Notícia

Gazeta Mercantil

Registro de domínios vira negócio no Brasil

Publicado em 15 janeiro 2001

Por Rachel Cardoso e Rosi Rico - de São Paulo
Peça para identificar no mapa onde ficam países como Laos ou Tuvalu e dificilmente alguém acertará. Mas, na internet, muitas empresas estão ganhando dinheiro com localidades consideradas exóticas. E não se trata de turismo. O Laos tem a terminação ".la" em endereços da web, da mesma forma que o Brasil é dono do ".br". São os chamados domínios. Interessados em registrar um domínio como "silva.la" - para operações na" América Latina (Latin America, ou, Ia, em inglês) - têm de pagar por ele. É aí que entram companhias como a norte-americana Bulk Register, que cobra para fazer o registro. A atividade, ainda pouco conhecida no País, tem atraído um número crescente de empresas. Até domínios ".com.br" estão entre as ofertas. No mercado global, existem hoje 131 empresas competindo na área. O negócio parece ser tão promissor, que as candidatas a operadoras do sistema de registro de domínios chegam a pagar US$ 50 mil somente pela inscrição no "vestibular" do órgão responsável pela regulamentação do serviço nos Estados Unidos, a Corporação de Internet para Assinaturas de Nomes e Números (ICANN, na sigla em inglês). No Brasil, as regras são outras. Em 1990, o Comitê Gestor de Internet (CG) - ligado aos ministérios ; das Comunicações e Ciência e Tecnologia - autorizou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a controlar todo o negócio de registros com a extensão .br. O dinheiro arrecadado fica 'com o CG, que repassa uma verba de R$ 60 mil mensais à Fapesp. A chegada ao Brasil de companhias como a BulkRegister.com, WRegister e Domainnames, pode esquentar a polêmica discussão em torno do monopólio da Fapesp. "Há uma pressão das empresas para o fim da centralização", diz um dos conselheiros do CG, Raphael Mandarino. Para a vice-presidente da Bulk, Cristiana Parada, a abertura do mercado reduziria os custos e possibilitaria a melhora na qualidade dos serviços. A opinião é compartilhada pelo presidente e CEO da CertiSign, Mareio Liberbaum. Controlada pelo grupo VeriSign, a CertiSign vai abrir, em março, uma subsidiária brasileira da Network Solutions, uma das maiores operadoras de registros dos Estados Unidos. Há um ano, a empresa foi comprada pela VeriSign, que pagou mais de US$ 22 bilhões. Segundo Liberbaum, no próximo mês, a CertiSign vai pleitear junto ao CG o direito de negociar diretamente os registros com.br e .org.br. Enquanto as mudanças não ocorrem, a proposta da Bulk, que vende também os domínios .net, .com e .org, é intermediar a operação do .br. É o que já faz a inglesa Domainnames, que fatura US$ 100 milhões ao ano. "Os intermediários encarecem o processo", diz Mandarino. Mas, afinal, quanto custa registrar um domínio? Na Fapesp, até dezembro, era preciso pagar R$ 50 pelo registro e mais uma anuidade de R$ 50. Na semana passada, as taxas caíram para R$ 40. Antes de liberá-los, porém, o requerente deve ter uma infra-estrutrura básica de armazenamento dos dados do endereço eletrônico. É o chamado DNS (na sigla em inglês). "Na prática, é preciso um provedor para hospedar o site, mesmo sem usá-lo", diz Cristiana. Para atrair o consumidor, companhias como a Bulk e a Domainnames oferecem pacotes de serviços, que incluem a hospedagem dos sites. Na Domainnames, o cliente paga R$ 199 no primeiro ano, e tem direito ao registro, hospedagem e e-mail. Esse último produto tem atraído um grande número de pessoas físicas, interessadas em utilizar seu sobrenome no lugar do nome do, provedor de acesso. Por exemplo: jose@silva.com.br. Do segundo ano em diante, a taxa cai para R$ 99. Na BulkRegister, o