Notícia

Jornal da Unesp online

Reflorestamento com morcegos

Publicado em 01 dezembro 2007

Por Cinthia Leone, bolsista FAPESP

Técnica utiliza animais para espalhar sementes em áreas degradadas da Mata Atlântica e Amazônia


Pesquisadores da UNESP e da Embrapa estão utilizando morcegos para auxiliar na recomposição de florestas degradadas. Os animais usados nessa iniciativa alimentam-se de frutos e, ao defecar durante o vôo, espalham sementes de várias espécies vegetais, o que ajuda a manter as características da vegetação original da região que percorrem.

O uso desses mamíferos foi planejado pelos biólogos Gledson Bianconi, doutorando em Zoologia no Instituto de Biociências (IB), câmpus de Rio Claro, e Sandra Mikich, pesquisadora da Embrapa Florestas (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), instituição coordenadora e financiadora do estudo. Os locais escolhidos foram as regiões sul da Mata Atlântica e central da Floresta Amazônica.

No método por eles desenvolvido, aromas de frutas são espalhados em áreas onde há necessidade de recomposição florestal. Em geral, são lugares ocupados por atividades agrícolas e pastagens que precisam ser convertidas em florestas novamente para atender à legislação ambiental — pouco respeitada por inúmeros produtores rurais. O cheiro atrai os morcegos, que trazem no intestino sementes colhidas em regiões não devastadas. O resultado é um replantio mais completo, que inclui espécies vegetais que ficariam de fora do reflorestamento tradicional.

"Além de garantir a diversidade, os morcegos transportam sementes das chamadas plantas pioneiras, que são as que devem vir primeiro no processo de reflorestamento", explica Bianconi. "Isso significa que esses animais ajudam a manter as características do ambiente a ser reconstituído, o que é mais difícil no Brasil, devido à grande diversidade ecológica."

Sandra enfatiza que é preciso contar com a própria natureza para regenerar o ambiente. "O que essa técnica propõe é acelerar e direcionar o processo em áreas onde a recuperação se faz necessária", relata a bióloga. Ela reitera que são muitos os locais onde será preciso recuperar a flora original. "No bioma da Mata Atlântica, pelo menos 20% da área de uma propriedade rural deve ser recoberta por florestas, sem contar as Áreas de Preservação Permanente, como as florestas ciliares e aquelas no entorno de nascentes."


Outros estudos

De acordo com a pesquisadora, outra forma de realizar esse trabalho é montar nas regiões degradadas poleiros para aves, que também carregam sementes de frutos no tubo digestivo. "No entanto, os morcegos são mais eficientes, porque conseguem voar distâncias maiores em uma única noite e, com isso, não dependem de remanescentes florestais próximos às áreas a serem recuperadas", explica.

Bianconi adverte, porém, que a utilização do método em muitos locais exigirá estudos adicionais. "É complicado sair coletando frutos na floresta para extrair óleos essenciais", esclarece. "O passo seguinte da técnica que desenvolvemos será isolar o composto aromático para criar uma essência sintética, permitindo a produção em grande escala do produto."

As áreas onde a técnica foi implantada são monitoradas por botânicos da UFPR (Universidade Federal do Paraná), que também integram a equipe do projeto. A partir desse acompanhamento, poderá ser analisado quantitativamente o desempenho dos morcegos na reconstituição florestal. Sandra antecipa que o início da regeneração de uma floresta demora, no mínimo, dois anos, dependendo das características da vegetação.

O orientador do projeto pela UNESP, o docente Ariovaldo Pereira Cruz-Neto, do IB/Rio Claro, coordena outro estudo, em colaboração com pesquisadores do Instituto Botânico e do Instituto Florestal. Esse trabalho procura analisar o impacto da utilização desses mamíferos em regiões de reflorestamento no interior paulista. O projeto envolve alunos de graduação e pós-graduação em Zoologia do IB e deverá reunir resultados em 2008.