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Regeneração pelo cálcio

Publicado em 05 março 2007

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Maria de Fátima Leite, professora da UFMG, desvenda influência do íon cálcio no mecanismo de regeneração das células do fígado e recebe apoio do Instituto Howard Hughes para continuar a pesquisa

Um grupo de cientistas coordenado por Maria de Fátima Leite, professora do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ganhou notoriedade internacional em 2003 ao participar da descoberta, ao lado de pesquisadores dos EUA, de uma organela celular desconhecida — o retículo nucleoplasmático — que armazena e regula a liberação de íons cálcio (Ca2+) dentro do núcleo das células.
Nos próximos cinco anos, a equipe mineira se dedicará a um trabalho ainda mais ambicioso: desvendar a influência do cálcio do núcleo na regeneração das células hepáticas. Fátima foi nomeada, em uma concorrida seleção internacional, pesquisadora do Instituto Médico Howard Hughes (HHMI, na sigla em inglês), dos EUA, que destinou a seu projeto recursos da ordem de US$ 500 mil.
A cientista estuda o cálcio intracelular há cerca de oito anos, quando voltou de seu pós-doutorado na Escola Médica da Universidade de Yale, nos EUA. O novo trabalho poderá ter aplicações tanto nos tratamentos de doenças hepáticas e transplantes como no controle do crescimento celular anormal relacionado ao câncer.
O cálcio, presente em todas as células do corpo humano, é um importante mensageiro intracelular. Ele regula diferentes respostas como contração, secreção hormonal, morte, multiplicação e diferenciação celular. O que os pesquisadores descobriram foi que o cálcio realizava uma função diferente conforme o local em que se encontrava na célula.
"Quando descobrimos o retículo nucleoplasmático entendemos que se tratava de uma maquinaria sofisticada, que libera o cálcio para funções distintas. Nosso último estudo mostra que é o cálcio do núcleo da célula que está relacionado com a regeneração das células do fígado. Esse trabalho está sendo revisado para publicação, em breve, na revista Science", disse a cientista à "Agência Fapesp".
Segundo Fátima, quando o fígado sofre uma lesão, o organismo libera o fator de crescimento hepático (HGF). Ele se liga a um receptor e gera uma molécula que desencadeia a liberação de cálcio no compartimento intranuclear. "Nossa hipótese é que, ao elevar o teor de cálcio no núcleo, esse mecanismo favorece a regeneração celular", disse.
Assim como na ocasião da descoberta da nova organela celular, o trabalho do grupo poderá mudar os livros de biologia. "Estamos propondo um mecanismo bastante diferente daquele que é aceito hoje sobre como o receptor modula o sinal dentro da célula. Mas só podemos dar mais detalhes após a publicação", disse a bióloga.
Além do trabalho com foco na regeneração celular no fígado, o grupo também desenvolve pesquisa sobre células cancerígenas. "Mostramos que quando se bloqueia o cálcio no núcleo da célula, o tumor cresce menos. Já testamos o processo em experimentos in vitro e em animais", explicou.
O desenvolvimento da pesquisa poderá levar, segundo Fátima, a diversas aplicações médicas. Uma delas seria acelerar o processo de regeneração hepática, facilitando tratamentos de doenças hepáticas e melhorando os processos de transplante. "Saber exatamente onde e como o mecanismo atua é fundamental para definirmos melhor os alvos para terapia", afirmou.

Uma seleção rigorosa
Mais de 500 candidatos participaram da seleção do Instituto Médico Howard Hughes para auxiliar pesquisas na área biomédica da América Latina e do Canadá. Além da pesquisadora brasileira, outros 38 cientistas foram selecionados.
Além de receber apoio financeiro, os selecionados participam anualmente de reuniões na sede do instituto. "É uma grande honra e uma grande oportunidade fazer parte dessa academia que inclui oito prêmios Nobel nas áreas de Biomedicina e Química", disse Fátima.
Segundo a cientista, os valores serão investidos principalmente em equipamentos, suprimentos de laboratório e pagamento da equipe. "O grupo tem dez pessoas na UFMG, duas nos EUA e uma na Itália. A filosofia do HHMI é interessante porque querem que o pesquisador gaste o menor tempo possível com burocracias", afirmou.
O HHMI solicita, de acordo com Fátima, que os participantes também façam uma doação de parte dos recursos para outro tipo de pesquisa. A pesquisadora investiu na área de microscopia da UFMG. "É uma ótima idéia, pois não crescemos sozinhos. Escolhi a microscopia porque não beneficia um ou outro laboratório, mas todo o instituto", disse.

(Agência Fapesp, 5/3)