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Reforma na estrutura curricular

Publicado em 27 janeiro 2014

Por Vivian Costa

Entre tantos pontos para se alcançar a excelência de ensino superior, as universidades brasileiras devem repensar a estrutura curricular, tendo em vista as crescentes transformações da sociedade, da economia e da cultura atual. Conceitos como flexibilidade, interconectividade, interdisciplinaridade não podem ser ignorados. O primeiro passo é reduzir a carga horária, dando condições para que os alunos estudem mais e passem menos tempo dentro da sala de aula. Durante o segundo dia do simpósio Excellence in Higher Education, especialistas disseram que a grade curricular das universidades brasileiras está defasada e precisa mudar para se adequar as necessidades atuais. O evento, que aconteceu entre os dias 23 e 24 de janeiro, foi promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC). O objetivo, segundo os especialistas, é facilitar o trânsito dos alunos pelas diversas modalidades do curso, formando assim profissionais mais generalistas.

Para Luiz Davidovich, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para alcançar a excelência é preciso inovar, mas para isso, a universidade precisa ser autocritica. Entre os desafios para que isso aconteça está o enfrentamento do conservadorismo das corporações, o conservadorismo dos colegas professores, além da baixa qualidade na educação básica, principalmente, em ciências. "Harvard adotou novas linhas de currículo, por exemplo. Em outros países, as universidades tradicionais estão liderando as mudanças. Ao contrário daqui, que quem inova são as mais novas", lamentou.

Luiz Bevilacqua, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), também concorda que as universidades precisam mudar. "O aluno não aprende indo para a sala de aula. Só aprende quem estuda. Por isso, é preciso reduzir o número de hora/aula para dar oportunidade ao aluno estudar", comentou.

José Roberto Cardoso, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), também concorda que a reformulação da grade curricular é importante. "As universidades precisam ser flexíveis para permitir que o aluno faça escolha curricular que se adapte ao seu perfil. E não ao contrário", disse.

"Todos os profissionais precisam de base para enfrentar o futuro. "Há coisas que podemos superar facilmente", disse ao citar que a faculdade de engenharia da Poli fez uma reforma no currículo de seus cursos e reduziu a carga horária. "O novo engenheiro precisa de uma formação mais abrangente e menos focada para ser capaz de se adaptar rapidamente aos novos conceitos e tecnologia", disse.

A Federal do ABC foi citada como exemplo, já que conta com uma formação curricular mais ampla desde a criação dos cursos, em 2006. A diferenciação começa pelo modo de ingresso. Alunos entram em bacharelados interdisciplinares, com currículo de três anos. No segundo quadrimestre, podem escolher disciplinas além das obrigatórias. Quem se matricula em Ciência & Tecnologia pode seguir para uma das oito Engenharias que a UFABC oferece.

Para Luiz Davidovich, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Brasil fez alguns progressos no ingresso de alunos no ensino superior, mas precisa melhorar. "O Brasil gasta mais com estudantes do ensino superior do que com os de ensino básico, quando comparamos com alguns países", disse. "Mas, por outro lado, há mais alunos matriculados na rede privada do que na pública no ensino superior", lamentou.

Para facilitar o ingresso em universidade pública, Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), exemplificou o sucesso do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (Profis), que utiliza apenas o Enem para ingresso em um de seus programas de graduação.

Ele lembrou o programa tem cumprido um papel importantíssimo de desfazer a ideia desses alunos da rede pública de que uma universidade de qualidade e de renome como a Unicamp é inatingível para eles. "Os estudantes, que geralmente desconhecem como funciona uma instituição de pesquisa, por causa do programa tem contato com experiências e com um universo desconhecido."

Pesquisas

Ao citar os desafios para alcançar a excelência em pesquisa, Davidovich disse que embora a produção científica brasileira tenha crescido nos últimos anos, o impacto dos artigos publicados continua abaixo da média mundial. "Tivemos uma época de crescimento, enquanto a China estava se aproximando. Hoje estagnamos e a China nos passou", comentou.

Davidovich explicou que durante a crise em 2012, o Brasil cortou gastos com pesquisa. Enquanto a China informou que iria aumentar os investimentos em pesquisa, mesmo com a redução de seu PIB (Produto Interno Bruto). "Isto explica o crescimento da China."

(SBPC)

http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=2374