preço é de R$ 148 por domínio, podendo diminuir para R$ 100, no caso da reserva de vários registros. A WRegister, representada no Brasil pela Registrei.com, negocia apenas as extensões .com, .org, .net e ,tv e cobra US$ 35 por domínio. A hospedagem do DSN é feita pela parceira Marca Virtual, consultoria que oferece o serviço de graça. Segundo o sócio-diretor da Registrei.com, Rodrigo Cançado, a empresa não pretende intermediar o processo de registro da extensão .br. "Não vale a pena", diz Cançado. "Para o cliente, seria como pagar um despachante". Além do preço, as operadoras enfrentam outro obstáculo: a falta de informação. Os usuários não sabem que podem utilizar, mesmo para fins comerciais, extensões alternativas como .odo.br para profissionais liberais. No total, são 54 diferentes opções negociadas pela Fapesp. A predominância do .com.br é visível: dos 362 mil registros feitos no ano passado, 92% levam essa extensão. No mercado mundial, as alternativas foram ampliadas pelo ICANN, que aprovou o uso de sete novas extensões, como, por exemplo, .biz, para sites de negócios. No Brasil, a mais nova opção de registro é o ".Ia", negociada pela Bulk, que cobra R$ 1.015 pelo serviço. Entre os que já reservaram estão Visa e Unilever. A primeira preocupação dessas empresas é preservar suas marcas de eventuais disputas jurídicas. Há também as metas de expansão. A Visa prepara site em espanhol com essa extensão. E difícil calcular quanto movimenta o mercado brasileiro. O CG arrecada, somente com a taxa de manutenção dos atuais registros, cerca de R$ 18 milhões. Há ainda, a tarifa de inscrição e os novos clientes - uma média de 23 mil por mês. O número de registros no Brasil ainda é considerado baixo. "O potencial do País é muito maior", diz Liberbaum, da CertiSign. Para os curiosos, Laos fica na Ásia, próximo ao Vietnã e Tuvalu é uma ilha do Oceano Pacífico. Ambos venderam o direito de uso das extensões para empresas privadas. RESERVA DE MARCAS A Demarcas chega hoje ao Brasil disposta a intermediar, via internet, o processo de busca e registro de marcas entre empresas e pessoas físicas e o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (IN-PI). A companhia, com atuação na Argentina, na Venezuela e no Uruguai, tem metas ambiciosas: registrar mil marcas no primeiro ano de atividades e, em cinco anos, conquistar 20% do mercado brasileiro, que mantém uma média de 80 mil marcas reservadas ao ano. Avantagem da empresa, segundo o presidente da Demarcas no Brasil, Ariovaldo Ribeiro, seria o pioneirismo. "Somos os primeiros a oferecer este serviço". Hoje, os interessados precisam procurar um despachante ou tratar do assunto diretamente no INPI. Desenvolvida pela Demarcas, a ferramenta de busca, usa o banco de dados do INPI e permite a verificação, por meio de similaridade fonética e ortográfica, do nome sugerido em outros mercados da América Latina. Esse serviço é gratuito. A cobrança é feita quando o pedido de registro é enviado ao INPI. O instituto cobra uma taxa, que varia entre R$ 98,50 e R$ 197, quando a solicitação é encaminhada. Depois da aprovação, é cobrada outra tarifa, entre R$ 164,50 e R$329. Os interessados também precisam pagar duas taxas à Demarca: R$ 250 no momento em que o pedido é entregue ao INPI e outros R$ 166, quando o registro da marca é aprovado. O preço inclui os honorários da equipe jurídica que acompanha todo o processo. Com investimentos de US$ 1,5 milhão na América Latina, a Demarcas estreou na Argentina em setembro. Até março, a empresa vai estar presente também no Chile e no México. Os planos incluem ainda a expansão para Ásia, Europa e Estados Unidos. "Estamos negociando um aporte de US$ 3 milhões", diz Ribeiro.