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Regionais - Quais os riscos das toxinas fúngicas encontradas na farinha e no arroz por pesquisadores da USP? (38 notícias)

Publicado em 18 de julho de 2024

Análise de amostras em casas de Ribeirão Preto identificou níveis elevados até mesmo de substâncias com potencial carcinogênico

Uma análise de amostras de farinha e arroz de casas de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, encontrou quantidades elevadas de toxinas fúngicas, que podem ser nocivas à saúde. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi publicado na revista científica Food Research International.

Para a pesquisa, foram selecionadas 230 amostras dos alimentos que estavam armazenadas nos domicílios de 67 crianças: 21 delas com idades entre 3 e 6 anos; 15 entre 7 e 10 anos e 31 adolescentes de 11 a 17 anos. O material foi coletado entre agosto e dezembro de 2022. Os responsáveis não detalharam as marcas dos produtos.

O coordenador do estudo, Carlos Augusto Fernandes de Oliveira, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), explicou à Agência FAPESP que existem mais de 400 toxinas produzidas por fungos, mas algumas são de maior preocupação:

— Seis delas, as quais chamamos de meninas superpoderosas, requerem mais atenção por serem carcinogênicas, imunossupressoras ou por atuarem como disruptores endócrinos. É algo que demanda muita atenção pelos seus efeitos prejudiciais à saúde.

São elas as aflatoxinas (AFs), as fumonisinas (FBs), a zearalenona (ZEN), a toxina T-2, a desoxinivalenol (DON) e a ocratoxina A (OTA). Os resultados da análise dos pesquisadores encontraram a presença das seis toxinas em todas as amostras avaliadas.

Além disso, identificou taxas acima do limite de tolerância estabelecido pelos órgãos de saúde para três delas: FBs, ZEN e DON. E cerca de 1 a cada 3 alimentos (32,86%) tinha de duas a quatro combinações de toxinas em quantidades elevadas.

Os autores do estudo afirmam que a exposição a essas substâncias por meio da alimentação pode aumentar o risco de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes. Por isso, reforçam a importância do armazenamento de alimentos como grãos e farinhas em locais secos e protegidos de insetos para evitar a contaminação.

— Todos os microrganismos, incluindo os fungos, necessitam do chamado ‘binômio temperatura e tempo' para se desenvolver em um substrato. Portanto, quanto mais tempo um alimento contendo fungos toxigênicos ficar armazenado em condições inadequadas, por exemplo, exposto ao ambiente, desprotegido, em local quente e úmido, maior a probabilidade de haver altas concentrações de micotoxinas — alertou Oliveira.

QUAIS OS RISCOS DAS TOXINAS?

Entre as toxinas encontradas na análise, o pesquisador destaca que a aflatoxina B1, descoberta na década de 1960, é aquela com o maior potencial carcinogênico natural conhecido. Segundo o cientista, ela pode induzir danos no DNA que levam a mutações genéticas ligadas ao câncer de fígado.

Além disso, foi associada a um impacto no sistema imunológico, a problemas reprodutivos e à teratogênese, quando gestantes ou pessoas em amamentação transferem as toxinas para o embrião, feto ou criança, causando problemas de saúde nele.

— Não existe nenhuma substância conhecida pelo homem na natureza que tenha o poder cancerígeno dessa micotoxina, só raras exceções criadas em laboratório — contou o pesquisador.

A ocratoxina A também é uma toxina considerada carcinogênica, assim como a fumonisina B1, que foi uma das três encontradas em altas taxas na análise. A substância já foi ligada a tumores no esôfago e outros problemas no fígado.

Outra toxina cuja quantidade foi elevada na pesquisa, a desoxinivalenol não é ligada ao câncer, mas associada a uma redução da imunidade em pessoas contaminadas, disse o professor da USP: — Ela também tem efeito no sistema gastrointestinal. Nos animais, por exemplo, ela provoca tanta irritação que eles regurgitam. Por isso, ela é vulgarmente chamada de vomitoxina.

Já a zearalenona, terceira toxina que teve os maiores níveis na análise, possui uma estrutura idêntica à do estrógeno, o que pode levar a problemas de saúde relacionados ao excesso do hormônio feminino no organismo.

— Elas têm efeito progressivo. Isso quer dizer, por exemplo, que, com a exposição a moléculas de B1, em algum momento não será mais possível reparar o DNA que foi lesado pela micotoxina. É a partir daí que pode surgir o câncer. Por isso, a nossa preocupação com crianças e adolescentes, que tendem a ser mais sensíveis a toxinas em geral — explicou o coordenador do trabalho.

O grupo responsável pela pesquisa realiza agora uma segunda etapa para investigar em mais detalhes o grau de contaminação por meio de amostras de urina das crianças e adolescentes que vivem na região. — Com isso poderemos antever potenciais efeitos da contaminação — afirmou Oliveira.

Fonte: O Globo