Notícia

Gazeta de Limeira

Rejeição em enxertias

Publicado em 24 junho 2000

Por ARY APPARECIDO SALIBE
O convite era de causar espanto a qualquer profissional da engenharia agronômica. Fazer uma palestra para, os médicos do curso de Pós-graduação em Cirurgia Experimental da UNESP. O autor do convite era o Dr. William Saad Hosne, um dos professores criadores da Faculdade de Medicina, cientista brilhante e que por muitos anos foi diretor científico da FAPESP, a poderosa Fundação de\ Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Argumentei que ele queria misturar "alhos com bugalhos", mas o Dr. Saad simplesmente respondeu que o convite era irrecusável e marcou a data da palestra para a semana seguinte. Escolhi como tema de aula, o curioso fenômeno da rejeição em enxertias de citros. É um tipo de desarmonia ou incompatibilidade de natureza fisiológica que ocorre nas plantas, quando se enxerta borbulhas de algumas variedades sobre certos porta-enxertos. O desenvolvimento das mudas de início parece normal, mas na linha de união dos dois tecidos, aparecem pequenos pontos de goma escura que vão crescendo e coalescendo até a formação de uma linha de tecido necrosado, que circunda o tronco da planta. O fenômeno pode acontecer 6 a 7 meses após a enxertia ou tardar 5 a 6 anos para se manifestar dependendo da combinação estiônica. É como se os tecidos do porta-enxerto rejeitassem os tecidos da copa. As plantas doentes podem morrer ou permanecerem anãs no pomar, com baixa produtividade. O porta-enxerto de trifoliata e seus híbridos rejeitam as copas de laranjas Pêra e Shamouti, de limões Eureca e Siciliano, de tangerina Murcote, de lima de Umbigo e de cidra Doce. O cavalo de limão Volkameriano rejeita as copas de laranjas Pêra e Serrana. \ Há muitos outros casos conhecidos de convivência não-harmônica na citricultura. Todas elas, é claro, devem ser evitadas nos pomares comerciais. Toda a palestra foi fartamente documentada, com a projeção de dispositivos coloridos, mostrando os sintomas da rejeição da fase inicial até a gravidade máxima. Nisso, um dos alunos levantou a voz para dizer: "Professor, sua descrição da rejeição de tecidos na enxertia de citros é muito semelhante a que o Dr. Zerbini nos relatou o mês passado, em sua palestra sobre rejeição nos transplantes de coração". Entendi, que tinham gostado de minha exposição. Tempos depois, os professores da Medicina, endossaram a inclusão de meu nome na lista tríplice, submetida ao Governador do Estado, para escolha do novo diretor da Faculdade.