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Regras do futebol tem plasticidade por serem representações sociais

Publicado em 14 janeiro 2009

Por Alex Sander Alcântara, da Agência Fapesp

Quando o assunto é futebol, o foco se centra nos times, nas habilidades individuais dos jogadores e no caráter espontâneo que dão ao público – pelo menos é o que sempre se espera – o futebol-arte. Ou seja, a ênfase está no processo de formação das representações em torno do esporte.

Mas, de acordo com um estudo publicado na revista Horizontes Antropológicos, que analisou as regras do futebol, as disposições para a prática do esporte como arte ou espetáculo deveriam ser observadas para além das faculdades da sensibilidade.

De acordo com o autor do artigo, o antropólogo Luiz Henrique de Toledo, professor adjunto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), as regras possuem plasticidade simbólica, por serem também representações sociais.

Ao analisar as regras, abre-se a possibilidade, segundo ele, de uma “abordagem conceitual mais plural, no sentido de verificar os limites, os alcances e as opções que estão na base de algumas das interpretações mais correntes”.

“As representações em torno do futebol partem da percepção imediata da sensibilidade que se traduz na disposição corporal para o jogo, mas elas estão também em outras regiões para além da prática, isto é, nas regras”, disse à Agência FAPESP.

O pesquisador aponta que a análise das regras é um tema muito rentoso do ponto de vista antropológico porque não parte de representações já cristalizadas, dos fatos já dados. “As regras não formariam um lugar seguro e objeto somente de especulação juralista, devem, isso sim, ser vistas como relações sociais na forma comprimida”, disse.

“As regras do futebol chegaram aqui praticamente com o esporte e, como em outros lugares, foram aclimatadas à configuração sociológica local, recebendo interpretação original a alguns de seus preceitos”, apontou o autor do livro Lógicas no futebol (Hucitec, 2002), publicado com apoio da FAPESP.

Toledo cita como exemplo a interpretação sobre o “tranco na disputa da bola”, recurso legítimo que, no Brasil, foi durante muito tempo pouco valorizado.

Segundo ele, não faltaram advertências da crônica esportiva desde os anos 1930, que condenavam o uso vigoroso do corpo na disputa pela bola, visto como um defeito grave dos praticantes e fator que condenava o futebol brasileiro diante das disputas internacionais.

“A elite desportista, ainda presa aos desígnios de um processo de civilização que censurava o uso do corpo como linguagem, o condenava como simples falta de decoro; de outro lado, muitos desportistas oriundos das classes populares, sobretudo de origem negra, esquivavam-se ou evitavam o uso do tranco, pois o enfrentamento direto com os possíveis egressos das elites em campo de jogo multiplicava ainda mais as formas do preconceito, agora transfiguradas no domínio dos embates esportivos”, explicou.

“Mas essa recusa em jogar com mais virilidade corporal, ou seja, uma leitura ou interpretação errônea da regra, pode ter estimulado um uso mais original do corpo no trato da bola e introduzido novos intervenientes no jogo, como o drible”, disse.

Futebol-arte

O estudo elencou 17 regras que viabilizam uma partida de futebol tanto do ponto de vista competitivo como da fruição estética. Para a análise, o autor utilizou sumários de livros de regras e manuais de arbitragem.

“Nos sumários, as regras aparecem condensadas e fiquei curioso em saber como poderia reagrupá-las em um sentido mais sociológico, quer dizer, tirá-las do descanso da reificação a que são submetidas, dissolvê-las novamente no fluxo da vida e trazê-las para o interior da dinâmica social. As regras estão para além do formalismo da sua escrita e para além da internalização e explicação mecânicas, tais como aparecem aludidas no senso comum”, disse.

De acordo com o pesquisador, pesquisas anteriores pouco problematizaram o tema, que tem sido tratado com metáforas de outros tipos de regras, como as que prescrevem a dinâmica na política, por exemplo.

“Nesse sentido, as regras condensariam historicidades, processos e simbolizações e uma aproximação desses preceitos ao mundo das ações sociais, do vivido e das classificações simbólicas dentro do campo esportivo as tornaria menos suscetíveis às frequentes reificações a que são submetidas”, disse.

Para Toledo, é preciso ampliar o olhar em torno dessa poderosa narrativa sobre a representação em torno do futebol-arte. “Para pensar nessas representações que mobilizam grande parte, senão todo o discurso em torno do futebol jogado no Brasil, abordado como uma construção imaginativa poderosa, precisamos problematizar a noção de que ele viceja somente por intermédio da destreza, inclinação ou suposta ‘qualidade inata’ que revelamos na prática desse esporte”, destacou.

Para ler o artigo Jogo livre: analogias em torno das 17 regras do futebol, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), acesse o arquivo em pdf no alto da página.

(Envolverde/Agência Fapesp)