercâmbio sobre a integração entre universidades e empresas com a participação efetiva de representantes dos setores empresariais, acadêmicos e governamentais. Esta é uma das principais conclusões do seminário Interação Universidade-Empresa no Mercosul, encerrado na última sexta-feira, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e que, durante quatro dias, discutiu os problemas e alternativas para que a produção científica e de pesquisa das universidades do bloco chegue às empresas, modernizando sua produção e capacitando-as a enfrentarem um mercado cada vez mais competitivo. As conclusões do encontro, que reuniu cerca de quinhentas pessoas, estão alinhadas na "Carta de Florianópolis", o documento final do seminário, que recomenda às universidades e empresas uma maior interação e aos governos da região que atribuam prioridade à educação e à pesquisa científica. "Num contexto de economia globalizada, o conhecimento é a grande matéria-prima das empresas e até um fator de sobrevivência. O que se impõe é que as empresas, universidades e governos possam fazer com que o conhecimento seja indutor da melhoria da qualidade de vida", resumiu José Carlos de Almeida, coordenador do Instituto Buvaldo Ijodi, ligado à Confederação Nacional da Indústria (CNI). Até chegar a esse ponto, contudo, universidades e empresas ainda têm muitos passos a percorrer, a julgar pelos debates ocorridos durante os quatro dias do seminário. Posições francamente otimistas, como a exposição de casos nos quais a integração já é um fato concreto, alternaram-se com uma visão crítica do processo. O reitor da Universidade de Mogi das Cruzes (SP) e ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP), Roberto Leal Lobo, por exemplo, diz que, pelo menos no Brasil, a integração pode ser considerada "incipiente". Lobo esquentou os debates do seminário ao criticar duramente a posição da indústria brasileira que, segundo ele, desenvolveu-se à base de protecionismo e reservas de mercado. A situação perdurou ate que, com a abertura comercial promovida pelo governo Collor, "houve uma grande confusão entre competição e competitividade". O governo abriu as fronteiras do País, sem estabelecer critérios rigorosos, achando que a simples competição com produtos importados levaria a um avanço tecnológico. Não foi o que ocorreu. Do lado das universidades, na sua avaliação, é preciso decidir se há, ou não, disposição de trabalhar em conjunto com o setor privado, "rompendo o corporativismo, a morosidade e sem oportunismos de curto prazo". Aos governos, estaria reservado o papel de incentivar essa aproximação. Isto já ocorre no Chile, onde a Fundação Chile, por meio de financiamentos concedidos pelo governo e pelas empresas, subloca projetos de pesquisa específicos junto as universidades, com resultados concretos. Em outros países do bloco, como no Uruguai, as ações para uma maior integração entre universidades e empresas começam, também, a se encaminhar. A Universidad de la República, por meio da direção geral de relações e cooperação, está atuando basicamente em três planos, de acordo com o engenheiro Juan Carlos Pesok, coordenador da área de empresas. O primeiro deles é uma vinculação direta com pequenas e médias empresas, capazes de atuar como provedoras de tecnologia para empresas de maior porte. A segunda iniciativa é o estabelecimento de planos para setores produtivos com perfil exportador - lã, têxtil, couro, lácteos — e, finalmente, há planos de aproximação com futuros empreendedores, por meio da criação de incubadoras tecnológicas. Em quase todos os debates do seminário ficou clara a idéia de que, neste final de milênio, com a transformação das relações econômicas globais, o domínio da tecnologia por parte dos países passou a ser a moeda de troca mais valiosa nas relações internacionais, superando os fatores de produção tradicionais, como o capital, custo de mão-de-obra e o fornecimento de matérias-primas, notou Carlos Martiez Pavez, diretor de Ciência e Tecnologia do Cinda - Centro Universitário de Desenvolvimento do Chile. O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Alcântara Gomes, bateu na mesma tecla. Para ele, uma vez que cerca de 70% dos postos de trabalho em um futuro não muito distante tendem a ser ocupados por pessoas com conhecimentos nas áreas de informática e comunicações, "a universidade tem que repensar seu modelo de formação de técnicos". O Brasil, por