Notícia

Folha da Região (Araçatuba, SP)

Região pode sofrer desertificação

Publicado em 23 agosto 2009

O solo da região de Araçatuba é propenso ao processo de desertificação e o índice de vegetação nativa é um dos mais críticos no Estado de São Paulo. Nos últimos dez anos a área com alto potencial de erosão na região de Araçatuba aumentou consideravelmente.

Essa é a conclusão do documento elaborado pelo engenheiro eletricista e doutorando Renato Mikio Nakagomi feito dentro do PIR (Planejamento Integrado de Recursos Energéticos), uma parceria estabelecida entre a Cooperhidro (Cooperativa do Polo Hidroviário de Araçatuba) e a USP (Universidade de São Paulo), com apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo).

O estudo se concentrou em avaliar o clima, a alteração na vegetação e a vulnerabilidade do solo da região para mensurar o nível de desertificação e sua potencialidade. A conclusão é que o processo de arenização do solo na região de Araçatuba é inerente às suas qualidades geomorfológicas. A formação do solo da região é predominantemente arenítica, o que facilita o processo de arenização, pois o tipo de solo é favorável ao desgaste e à erosão.

Para frear esse processo, no entanto, é preciso implantar as boas práticas agrícolas e investir no plantio direto, técnica que aumenta o teor de matéria orgânica no solo, deixando-o menos suscetível ao processo de erosão.

"A distribuição das classes de criticidade potencial à erosão na Bacia do Baixo Tietê revelou que cerca de 70% da área total da bacia corresponde a áreas com alto grau de criticidade; cerca de 25% da bacia corresponde a terrenos com médio grau de criticidade e aproximadamente 5% a terrenos com baixo grau de criticidade", cita o estudo. A área da Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê é citada como referencial, pois aproximadamente 81% da área da bacia é ocupada pela região administrativa de Araçatuba.

"A Bacia do Baixo Tietê encontra-se em acelerado processo de degradação por processos erosivos. Os resultados obtidos revelaram que das 33 sub-bacias do Baixo Tietê, 20 estão muito degradadas (66,6%), dez estão degradadas (30,3%) e três (9,1%) estão pouco degradadas".

Pelo estudo, é possível notar que de 1999 a 2008 houve uma mudança significativa no nível de potencialidade natural à erosão na região. A área de risco médio, bastante predominante em 1999, cedeu espaço a um nível mais alto em 2008. Nesse mesmo período, as regiões de mata não sofreram alterações perceptíveis. No entanto, a cobertura vegetal mudou drasticamente quando se compara a área de pastagens e cultivo de cana-de-açúcar em 1999 e 2008. A área de pastagens, que ocupava a maior parte das áreas da região em 1999 foi intensamente substituída pelo cultivo de cana.

Segundo a geóloga Marli Torres, pode-se afirmar que hoje o solo da região está em melhores condições quando comparado a algumas décadas. "Temos um movimento contrário ao do passado. Hoje tratamos o solo no contexto que ele merece ser enfocado. O respeito não é apenas pelo solo, mas nos ecossistemas como um todo", diz. Para a geóloga, a tendência é uma mudança na consciência e prática. "É importante salientar que houve um despertar para as boas práticas e isso está se consolidando", diz.

Índice de vegetação nativa é de 4% na região

O trabalho alerta ainda para o baixo índice de vegetação nativa na área da Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê. Apenas 4,48% da área é ocupada por vegetação nativa, o correspondente a uma área de 85.701 hectares. O índice é um dos mais críticos no Estado de São Paulo.

Apenas duas outras bacias (Bacias do rio São José dos Dourados e do rio do Peixe), encontram-se em situação mais críticas em termos de preservação da cobertura vegetal nativa, com índices de 2,92% e 4,23%, respectivamente. O fato ratifica a teoria de possibilidade da desertificação da região de Araçatuba, pois a diminuição da área coberta por vegetação aumenta a temperatura do solo, provocando graves consequências no longo prazo.

