Notícia

Vale Paraibano

Reforma vai mudar universidade?

Publicado em 11 março 2007

Por Daniela Borges

PhD da Univap, Marcos Tadeu Pacheco, fala de pesquisa e políticas estáveis

O Vale do Paraíba se tornou terreno fértil para o surgimento de universidades, de olho na crescente demanda e no potencial da região.
O Ministério da Educação, atento ao crescimento do setor em âmbito nacional, lançou um plano de reformas que tramita no Congresso Nacional desde o ano passado. O projeto contempla a necessidade de expandir o sistema e preparar as instituições para receber um número cada vez maior de estudantes.
Em entrevista ao valeparaibano, o diretor do IP&D (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) da Univap e assessor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Marcos Tadeu Tavares Pacheco, atualiza as informações sobre a reforma universitária, explica o que poderá mudar para as universidades e universitários e ressalta a importância das parcerias. O engenheiro eletrônico, de 55 anos, formado pelo ITA, também é PhD pela Universidade de Southampton (Inglaterra) e professor do ITA e MIT (Estados Unidos).

Vale paraibano - O que propõe a reforma universitária?
Marcos Tadeu Tavares Pacheco - Propõe, entre outros reparos, modificações nos critérios de avaliação das universidades brasileiras, envolvendo tanto pontos relacionados à pós-graduação stricto sensu , como também ao número, qualificação e regime de trabalho do corpo docente.

VP - Qual o aspecto mais importante da reforma? Contempla iniciativas que possam inibir a evasão?
Marcos Tadeu - Considero as modificações nos critérios de avaliação das Instituições de Ensino Superior (IES) como um dos pontos mais importantes da proposta. Não vejo muitas iniciativas para inibir a evasão. Mesmo porque, este problema permeia diversas situações que fogem da alçada do MEC, como problemas sócio-econômicos.

VP - Na prática, o que pode melhorar para os interessados em cursar uma faculdade e para aqueles que já estão cursando?
Marcos Tadeu - Aprovado o projeto, deverá ser estabelecido um prazo para as universidades se adaptarem às novas exigências. Logo, não devemos esperar modificações ou melhoras rapidamente. Entretanto, algumas exigências deverão ser implementadas de imediato, pois a implantação de cursos de pós-graduação stricto sensu deve ser precedida por um processo de formação de grupos de pesquisa envolvendo docentes com qualificação de "doutor". Este ambiente certamente trará modificações benéficas de imediato, para as universidades e universitários.

VP - Como ocorre a avaliação dos cursos universitários no Brasil e a que se deve essa má qualidade do ensino?
Marcos Tadeu - Em 2004 foi instituído o Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior), que é composto de três avaliações: das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes, dentro da sinalização constitucional da indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão. A falta de qualidade dos cursos é fruto de toda política estadual e municipal de ensino. Fica difícil ter bons alunos no ensino superior quando os egressos do ciclo fundamental e médio apresentam sérias deficiências. Por outro lado, é difícil imaginar um bom ensino fundamental com o profissional recebendo salários não condizentes com suas responsabilidades. Bons professores produzem não apenas bons alunos, mas também qualidade para a instituição envolvida. Vejo a valorização do profissional do ensino como a chave para a eliminação de todos os problemas educacionais que temos.

VP - A falta de continuidade e a interrupção no processo de aprendizagem durante as mudanças de governo influenciam na qualidade, ou pesa mais a falta da experiência brasileira para lidar com este setor?
Marcos Tadeu - Temos certamente pouca experiência com o ensino universitário. Nossa universidade mais antiga não tem 80 anos, o que nos coloca na infância do desenvolvimento universitário. Políticas estáveis para o setor seriam de suma importância; planos para serem executados em 5 a 15 anos deveriam ser pensados, bem como programas apartidários que colocassem o problema da educação brasileira no mesmo nível dos problemas de segurança e saúde que temos.

VP - Para crescer, é preciso maior autonomia das universidades?
Marcos Tadeu - A autonomia universitária é fundamental para que se possa desenvolver nosso sistema de ensino superior. Claro que toda autonomia carrega consigo uma grande responsabilidade de cada IES. Acredito que políticas estáveis e sérias poderiam levar a uma melhoria de nossas universidades. Certamente, que precisamos ter mais universidades neste país; as vagas que temos disponíveis em 2006 atendem a apenas 9% do nosso contingente de brasileiros na faixa de 15 a 24 anos. Mas é importante que a nossa universidade assuma a função de não somente formar profissionais, mas também cidadãos. Passamos de algumas centenas de milhares para mais de 4 milhões de estudantes no ensino superior; mas, isso não refletiu na qualidade de nossa sociedade, que se tornou mais violenta e menos ética.

VP - Qual o papel do desenvolvimento científico na melhoria da qualidade das universidades particulares?
Marcos Tadeu - A pesquisa tem um papel maior do que simplesmente produzir produtos. Ela deve se constituir no elemento motivador de professores e alunos e, no caso do ensino superior, adquire uma importância ainda maior em função do caráter profissional desta fase.

VP - O corpo docente deve ser estimulado a se transformar em pesquisador e vice-versa?
Marcos Tadeu - O corpo docente deve ser formado por professores pesquisadores. Nos dias de hoje, com a velocidade em que as coisas mudam, seria muito ingênuo imaginar alguém transferindo conhecimento sem pesquisar na sua área. Até mesmo em áreas que não apresentam alteração de conteúdo, como na matemática, observa-se o aparecimento de novas técnicas de ensino (softwares) que têm permitido a apropriação do conteúdo de maneira muito mais eficaz.