exemplo, enfrenta desafios em seus quadros técnicos e científicos. Enquanto nos Estados Unidos existem 4,6 milhões de cientistas, no Brasil o número é de 52 mil. O professor Carlos Vogt, ex-reitor de uma das maiores universidades do Brasil, a de Campinas (SP), e hoje diretor-executivo do Fórum Permanente das Relações Universidade-Empresa (Uniemp), acredita que o desenvolvimento tecnológico é ditado pelas necessidades de mercado e comandado pelas empresas. "As universidades produzem ciência aplicada, mas o setor empresarial é responsável por 75% da produção de tecnologia e isto deve ser induzido pelo governo", afirma. BID acena com modelo europeu Os países do Mercosul devem buscar formas de encontrar um mecanismo que permita o financiamento de pesquisas em tecnologia de ponta para que suas empresas possam competir mais fortemente no mercado internacional. A proposta foi lançada pelo representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil, Jorge Elena, durante os debates do seminário Interação Universidade-Empresa no Mercosul, e lançou luzes sobre a necessidade de serem ampliados os recursos dirigidos à pesquisa científica e tecnológica. Jorge Elena lembrou o que classifica como "bem-sucedida" experiência da União Européia com o Projeto Eureka, que destina empréstimos praticamente a fundo perdido para que os países invistam em pesquisa de ponta, possibilitando que as empresas concorram em condições vantajosas no mercado internacional. "Seria utópico pensar mim Projeto Eureka para o Mercosul?", questionou o representante do BID. O maior problema enfrentado por empresas e universidades na América Latina é a falta de recursos para investir em tecnologia avançada. "Os programas científicos e tecnológicos mudam o paradigma dos investimentos. Atualmente, o conhecimento e a informação são fonte de desenvolvimento", disse. Segundo ele, a importância cada vez maior da educação no processo produtivo é evidente e se agrega à contribuição que as empresas podem dar para o desenvolvimento. O representante do BID notou, por exemplo, que, com o avanço dos programas de privatização em todos os países do continente, o ritmo do processo de desenvolvimento tecnológico está sendo ditado pelas empresas privadas, como ocorre no caso das telecomunicações. "Está ocorrendo, como nunca, um processo de participação de empresas privadas no desenvolvimento", sustentou. Para que as empresas possam produzir em um ambiente competitivo, será necessário ampliar os investimentos em conhecimento e novas tecnologias, treinamento de mão-de-obra e pesquisas de novos processos produtivos. Segundo Elena, o avanço da integração do Mercosul é uma etapa importante para que o BID aumente seus investimentos em tecnologia e educação. Entre os anos de 1994 e 1996, o Banco emprestou US$ 624 milhões para os países do bloco investirem nesses setores. Em 1997, serão destinados US$ 610 milhões, ou um total de US$ 1,234 bilhão m/m período de quatro anos, dos quais US$ 670 milhões para o Brasil. Assim, disse, deve crescer a importância que os países têm dado à educação, uma vez que a maioria dos recursos emprestados se destina a treinamento em educação primária e secundária, reciclagem profissional e programas de Ciência e Tecnologia. "O aprofundamento do acordo do Mercosul exige o fortalecimento de dois instrumentos para o bloco que seriam a instituição de um braço financeiro e um braço tecnológico", enfatizou Elena, para lembrar a experiência da União Européia com o Projeto Eureka. Por meio do Eureka, dezenove países da União Européia criaram um espaço tecnológico que lhes permite disputar financiamentos para investimento em tecnologia. Elena citou como exemplo de financiamento bem-sucedido as atividades da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Brasil, com o qual o BID mantém desde 1965 uma parceria que já resultou em doze empréstimos num total de US$ 456 milhões. "Uma maior participação empresarial será vital no cenário de uma economia globalizada, e o mesmo vale para o Mercosul. Por que não uma Finep do Mercosul?", voltou a indagar. (S.G.) Melhoria para o meio ambiente Quem sai em defesa do meio ambiente talvez não saiba que um dos avanços conseguidos na fabricação de compressores de ar para refrigeradores - a troca do gás CFC para outro que não agride a camada de ozônio - surgiu nos laboratórios dos cursos de Engenharia da Universidade Federal de Santa Catarina. A