Denúncias

O EDA (Escritório de Desenvolvimento Agropecuária) de Araçatuba é responsável por vistoriar as denúncias sobre erosão laminar, sulco ou voçoroca em propriedades rurais da região. A aplicação das multas segue a Lei do Solo.

As denúncias devem ser feitas por escrito e protocoladas no EDA de Araçatuba, que fica na rua Alcides Fagundes Chagas, 600, dentro do Recinto de Exposições Clibas de Almeida Prado de Araçatuba. O EDA atende de segunda a sexta-feira das 7h30 às 11h30 e das 13h às 17h.

Ação do homem pode frear processo

As modificações provocadas pelo homem no meio ambiente, chamada de ação antrópica, conforme o estudo, acelera o processo de desertificação. No entanto, a geóloga Marli Torres, lembra que a ação antrópica não pode ser vista apenas do aspecto negativo. "A ação do homem pode vir para o bem ou para o mal. O homem pode controlar a ação por meio de balizas ou melhorar as condições atuais, respeitando as características do solo na região", ressalta.

Para Marli, o cuidado com o solo não significa uma trava ao desenvolvimento. "É preciso bom senso para que as questões ambientais não funcionem como um bloqueador do desenvolvimento econômico. E hoje temos técnicas e tecnologias suficientes para uma interação positiva", afirma.

Segundo o diretor do EDR (Escritório de Desenvolvimento Rural) de Araçatuba, Marcelo Moimás, a principal tecnologia para a conservação do solo é o sistema de plantio direto, que já começou a ser adotado por produtores de grãos na região. "Grande parte do processo de erosão ocorre em virtude da desagregação da terra. No plantio tradicional, a terra é revolvida, o que deixa o solo mais quente e desprotegido. Esse sistema foi importado da Europa, onde faz frio. Aqui não precisamos esquentar a terra para germinar as culturas, pois o clima é quente", explica. No plantio direto, a matéria orgânica é preservada, o que faz o solo esquentar menos. A técnica começou a ser implantada na região na década de 90. No entanto, a preocupação é com a cultura da cana-de-açúcar, que ocupa a maior área em extensão na região.

"O ciclo da cana é de seis anos e a cultura fica por muitos anos na terra, que precisa de adubos e herbicidas em grande quantidade. É preciso fazer o plantio direto e a rotação de culturas ou o solo fica pobre do ponto de vista biológico", conclui.

Programa já corrigiu 24 voçorocas

Por meio do programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, executado pela Cati (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) e apoiado pelo Banco Mundial, 24 voçorocas na região do EDR (Escritório de Desenvolvimento Rural) - que abrange 18 municípios - foram corrigidas. A voçoroca é um fenômeno geológico em estágio mais avançado do que a erosão. Ele consiste na formação de grandes buracos, causados pela chuva e intempéries, em solos onde a vegetação é escassa e não há proteção, por isso pode influenciar na tendência de desertificação.

A prevenção da voçoroca é feita com o plantio de árvores, que impede a ação dos fenômenos naturais. Em uma política de prevenção, o programa financiou o plantio de 337 mil mudas na região, em áreas de APP (áreas de preservação permanente) e o terraceamento - técnica agrícola utilizada em terrenos de alto declive, desenvolvida ao longo das curvas de nível - em 4.165 hectares de terra. Segundo o diretor do EDR (Escritório de Desenvolvimento Rural) de Araçatuba, Marcelo Moimás, as usinas implantadas na região corrigiram dezenas de voçorocas na região, pois o problema é incompatível com a mecanização da colheita, o que também contribuiu para a melhoria do solo na região. Mas ainda é possível encontrar áreas em processo de erosão e voçorocas, como a flagrada em Santo Antônio do Aracanguá.

Microbacias

O programa de incentivo e subvenção teve como público-alvo micros e pequenos produtores rurais e a premissa de viabilizar a produção agrícola sem agredir o meio ambiente. Foi lançado em 1998, mas começou a ser implantado entre 2001 e 2002 e terminou no ano passado. Um novo programa está sendo formatado. É o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável: Acesso ao Mercado, mais conhecido como Microbacias 2, cujo foco será a geração de emprego e renda.