parceria da instituição com a Embraco, maior fabricante de compressores de ar do País, foi uma das primeiras feitas pela UFSC já dura dezesseis anos e ainda está rendendo frutos. O Núcleo de Pesquisa em Refrigeração, Ventilação e Condicionamento de Ar (NRVA) é o lugar de onde saem essas novidades. A troca do gás CFC por outro não poluente é uma delas, outra é a eficiência do compressor e sua capacidade de consumir energia e produzir frio. Em 15 anos de trabalhos conjuntos, a Embraco e a UFSC conseguiram desenvolver compressores que, atualmente, são 40% mais econômicos do que os utilizados no início da década de 80. "Uma das características que temos aqui é que, quando fazemos um trabalho para uma empresa, não é de engenharia corriqueira, mas, sim, de uma contribuição real da universidade", diz o pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, Renato Carlson. Atualmente, os engenheiros do NRVA estão trabalhando num projeto que poderá representar mais um avanço na área de compressores para refrigeração. Trata-se de um compressor que nunca desliga, ao contrário do que ocorre com os utilizados atualmente, o que pode representar economia de energia. Outro projeto desenvolvido pela UFSC é com a Weg, uma das maiores fabricantes de motores elétricos. A parceria começou em 1986, quando foram iniciados quatro projetos para desenvolvimento de ímãs de terras raras e servomotores. (S. G.) Uma parceria que dá bons frutos Severino Góes Florianópolis Universidade e empresas desenvolvem projetos em conjunto. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é um exemplo bem-sucedido de que, quando os dois lados querem, as empresas e as instituições de ensino superior podem desenvolver projetos conjuntos com resultados satisfatórios. Que o diga o reitor Rodolfo Joaquim Pinto da Luz, que pode contabilizar, com satisfação, que a universidade recebe de empresas privadas exatamente o dobro do que o governo federal destina à manutenção do seu campus. Para este ano, está prevista a entrada de US$ 40 milhões em recursos privados, enquanto que o orçamento do Ministério da Educação registra US$ 20 milhões para a UFSC. "É isto que permite que a universidade seja o que é", diz o reitor. E a instituição tem o que mostrar. Sua carteira de parcerias com a iniciativa privada mostra associações com grupos poderosos como a Embraco - maior produtor brasileiro de compressores para refrigeração -, a Equitel, fabricante de aparelhos de telecomunicação controlada pela Siemens, e a Weg, maior produtor de motores elétricos da América Latina. A UFSC também se volta agora para projetos sociais, apoiando a atividade de pequenos pescadores da costa catarinense. A experiência da instituição catarinense com o setor privado é antiga. Fundada em 1960, a UFSC começou a se aproximar tias empresas a partir de 1965, com uma experiência feita pelo curso de Engenharia Mecânica, como lembra o pró-reitor de pós-graduação e pesquisa da universidade, Renato Carlson. A maioria dos engenheiros contratados para professores dos cursos de engenharia era de fora tio estado, formados por universidades da Alemanha - onde a aproximação com empresas é corriqueira -, e aí começou a parceria. "Naturalmente, os professores precisavam da aproximação com as empresas, e os empresários passaram a ter confiança no trabalho da universidade", diz o reitor Pinto da Luz. Para ele, que administra toda uma experiência acumulada por mais de trinta anos de parceria com o setor privado, as empresas de países em desenvolvimento que não se associarem as universidades não têm como sobreviver, numa economia cada vez mais competitiva. "Nossas empresas vão ter que fazer pesquisas e, para fazer sozinhas, o custo será muito alto. A saída mais lógica é associar-se às universidades, que têm pesquisadores e equipamentos. Se esta associação não ocorrer, tais empresas vão ser compradas pelos concorrentes ou sair do mercado. Por isto, é que se torna cada vez, mais essencial essa relação", diz o reitor, com convicção. Um problema que se coloca sempre que se fala em parceria entre empresas e universidades é a desconfiança mútua que ainda existe. De um lado, as empresas querem resultados muitas vezes imediatos, de outro, as universidades, quase sempre públicas e sustentadas com o dinheiro dos contribuintes, hesitam em participar desse tipo de aliança. "A grande questão é manter o equilíbrio entre o curto e o longo prazos. A universidade tem compromisso com o País e, por isso, é preciso que o governo invista nas instituições para aumentar as fontes de financiamento para pesquisa e desenvolvimento", ensina o reitor. Aulas de mestrado a distância O que tem em comum aulas de cursos de mestrado a distância, criação de camarões e ostras e treinamento de empregados em empresas de transporte rodoviário? Todos eles são bem-sucedidos projetos da Universidade Federal de Santa Catarina. A 300 quilômetros de distância do campus da UFSC, em Curitiba, funcionários da Equitel - empresa controlada pela Siemens que produz equipamentos de telecomunicação - têm aulas de mestrado em engenharia na primeira experiência de universidade virtual do País. A universidade também fechou um acordo semelhante com a Petrobrás. A idéia é utilizar os mais modernos meios de comunicação já disponíveis para difundir conhecimento. No caso do Laboratório de Ensino a Distância, são utilizados recursos de videoconferência. Instalados numa sala de aula virtual da UFSC e nas empresas, eles permitem a comunicação entre o professor e os alunos. A transmissão de imagem e som é feita por linha telefônica. O curso para a Equitel existe desde agosto do ano passado, e o da Petrobrás começou em 1997. Usando uma rede de fibra óptica disponível em praticamente todo o estado, a UFSC pretende, agora, levar o curso para outras universidades no interior do estado, numa experiência pioneira. Ainda dentro do conceito de ensino a distância, o curso de Engenharia da UFSC oferece cursos de treinamento de pessoal, por antena parabólica. Um dos que chamaram mais a atenção foi feito com empregados de 1.800 empresas de transporte rodoviário de todo o País. A partir de um convênio com a Confederação Nacional de Empresas de Transporte (CNET) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat), a UFSC produziu fitas e apostilas para cursos transmitidos por satélite. Recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que farão o Censo Empresarial, também receberam esse tipo de treinamento. Um dos projetos sociais da UFSC que chamam a atenção são os que incentivam a criação de camarões e ostras em determinadas localidades da costa do estado. A partir da intensificação da atividade turística e com a ocupação e loteamento de praias antes desconhecidas, pequenos pescadores estavam tendo dificuldades para sobreviver da pesca. Com o auxílio de pesquisadores da universidade, esses pescadores conseguiram aumentar sua produção e seus ganhos, além de não serem forçados a abandonar seus locais de trabalho. Na área de saúde, a universidade testou cientificamente medicamentos feitos a partir de ervas naturais pelo Laboratório Catarinense, de Joinville, um dos mais tradicionais do estado, comprovando sua eficácia e também atua na manutenção de equipamentos hospitalares. Neste caso, os equipamentos são testados no Hospital Universitário. A meta da universidade, nessa área, é fazer convênio com a Secretaria Estadual de Saúde para fazer o mesmo tipo de trabalho nos hospitais públicos, diz o reitor Rodolfo Joaquim Pinto da Luz. (S.G.) "O Brasil perdeu um pouco de tempo" Severino Góes - Florianópolis A interação universidade-empresa demorou para acontecer no País As universidades precisam adaptar-se ao ritmo da economia globalizada e oferecer ao mercado profissionais capazes de responder aos desafios de fazer frente aos novos desafios que os países vão enfrentar, daqui em diante. "Se fizermos isso, criaremos as pontes que vão possibilitar uma interação mais azeitada entre o setor empresarial e as universidades", disse à Gazeta Mercantil Latino-Americana o secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação do Brasil, Abílio Baeta Neves. Ele representou o ministro Paulo Renato Souza no seminário Interação Universidade-Empresa no Mercosul, realizado na semana passada em Florianópolis. Gazeta Mercantil Latino-Americana - Qual a importância da interação entre universidades e empresas? Abílio Bacia Neves - A importância é ampla e enorme. Ou seja, nós lemos hoje um quadro de desafio ao desenvolvimento nacional e ao desenvolvimento regional que supõe cada vez mais aquilo que já está universalizado, que é uma perfeita integração e amplo trânsito entre as instâncias que produzem conhecimento, que formam recursos humanos, que desenvolvem tecnologias, e o setor que ativa e que dinamiza a economia. Essa conversa de que o final do século é marcado não só por uma sociedade cada vez mais globalizada, competitiva e que essa competição está fundamentalmente ancorada na disponibilidade e no aproveitamento de conhecimentos que se renovam rapidamente na forma de tecnologia é verdade. O Brasil está nessa. O Brasil perdeu um pouco de tempo, eu diria, mas agora nós conseguimos vislumbrar sinais muito mais favoráveis de mobilização e de articulação conjunta do que nós fazemos, por um lado, de um setor educacional universitário de pesquiso c, de outro, a expectativa do setor econômico e empresarial. GMLA- Isso se deu por conta exclusivamente da globalização da economia? Neves- São conhecidas historicamente as relações entre a produção de conhecimento e desenvolvimento econômico. O capitalismo traz isso, forçou isso e é marcado por isso desde sua origem. E evidente que hoje o cenário é de intensíssima competição, e as chances de sucesso de desenvolvimento nacional estão postos na sua capacidade de lidar com esse inundo. GMLA- O processo de interação então é fundamental? Neves- Sim. E nós estamos mais do que aquilo que marcou o desenvolvimento econômico capitalista nos últimos duzentos anos; o que temos hoje é uma aceleração do ritmo de produção do conhecimento, de absorção do conhecimento e transformação disso em inovação tecnológica: vale dizer, em solução econômica e recurso de competição brutal. E aí temos que dar um jeito de saber mobilizar e ampliar nossos recursos humanos e tecnológicos, a capacidade de produção de conhecimento e articular isso com a dinâmica econômica para poder dar saltos e produzir qualidade. GMLA- Como o Mercosul se insere nesse processo? Neves- O Mercosul já é uma tentativa e um outro alento de dar uma outra chance num outro patamar para as economias e as sociedades da região. A formação de um bloco que se pretende capaz de ampliar enormemente a possibilidade de inserção competitivo vitorioso dos países desta região no cenário internacional. Já paro essa motivação fundamental que está na raiz do Mercosul, de novo solto à vista a necessidade de se dor ênfase a essa relação entre o nosso sistema de produção de conhecimento e a formação de recursos humanos altamente qualificados e à economia e às políticas de desenvolvimento econômico. GMLA- Como se dá a interação entre empresas e universidades nos países do Mercosul, que tem economias diferentes? Neves- Historicamente, o formação industrial e econômica dos países da América Latina seguiu um pouco uma rota contrária à dos países de desenvolvimento original do capitalismo. Nós substituímos importações, nós importamos, houve muitos espaços de avanços econômicos com a absorção de soluções tecnológicas importadas. Isto continua no horizonte de nossas relações internacionais, ainda está aí. Só que nós já sabemos que precisamos agregar valor aos nossos produtos. Já há uma movimentação mesmo dos grandes empresas multinacionais no sentido de buscar parcerias e tentar resolver porte dos problemas que elas tradicionalmente resolveriam nas suas matrizes, com soluções locais e regionalmente. É uma oportunidade e um cenário favorável para que nós possamos de fato - se soubermos e tivermos a competência de identificar os nichos onde se deve fazer esse investimento com melhor chance de resultado -fazer uma grande articulação entre recursos humanos, produção de conhecimento, dinâmica econômica, de tal modo que se consiga consolidar,com alto teor de tecnologia, alguns segmentos, que nos dirijam à competição internacional. GMLA- Quais são as principais barreiras a serem transpostas para a efetiva interação entre empresas e universidades? Neves- O recurso humano básico que o universidade forma que é o profissional, tem que estar mais sintonizado com a expectativa que o mercado requer. O mercado quer gente com capacidade de mudança, de adaptação. O profissional de tiro curto, que a cada mudança de cenário tem que se reciclar, não dá mais. A universidade está abrindo o.s olhos para, no nível da graduação, ler uma atenção maior para essas mudanças. Ainda temos na universidade uma formação básica muito convencionai que tem que ser alterada. Se fizermos isso, criaremos as pontes que vão possibilitar uma interação mais azeitada entre o setor empresarial e as universidades. É preciso oferecer ao mercado, profissionais polivalentes, que serão os profissionais que manterão a porta aberta para uma relação mais forte entre universidades e empresas.